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Por Vanessa Jurgenfeld | De São Paulo

O economista argentino Roberto Frenkel, um dos pesquisadores do Centro de Estudios de Estado y Sociedad (Cedes) e professor honorário da Universidade de Buenos Aires, disse que há sinais de que todos os países da América do Sul estão sofrendo da doença holandesa, em graus diferentes.

“Na América do Sul, há indicações de que há doença holandesa em todos os países da região. Alguns mais, outros menos”, diz Frenkel. O país que tem menos é o Peru, que mantém uma política cambial e monetária com muito cuidado. As economias que têm mais apreciação cambial são Argentina, Brasil, Venezuela”, afirmou ao Valor PRO – serviço de informação em tempo real do Valor.

Ele, que esteve em São Paulo no encontro da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), não ordenou a pesquisa, por enquanto, de modo a avaliar exatamente qual país está pior, mas seu estudo mostra uma realidade do conjunto de países.

A doença holandesa ocorre em países que têm fartos recursos naturais e os exportam em grande quantidade, de forma que vivem uma valorização cambial que prejudica a competitividade do seu setor industrial, podendo ocasionar uma desindustrialização.

Frenkel avaliou que todos os países sul-americanos vivem uma apreciação cambial, aumentaram o custo dos salários em dólar nos últimos anos, reduziram sua dívida externa e melhoraram seu balanço de pagamentos. Em todos também a indústria vem registrando queda de sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) e há, ao mesmo tempo, redução da taxa de desemprego geral no país.

Segundo ele, foi a melhora dos termos de troca – os preços das commodities durante boa parte da década de 2000 esteve alto e esses países possuem vantagens neste tipo de produção e exportação – que sustentou os empregos e outros avanços em indicadores econômicos, ainda que a valorização das commodities tenha sido prejudicial ao setor industrial.

“A melhora dos termos de troca diminui a taxa de desemprego porque ela tem um efeito [positivo] na renda”, destacou. Sobre a mudança nos últimos anos, de redução dos valores das commodities, principalmente por uma queda de demanda da China, ele diz que, embora haja recuo, ele é ainda pequeno dada a valorização de longo prazo que esses preços tiveram. O problema, diz ele, é que não são conhecidos casos de melhora no grau de desenvolvimento econômico com doença holandesa. “Mas mantendo os termos de troca, vai haver países crescendo menos, porém sem crises de balanço de pagamentos. Se caírem os termos de troca, vai complicar, mas crise não deve haver, pelo alto volume de reservas internacionais que acumularam”, disse ele, destacando exceções na região como a Argentina, que vive questões complicadas pelo default da dívida.