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a) Por que você resolveu estudar economia?

Vim da Engenharia: me formei em Comunicações em 1970 (IME) e já me interessava por Economia antes disso. Depois de 3 anos de trabalho entrei para a primeira turma de Mestrado em Economia da UNICAMP para viver de bolsa. Como dizia na época, “não me interessa abrir a caixa-preta, e sim saber onde ela está ligada”.

b) Em que momento você teve contato com as ideias de Keynes? Qual foi sua reação a elas?

Durante o Mestrado. Também tive contato em simultâneo com Kalecki, a quem preferia por ser mais direto e menos confuso (ele também tinha currículo de engenharia, não sei se chegou a se graduar). Aprendi no Doutorado a entender e valorizar mais Keynes, não só sendo aluno da Conceição e do Belluzzo, mas lendo Minsky (principalmente o JMK de 1975).

c) Que pessoas você considera seus mentores no estudo de economia?

Mencionei dois na pergunta anterior. Acrescentaria Antonio B. de Castro, apesar de (ao menos na época) anti-Keynesiano e ainda mais radicalmente anti-Kaleckiano.

d) Você se considera um economista Keynesiano ou Pós Keynesiano?

Rótulos nunca me interessaram, porque acho que tendem a ser enganosos. Nesse caso, me sinto mais próximo dos pós-keynesianos, porque são mais autênticos em relação ao legado de Keynes e são claramente não-neoclássicos, o que Keynes nunca conseguiu (ou sequer tentou).

e) Como sua opção teórica se relaciona com sua visão política do mundo? Por que? Você se considera um social-democrata?

Acho que as duas coisas se relacionam no meu caso, embora tentar generalizar esse tipo de correlação seja muito perigoso. A definição social-democrata corresponde bem à minha posição política: reformista na economia e na sociedade, mas não anti-mercado ou anti-capitalista.

f) Qual a sua maior contribuição para o desenvolvimento do pensamento keynesiano ou heterodoxo?

Isso seria muito pretensioso: não é pergunta que se faça, porque não pode ser respondida. Mas chamando de tentativa, diria que é fundir de forma não-eclética, portanto minimamente consistente, três gigantes da economia não-ortodoxa do século XX: Keynes, Kalecki e Schumpeter, especificamente com foco na dinâmica da economia capitalista.

g) No seu livro “A Dinâmica da Economia Capitalista” você afirma que o “princípio da demanda efetiva” é “um princípio básico, universal, a ser respeitado por qualquer teoria a respeito do capitalismo, mas que em si mesmo não constitui uma teoria” (p.50). Essa afirmação contrasta com as formulações convencionais do PDE nas quais o mesmo é visto como a teoria segundo a qual o nível de renda e de emprego se constitui na variável de ajuste entre poupança e investimento. Na abordagem tradicional, a validade do princípio da demanda efetiva seria condicional a existência de capacidade ociosa e/ou desemprego involuntário da força de trabalho. Aparentemente a sua formulação do PDE prescindiria dessas hipóteses por se basear tão somente no caráter bilateral de toda transação mercantil. Mas, nesse caso, a sua formulação não seria uma mera tautologia contábil? Quais as vantagens da sua formulação  sobre a formulação tradicional do PDE?

Uma resposta adequada seria extensa demais, portanto vão só alguns tópicos telegráficos, pela ordem da pergunta: (i) não há ajuste nenhum entre poupança e investimento (nem em Keynes! não é minha invenção), e sim uma relação de determinação unilateral do segundo para a primeira, porque a poupança é um resíduo da renda em relação ao consumo – ninguém decide poupar! (ii) a validade do PDE não depende de capacidade ociosa (a qual, aliás, quase sempre existe em algum grau, mas isso não vem ao caso), podendo valer perfeitamente em termos nominais, mesmo se gerando inflação; (iii) “minha hipótese” (é uma interpretação de Keynes e Kalecki, ao mesmo tempo) não se baseia no caráter bilateral de qualquer transação, que é uma trivialidade – e se fosse só isso seria mesmo uma tautologia!-, e sim no caráter unilateral da determinação causal que, pelo PDE, se estabelece entre o gasto monetário (única decisão autônoma de um agente na troca) e a receita (que não é uma decisão autônoma – ninguém decide receber, apenas gastar, porque só o detentor de moeda pode escolher livremente como dispor do poder de compra, e por isso só ele é autônomo numa transação em uma economia mercantil-monetária!); (iv) a “vantagem” da minha formulação, se me permite a aparente pretensão, é que ela é mais geral e tem o conteúdo essencial mais nítido por ser menos exposta a particularidades e idiossincrasias. É como se apresentasse as estritas condições necessárias e suficientes para a validade do PDE, sem grandes rodeios e particularidades. Note-se que só requer uma economia mercantil-monetária, sequer especificamente capitalista.

h) Outro ponto que você aborda no seu livro é que a maneira pela qual Kalecki trata as expectativas na sua função investimento, ao invés de ser antagônica a análise de Keynes, é compatível com o conceito de comportamento convencional apresentado no capítulo 12 da Teoria Geral, segundo o qual “o presente é um bom guia para o futuro”. Contudo, nesse capítulo Keynes aparentemente restringe a validade do comportamento convencional aos mercados financeiros, enquanto você estende o mesmo para as decisões de investimento em capital fixo tomadas por empresas do setor produtivo da economia. Qual a base teórica para essa extensão?  Por que é tão importante para a dinâmica das economias capitalistas que o estado de expectativas de longo-período seja, ao menos em parte, endogeneizado? Essa não é uma fonte importante de divergência com respeito aos pós-keynesianos como Paul Davidson e Jan Kregel?

No seu livro mais importante, Teoria da Dinâmica Econômica (1954), Kalecki teve o objetivo de analisar a trajetória dinâmica de uma economia capitalista sob a premissa de estrutura estável, com a qual busca explicar os ciclos endogenamente e a tendência de crescimento a longo prazo de forma analiticamente exógena, associada justamente à mudança estrutural. Quase não diz nada sobre expectativas relativas ao investimento, mas o importante é que implicitamente estas são adaptativas, e portanto compatíveis com a ideia keynesiana de comportamento convencional e, mais especificamente, sua “teoria prática do futuro”. Essa compatibilidade a meu ver é objetiva, não dependendo em nada da intenção explícita dos autores envolvidos. Essa endogeneização é importante para explicar teoricamente a ocorrência de flutuações à luz do PDE apenas, sem recorrer (como em Schumpeter) às mudanças estruturais, por essenciais que estas sejam para explicar o crescimento a longo prazo e eventuais “ondas longas” na economia capitalista. Não vejo nenhuma divergência relevante, real ou potencial, com autores pós-keynesianos de referência, só pelo fato de não gostarem de Kalecki, ou não o interpretarem dessa forma, ou simplesmente não terem tratado desse assunto.

i) Um problema fundamental dos modelos neo-keynesianos de crescimento e ciclo com base na interação entre multiplicador e acelerador é que os mesmos são incapazes de apresentar uma explicação teórica unificada para os ciclos e a tendência de longo-prazo. Dessa forma, se os parâmetros desses modelos forem calibrados para produzir flutuações cíclicas – como em Kalecki (1954) – então a tendência tem que ser “exogenamente” determinada, ou seja, tem que ser explicada por outras variáveis que não a dinâmica da demanda efetiva. Kalecki tentou explicar a tendência com os “fatores de desenvolvimento” (ao meu ver, sem sucesso)  mas você preferiu utilizar as ideias de Schumpeter para explicar a tendência de longo-prazo. Conte um pouco como a síntese Kalecki-Schumpeter pode ser usada para tratar do problema da integração entre ciclo e tendência.

Kalecki de fato pode ser agregado a essa tradição de teorias do ciclo (ou crescimento, dependendo dos parâmetros) baseadas na interação do multiplicador com uma função investimento do tipo acelerador ou mais sofisticada (como em Kalecki). Discordo de que a tentativa de integração entre ciclo e tendência proposta por Kalecki no livro de 1954 seja um fracasso, muito pelo contrário. A ideia de que seria preciso uma “explicação teórica unificada”. como discuti em meu livro citado, é uma quimera sem qualquer significado teórico ou epistemológico, apesar de compartilhada por numerosos economistas desde os anos 1940. Como sugeri acima (e aprofundei no meu livro citado), os processos dinâmicos que geram flutuações e tendência são teoricamente completamente distintos, respectivamente a dinâmica de uma estrutura estável (centrada no PDE, por interação multiplicador do com uma função investimento de tipo acelerador) e a dinâmica da mudança estrutural (os tais “fatores de desenvolvimento”, na verdade explicados com mais profundidade por Schumpeter). Assim, a tal “integração teórica” é simplesmente desnecessária, porque essas duas dinâmicas são distintas. Certamente não são somáveis, como supôs Kalecki para simplificar seu modelo (assumindo implicitamente uma equação a diferenças linear com termo constante), mas é claro que são – como devem ser – integráveis analítica e modelisticamente, senão por solução analítica, que se torna horrivelmente complicada, mas por simulação computacional, como eu prefiro. Por tabela, Kalecki e Schumpeter poder se tornar essencialmente complementares, e não antagônicos, talvez para desgosto de ambos. Mas devemos lembrar que os trabalhos científicos, por maiores e mais respeitáveis que sejam seus autores, são fatalmente matéria-prima reciclável e remoldável pela indústria de transformação do trabalho científico posterior.

j) Para aqueles que conhecem os seus escritos do final dos anos 1980 – os quais derivaram, em larga medida, de sua Tese de Doutorado, a sua linha de pesquisa mais recente com modelos evolucionários de simulação parece ser o coroamento do processo de síntese das ideias de Keynes, Kalecki e Schumpeter que você fez na sua Tese de Doutorado. Essa interpretação é correta? Como você avalia a importância dos seus modelos de simulação para o desenvolvimento do pensamento heterodoxo como uma alternativa viável ao mainstream acadêmico?

Correto. A economia capitalista pode e deve ser caracterizada como um sistema complexo evolutivo; logo a ciência econômica precisa adotar como método, por congruência com seu objeto, uma análise de sistemas complexos com enfoque evolucionário, o que implica o abandono de premissas de equilíbrio e o foco sobre trajetórias sem tendências a priori, derivadas de interações complexas sob incerteza, que geram processos não-ergódicos e não-estacionários, como quer corretamente Davidson e os pós-keynesianos. O método de simulação é o caminho principal, embora não exclusivo, nessa direção, dado que a busca de soluções analíticas nesse contexto se torna na maioria dos casos importantes inviável. Mas, do ponto de vista das relações de determinação causal e das grandes opções teóricas e analíticas, as referências e autores certamente não precisam se limitar a esse tipo de modelagem. Além de Marx, com a matriz teórica mais geral, seguido de Keynes, com sua teoria geral das aplicações de capital e das decisões capitalistas, Schumpeter e Kalecki contribuem complementarmente para essa análise, mediante uma integração n]ao eclética, malgrado as seitas e igrejinhas. Sua contribuições são grandes demais para nos darmos ao luxo de largá-los pelo caminho, só porque sua compatibilidade recíproca não é óbvia e nem mesmo fácil. O sectarismo é a maldição dos que lutam contra a corrente, em qualquer atividade humana que envolva o intelecto, e que inexoravelmente também não escapa de envolver a paixão e os interesses.

k)  Como você avalia a Associação Keynesiana Brasileira?

Uma iniciativa altamente meritória, muito importante para nuclear um esforço heterodoxo na Economia e na política econômica. É uma honra fazer parte do conselho de patronos. Meus melhores votos de sucesso crescente, nessa fase de crise e descrença generalizada na capacidade de fazer e usar Economia de forma comprometida com o realismo e a objetividade, sem ceder à mistificação e à doutrinação que continuam a ser feitas em nome da pseudociência simplória do mainstream.