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Esta nota tem por objetivo oferecer algumas respostas à crítica do Sr. Alexandre Schwartsman (em 29/03), divulgada em seu blog de forma pouco civilizada diga-se de passagem, referindo-se à um artigo de opinião que publicamos no dia 25/03/2010 no jornal Valor Econômico. No artigo de opinião, que tem o título repetido acima, alegamos, essencialmente, que o câmbio não tem sido uma variável determinada exclusivamente pelas forças de mercado em importantes países, entres eles os principais parceiros comerciais do Brasil, com destaque para EUA e China, que juntos detinham 24,3% das exportações brasileiras entre jan-out/2009. E que se o Brasil deixar a sua taxa de câmbio determinada pelo mercado, num contexto conjuntural local e internacional que conduz a valorização cambial, poderá ser empurrado para a “maldição das commodities”. Metaforicamente, nos referimos às estratégias americanas e chinesas em relação às suas moedas, como descrevendo uma coreografia semelhante á um tango, visto as duas moedas estarem atreladas (peg cambial).

A crítica do Sr. Alexandre Shwartsman concentra-se basicamente em afirmar que a metáfora que usamos é inapropriada. Os termos “bizarros” e “bobagem” usados na crítica não esclarecem muito o que o autor quer dizer, mas em essência ele afirma que estamos cometendo uma tautologia ao sugerir um tango para duas moedas que estão atreladas (“peg”). Para justificar sua posição o autor apresenta dois gráficos. O primeiro gráfico mostra duas linhas; uma linha para o dólar contra uma cesta de moedas “que contém o euro, o iene, a libra, o dólar canadense, a coroa sueca e o franco suíço”; e uma segunda linha para “o desempenho do yuan contra o dólar”. O segundo gráfico plota a trajetória do dólar e do yuan contra a mesma cesta de moeda, e produz o que nos referimos como um tango e que para o autor é apenas um resultado circular e portanto não diz nada.

A crítica do Sr. Alexandre não procede, por vários motivos. Primeiro ele recorre a subterfúgios estatísticos criando uma cesta de moedas com a qual comparar o dólar para confundir o leitor. Devemo-nos nos perguntar, sinceramente, qual a relevância da coroa Sueca, ou do dólar Canadense no comércio brasileiro, para que se inclua tais moedas na cesta? É claro que ao construir uma cesta podemos obter diferentes curvas ao combinar diferentes moedas. Só faltou ao autor da crítica incluir na sua cesta o Lek da Albânia e o Pa’anga de Tonga. Além disto, o primeiro gráfico do autor simplesmente não faz sentido, pois compara dólar com cesta e depois dólar com yuan, isto é, compara elementos de natureza distintas. É claro que produzirá curvas diferentes. Este primeiro gráfico não tem valor algum, senão o de cumprir um objetivo escuso de iludir o incauto leitor. A questão é mesmo entre dólar, yuan e real.

A segunda inconsistência da crítica refere-se à interpretação do segundo gráfico, onde yuan e dólar quando comparados entre si fazem quase o mesmo traçado no tempo. Um coeficiente de correlação muito próximo de 1 (positivo). O segundo gráfico é o que genuinamente chamamos de tango, e que o autor chama de circularidade. E aqui reside o ponto principal do nosso artigo e que o autor não compreende, ou faz de conta que não, dado que é de seu interesse. A questão básica não é se políticas cambiais do tipo pegs (câmbios atrelados) produzem curvas iguais ou se curvas iguais refletem regimes pegs. Não sejamos tão simplórios. O que importa é o fato maior e mais significativo para a estratégia dos países na economia mundial, de que a existência de regimes pegs não é nem resultado de equilíbrios de mercados, nem ilusões de óticas postas em formas gráficas. A existência de regimes pegs denunciam escolhas políticas de nações soberanas, que sabem quando orientar-se pelos sinais de mercado e quando não, e sabem articular-se no sistema comercial e financeiro mundial para atingir seus propósitos. A existência de regimes pegs denuncia que há nações que não se curvam à interesses muito segmentados de um ou outro setor da economia e que sabem equilibrar os interesses individuais com os interesses coletivos de toda uma sociedade.

No caso sino-americano, as moedas estão atreladas desde 1994 e isto é reconhecido pelo mundo inteiro. Não estamos dizendo nada de novo neste ponto. O fato concreto é que nesta dança a dois, por mais que um dos parceiros não queira dançar o outro não desgarra. Por mais que os EUA queira desatrelar sua moeda, os chineses não permitem, pois adotam variações proporcionais do yuan de modo a manter a competitividade internacional de seus produtos, ou resistem às pressões para valorização. Como são as duas maiores economias do mundo (a China ultrapassará o PIB japonês em breve) é evidente que os desequilíbrios entre as duas e suas respectivas políticas cambiais afetam os mercados cambiais dos demais países. Podemos entender isso usando a própria noção de equilíbrio geral na qual quando um dos mercados modifica seus preços, como os governos chinês e americano vêm fazendo com a taxa cambial, os demais mercados devem se ajustar.

A questão essencial que a nosso ver é relevante, e que parece passar distante dos olhos da crítica, ou se passa parto ela os fecha para não enxergar, é a existência de um regime peg entre as duas maiores economias e suas consequências para países em desenvolvimento. Ao deslocar a discussão para a propriedade dos gráficos e para a circularidade da dança, além de fazê-lo de forma errada e inconsistente, a crítica foge do essencial. As críticas efetuadas possuem, na verdade, o objetivo disfarçado de conduzir o debate à uma rota de fuga da questão essencial em torno do câmbio do Brasil, posto que interesses particulares estão em jogo.

Quer nos parecer que a crítica do Sr. Alexandre Schwartsman está longe, muito longe mesmo, de se pautar por um mínimo de rigor científico sobre o tema do câmbio no Brasil. Além do mais, a forma, digamos, deselegante de conduzir o debate em seu blog, denota certo desespero e irritabilidade que o faz perder a capacidade de análise. Seus objetivos parecem se mover em outros planos de interesses. Causa grande estranheza que um homem em sua posição profissional e formação acadêmica se preste ao tipo de reação postada em seu blog e se preste a uma crítica tão superficial e tão infundada.

Inicialmente não iríamos rebater os comentários do Sr. Alexandre Schwartsman, devido a sua ausência de compromisso com a verdade e falta de educação. No entanto recebemos inúmeros emails de leitores aos quais achamos que devemos satisfação, o que nos fez mudar de opinião. Mas gostaríamos desde já dar por encerrado este episódio. Vamos continuar debatendo e refletindo sobre economia e política evidentemente, mas faremos isso em fóruns mais legítimos.