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One dog barks at something, and a hundred bark at the bark, Chinese proverb

When a hundred men stand together, each of them loses his mind and gets another one, F. Nietzsche

They called me mad, and I called them mad and damn them, they outvoted me, Nathaniel Lee

If everyone is thinking alike then, somebody isn’t thinking, General George Patton

Além de ter sido o economista mais importante do século XX, John Maynard Keynes fez uma pequena fortuna no mercado acionário, numa de suas facetas pouco conhecidas por analistas e estudiosos do tema. Em 1946, 5 meses depois de sua morte, os números de seu patrimônio vieram a público: 480,000 pounds da época ou o equivalente a 30 milhões de dólares em valores de hoje. Ainda que grande parte de sua vida tenha sido dedicada as artes, ao conhecimento e ao serviço publico, sobrou tempo para fazer fortuna no mercado financeiro. Keynes não recebeu herança pois morreu antes de seus pais.

Maynard, como era conhecido pelos amigos, começa sua carreira de especulador fazendo trading de moedas nos anos 20. Seguindo as idéias do seu primeiro best-seller, “The Economic Consequences of Peace”, começa a apostar nos movimentos das moedas européias logo apos o termino da primeira guerra mundial. Ganha muito dinheiro inicialmente mantendo posições compradas em dólares e vendidas nas moedas dos países continentais europeus. Apos o sucesso inicial sofre um revés no mercado de moedas perdendo praticamente tudo no final de 1920. Mas não desiste. Toma empréstimos, se alavanca, liquida sua posição de ações para voltar a investir em moedas e finalmente é recompensando. Em 1922 tinha já recuperado tudo que foi perdido e seu patrimônio estava na casa de 21.000 pounds (1.5 milhões de dólares em valor atual).

Com a volta do padrão ouro e o câmbio fixo na Inglaterra em 1925, o trade de moedas deixa de ser relevante e Keynes muda seu foco para commodities e ações em Wall Street e na City. Ganha muito dinheiro até 1928 quando o mercado começa a virar. Suas posições em borracha, milho, algodão sofrem perdas enormes, obrigando-o a liquidar grande parte do seu porto folio de ações em Wall Street. Quando finalmente vem o choque de 1929, as poucas ações que ainda lhe restavam viram pó. Seu patrimônio a época sofre um revés de 80%, caindo de 44.000 pounds em 1928 para 8.000 pounds 2 anos depois. Pela segunda vez na vida Keynes estava à beira do precipício financeiro.

A partir dos anos 1930, entretanto, Keynes abandona seu método de “momentum investing” ou “anticipatory trading” onde se tenta bater o mercado antecipando tendências. Passa a se desiludir com esse approach top-down ou de “credit-cycle investing”, como chamava. Para ganhar dinheiro com tal estratégia o investidor deve ser capaz de entrar e sair na hora certa do movimento de manada. Mas o que ocorre na maioria dos casos é uma entrada tarde demais ou ainda uma saída atrasada. Além dos custos incorridos na operação, o timing correto de entrada e saída no curto prazo é praticamente impossível de se prever segundo Keynes. Ou como diz Justyn Walsh na sua breve biografia de Keynes: “momentum investors operate in an Alice in the wonderland world of second-guesses- a crazy, reflexive hall of mirrors where individuals attempt to fathom what average opinion expects the average opinion to be”.

Keynes transforma-se então num investidor fundamentalista, com foco em ações particulares (ao invés de índices), baseando-se em suas próprias análises sobre o futuro de companhias especificas e não em retornos passados ou julgamentos de mercado. Com essa mudança de estratégia consegue rapidamente recuperar seu patrimônio a partir de barganhas encontrados no pós-crash. Saindo dos 8.000 pounds que haviam lhe restado em 1929 (sem contar a triste memória da venda de seu Matisse preferido na época da crise), multiplica seu patrimônio para a impressionante quantia de 500.000 pounds quando a Teoria Geral é publicada em 1936. A mudança de postura segundo o próprio Keynes significava agora não mais especular “the activity of forecasting the psycology of the market” para se dedicar a investir de verdade, que significa “forecasting the prospective yield of assets over their whole life”. Em seus termos, o verdadeiro investidor está preocupado com “ultimate values” e “não exchange values” das companhias.

Em sua nova postura de investidor “contrarian” e de “stock-picking”, algumas regras se destacam. Sua postura básica torna-se “buy and hold”. Concentra-se em buscar poucas ações cujo valor de mercado oferece grande distorção em relação ao valor intrínseco estimado. Quanto maior esse gap ou “buffer”, maior a margem de segurança para se investir na companhia. O truque aqui é esperar (muito tempo as vezes) o mercado voltar a ser capaz de precificar adequadamente um ativo que por algum motivo está mal precificado. Para Keynes, o mercado oscila entre momentos de lucidez e fases de pânico, depressão ou euforia e cabe ao investidor sábio tirar proveito disso mantendo uma perspectiva de longo prazo. Um portfólio concentrado oferece também grande vantagem segundo Keynes. A diluição é a medida de nossa ignorância. Então quanto menos sabemos sobre os ativos, mais diversificamos. A melhor estratégia de investimento é conhecer bem poucos ativos e carregar grandes quantidades em carteira. Ficar “quieto” e evitar tradings excessivos, com altos custos de transação. O que não significa, obviamente, esquecer do mercado e não mudar conforme as condições que afetam os ativos mudam.

Keynes ficou rico investindo na bolsa de valores, sem dúvida. Apesar de ter enriquecido, o dinheiro nunca foi sua prioridade, mas tão somente um meio para uma vida bem vivida. Como bem destaca Walsh, “Moneymaking, Keynes thought, should be accorded its proper place- as an amusement, an intellectual game, a means to secure the good things in life”.

Para ler mais sobre o assunto:

1)Keynes and the Market, Justyn Walsh, 2008, ed. John Wiley and Sons, New Jersey

2)Keynes, the return of the master, 2009, Robert Skidelsky, ed. Public affairs, New York

Paulo Gala. EESP-FGV.