Número Especial da Revista Ensaios com o Selecta do Encontro de 2014

Caros amigos,

Vejam o número especial da Revista Ensaios do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia com os melhores artigos apresentados no VII Encontro Internacional da AKB em : http://www.seer.ufu.br/index.php/revistaeconomiaensaios.

Boa leitura e feliz 2015.

José Luis Oreiro
Presidente da Associação Keynesiana Brasileira.

Câmbio, Indústria e Crescimento (Valor Econômico, 17-09-2014)

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Câmbio, indústria e crescimento

◾Por José Luis Oreiro e Nelson Marconi

Durante o VII Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira, realizado recentemente em São Paulo, tivemos a oportunidade de debater com dois importantes expoentes do pensamento ortodoxo brasileiro o papel da indústria de transformação no crescimento econômico de longo-prazo. Nossa posição, baseada na teoria keynesiano-estruturalista e apoiada em ampla evidência empírica, é que um crescimento robusto da produção industrial é condição fundamental para o crescimento da economia como um todo a taxas significativas.

Isso porque a indústria de transformação é o setor onde predominam os retornos crescentes de escala, materializados na chamada lei de Kaldor-Verdoorn, a qual estabelece a existência de uma relação estrutural entre a taxa de crescimento da produtividade do trabalho (dentro e fora da indústria de transformação) e a taxa de crescimento da produção industrial. Nesse contexto, uma expansão robusta da produção industrial gera os ganhos de produtividade que permitem um crescimento acelerado da economia como um todo, ao mesmo tempo em que mantem a inflação em patamares baixos e estáveis.

No caso brasileiro observamos que a produção industrial, após uma rápida recuperação dos efeitos da crise financeira internacional de 2008, encontra-se estagnada desde o primeiro semestre de 2011. Essa estagnação eliminou a fonte dos retornos crescentes de escala na economia brasileira, razão pela qual os demais setores de atividade econômica, notadamente os serviços, passaram a ter um ritmo cada vez menor de crescimento, a ponto de, no primeiro semestre de 2014, apresentarem sinais nítidos de estagnação.

Uma expansão robusta da produção industrial gera os ganhos de produtividade para um crescimento acelerado

Qual a razão da estagnação da produção industrial? Ao contrário da equipe econômica do governo, não acreditamos que a razão dessa estagnação seja a insuficiência de demanda efetiva. Com efeito, desde 2011 o governo brasileiro vem dando rodadas sucessivas de estímulo fiscal e de crédito para a economia brasileira, com resultado praticamente nulo sobre o desempenho da produção física da indústria de transformação.

Enquanto a produção industrial e o nível de utilização da capacidade reduziram-se 1% entre 2011 e 2013, o faturamento real do comércio ampliou-se em 19%, o volume das importações de produtos industriais em 32% e o próprio faturamento real da indústria em 9%. Os dados demonstram que parcela significativa dos estímulos à demanda doméstica vazou pelo exterior, isto é, beneficiou os produtores em outros países, devido à sobrevalorização de nossa moeda.

Está claro que o novo ciclo de elevação da taxa Selic, iniciado em meados do ano passado, atuou como um mecanismo potente no sentido de frear a expansão da demanda agregada. Contudo, a produção industrial já patinava mesmo durante a fase em que a taxa Selic estava ao nível de um dígito; ao reduzir a demanda agregada, a política monetária mais apertada conseguiu apenas estancar a contínua elevação das importações.

O problema da indústria brasileira é que a política econômica dos últimos anos implicou uma lenta, gradual e segura perda de competitividade externa, motivada pela combinação mortal entre apreciação cambial, elevação dos salários acima da produtividade do trabalho e deterioração dos elementos “sistêmicos” da competitividade em função do baixo investimento em infraestrutura e da persistência do baixo nível de treinamento e qualificação da força de trabalho. Por consequência, o investimento privado permaneceu reduzido e, consequentemente, também a poupança.

Leonardo Rodrigues/Valor

A restauração da competitividade da indústria brasileira requer, portanto, um ataque simultâneo aos elementos “espúrios” e “sistêmicos” da competitividade, ou seja, é necessário reduzir o custo de produção por intermédio de um realinhamento da taxa real de câmbio e da vinculação dos ganhos salariais ao crescimento da produtividade do trabalho, ao mesmo tempo em que se investe na melhoria do ambiente no qual as empresas industriais realizam suas atividades.

Essas medidas têm, contudo, timing diferente no que se refere à obtenção de resultados. A competitividade sistêmica é algo que se obtém no médio e longo prazo com pesados investimentos, públicos e privados, em obras de infraestrutura, na educação, treinamento e qualificação da força de trabalho e na inovação tecnológica. Essas medidas são fundamentais, mas só darão resultado num horizonte de 5 a 10 anos. No curto prazo, ou seja, no horizonte de um mandato presidencial, o que se pode fazer é ajustar a taxa de câmbio e adotar uma política negociada com os sindicatos de moderação salarial.

O ajuste da taxa real de câmbio vai exigir uma mudança profunda na condução da política fiscal. Para viabilizar a queda da taxa de juros, a desvalorização cambial e minimizar o impacto inflacionário desta última, a política fiscal terá que ser voltada para a geração de poupança pública positiva, em vez de se preocupar com o conceito enganoso (e cada vez mais desacreditado por conta das pedaladas fiscais) de superávit primário.

Nesse contexto, defendemos a adoção de um regime de metas de poupança pública, no qual o Tesouro Nacional seria obrigado por lei a obter uma meta para a variável poupança pública/PIB. Como atualmente a poupança pública/PIB é próxima de zero, o ideal é que as metas sejam levemente crescentes ao longo do tempo de forma a atenuar o impacto da mudança do regime fiscal sobre o nível de atividade econômica e de emprego.

José Luis Oreiro e Nelson Marconi são, respectivamente, presidente e vice-presidente da Associação Keynesiana Brasileira. O artigo expressa a opinião pessoal dos autores.

Doença holandesa é um problema de toda a América do Sul, diz economista (Valor Econômico, 18-08-2014)

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Por Vanessa Jurgenfeld | De São Paulo

O economista argentino Roberto Frenkel, um dos pesquisadores do Centro de Estudios de Estado y Sociedad (Cedes) e professor honorário da Universidade de Buenos Aires, disse que há sinais de que todos os países da América do Sul estão sofrendo da doença holandesa, em graus diferentes.

“Na América do Sul, há indicações de que há doença holandesa em todos os países da região. Alguns mais, outros menos”, diz Frenkel. O país que tem menos é o Peru, que mantém uma política cambial e monetária com muito cuidado. As economias que têm mais apreciação cambial são Argentina, Brasil, Venezuela”, afirmou ao Valor PRO – serviço de informação em tempo real do Valor.

Ele, que esteve em São Paulo no encontro da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), não ordenou a pesquisa, por enquanto, de modo a avaliar exatamente qual país está pior, mas seu estudo mostra uma realidade do conjunto de países.

A doença holandesa ocorre em países que têm fartos recursos naturais e os exportam em grande quantidade, de forma que vivem uma valorização cambial que prejudica a competitividade do seu setor industrial, podendo ocasionar uma desindustrialização.

Frenkel avaliou que todos os países sul-americanos vivem uma apreciação cambial, aumentaram o custo dos salários em dólar nos últimos anos, reduziram sua dívida externa e melhoraram seu balanço de pagamentos. Em todos também a indústria vem registrando queda de sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) e há, ao mesmo tempo, redução da taxa de desemprego geral no país.

Segundo ele, foi a melhora dos termos de troca – os preços das commodities durante boa parte da década de 2000 esteve alto e esses países possuem vantagens neste tipo de produção e exportação – que sustentou os empregos e outros avanços em indicadores econômicos, ainda que a valorização das commodities tenha sido prejudicial ao setor industrial.

“A melhora dos termos de troca diminui a taxa de desemprego porque ela tem um efeito [positivo] na renda”, destacou. Sobre a mudança nos últimos anos, de redução dos valores das commodities, principalmente por uma queda de demanda da China, ele diz que, embora haja recuo, ele é ainda pequeno dada a valorização de longo prazo que esses preços tiveram. O problema, diz ele, é que não são conhecidos casos de melhora no grau de desenvolvimento econômico com doença holandesa. “Mas mantendo os termos de troca, vai haver países crescendo menos, porém sem crises de balanço de pagamentos. Se caírem os termos de troca, vai complicar, mas crise não deve haver, pelo alto volume de reservas internacionais que acumularam”, disse ele, destacando exceções na região como a Argentina, que vive questões complicadas pelo default da dívida.

Para economistas, baixa poupança é obstáculo ao crescimento (Valor Econômico, 15-08-2014)

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O baixo nível de poupança do Brasil foi destacado por alguns economistas ontem como um dos maiores entraves aos investimentos, à recuperação da indústria e, principalmente, ao crescimento da economia com taxas mais robustas. O assunto foi destaque no ciclo de debates promovido em São Paulo pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB).

“Se o Brasil tivesse a mesma poupança que a da China, seu PIB seria 10% maior hoje”, ressaltou o economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Samuel Pessôa. A poupança nacional brasileira – a soma de tudo que as pessoas, as empresas e o governo economizam de sua renda – gira em torno dos 15% do PIB, enquanto na China e em outros asiáticos essa proporção passa dos 40%. Ele explica que um ciclo de crescimento longo e sustentável passa, em um primeiro momento, pelo aumento da renda, e, em um segundo, pelo aumento da poupança, o que mantém a liquidez em alta e continua sustentando novos investimentos. “No Brasil não se chega nessa etapa . Sempre que o crescimento se acelera, se aloca um parte da renda para o consumo”, disse.

“Ninguém fica rico com a poupança dos outros”, disse Fernando de Holanda Barbosa, pesquisador da FGV e secretário de política econômica do governo Itamar Franco, lembrando que pouca liquidez interna significa dependência de capital estrangeiro. “O Brasil precisa seguir o modelo asiático: poupança elevada, educação de primeira e investimentos em infraestrutura.”

O consumo, no entanto, não precisa necessariamente ser visto como um entrave à poupança. Levantamento feito por outro professor da FGV, Nelson Marconi, com base nas médias das contas nacionais de 2000 a 2009, revelou que 67% da poupança nacional é formada pelo capital de empresas. “Ou seja”, disse Marconi, “não podemos discutir o consumo só como inimigo. O grosso da nossa poupança vem dos lucros das empresas, e é assim em outros países também. E elas precisam que as pessoas consumam para que tenham lucros, poupem e invistam.”

O debate ontem também envolveu a questão da desindustrialização brasileira. José Luís Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da AKB, lembrou que o país passa por uma “desindustrialização precoce”. Isso, segundo ele, é um fenômeno negativo no país, que vem, entre outros aspectos, acompanhado da doença holandesa, que ocorre com países onde a abundância de recursos naturais conduz a taxa de câmbio a uma sobrevalorização, que, como consequência, tem um efeito negativo sobre os produtos industriais, reduzindo sua competitividade e diminuindo a participação da indústria na economia.

Oreiro explica que há a desindustrialização positiva, que marcou o processo dos países desenvolvidos e se caracteriza pela transferência do parque industrial para países de custo mais baixo e da elevação do nível de tecnologia dos manufaturados na pauta de exportação industrial restante. Mas este não é o caso do Brasil, diz, onde a desindustrialização não só começou antes de o país de fato atingir uma alta renda per capita, como também mostra uma “reprimarização” da pauta de exportação.

Segundo levantamento feito por Marconi, a renda per capita nos principais países desenvolvidos nos anos 70, quando a indústria passou a perder participação em seu PIB, ia de US$ 8 mil ao ano a US$ 12 mil ao ano, feito o ajuste por paridade de compra. No caso do Brasil, a curva de participação da indústria dentro da economia começou a se inclinar para baixo nos anos 90, quando o PIB per capita do país era de US$ 4 mil.

Inflação e poupança são preocupações de economistas em 2015 (DCI, 14-08-2015)

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Algumas das principais preocupações dos economistas para os próximos anos são de que forma o Brasil irá poupar para conseguir realizar investimentos em setores impo… SÃO PAULO

Algumas das principais preocupações dos economistas para os próximos anos são de que forma o Brasil irá poupar para conseguir realizar investimentos em setores importantes e como irá controlar o processo inflacionário.

Em entrevista ao DCI, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Fábio Terra, opina que a política monetária de regime de metas de inflação, sozinha, não é suficiente para estabilizar os preços. “A inflação tem muitas causas e somente um instrumento para controlá-la não é suficiente. É preciso que política monetária estabeleça novos instrumentos que a auxiliem”, ressalta.

“Precisamos de políticas de restrição sobre o crédito e também estimular investimento para que tenhamos redução dos custos de produção. Além disso, é necessário terminar – e para a nossa sorte isso irá acontecer – com a indexação automática dos salários com a inflação, porque isso é um problema sério para a economia brasileira”, complementa Terra, ressaltando que a indexação gera um círculo vicioso, retroalimentando a inflação.

“O desafio para o próximo governo, portanto, é conseguir convencer a sociedade brasileira de que a inflação tem varias motivações e que essas podem ser evitadas, desde que nós estejamos dispostos a investir produtivamente e controlar a inflação a médio prazo”, diz Terra. “Se o governo conseguir passar bem essa mensagem para a sociedade, as pessoas irão ficar mais calmas em relação à inflação. E isso ajuda para que a inflação se contenha, já que também é uma questão de expectativa”, complementa.

Poupança

Para o professor da Fundação Getulio Vargas ( FGV ), Fernando de Holanda Barbosa, uma das formas de promover o crescimento do País é aumentar o nível de poupança. “Aumentando a poupança do Brasil, nós resolvemos diversos dilemas, como problemas da indústria, dos juros, entre outros”, afirma ele em palestra realizada pela FGV e pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB), ontem, em São Paulo.

Barbosa exemplificou com o crescimento de países no continente asiático, impulsionado pela formação forçada de poupança. “O Brasil teve poupança forçada na década de 1960. O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço [FGTS] era 8% da força de salário. O imposto era associado com investimentos em energia, estradas e nas telecomunicações”, relembra Barbosa no evento.

“Precisamos voltar a ter impostos que estejam ligados aos investimentos”, finaliza ele.

Sobre essa questão, o professor da UFU, questionado pelo DCI afirma que, em sua opinião, a poupança é resultado de investimento. “Todo investimento é uma passagem de renda de A para B. B que recebe renda de A decide se vai consumir e poupar”, explica Terra.

“Nesse sentido, acredito que o que é fundamental no Brasil é ter boas expectativas, porque, dessa forma, o investidor é estimulado a fazer investimentos, podendo utilizar recursos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] ou utilizando outra forma de captação no mercado de capitais” afirma o professor.

Sobre o caso asiático, Terra comenta que o modelo chinês é difícil de ser comentado, por ser diferente do resto do mundo. Além disso, elenca alguns fatores da poupança forçada ter dado certo nesse país, como a ausência de fundos de previdência e bancos dependentes do Banco Central

Sobre o Japão, Terra comenta que o nível elevado de poupança nesse país é resultado de grandes investimentos norte-americanos que foram realizados em sua reconstrução.

Gastos públicos

Na atividade da FGV , o economista Samuel Pessoa comentou que os benefícios sociais implementados nos últimos anos tem impacto em cinco ponto percentual nos gastos públicos.

Já o economista José Luís Oreiro defendeu uma política de moderação salarial como forma de reduzir as pressões inflacionárias sem elevação da taxa de desemprego. “A única maneira que eu vejo para mudar esse cenário é uma política negociada de rendas entre empresários, sindicatos e governos. É preciso sentar e conversar para estabelecer mecanismos de comum acordo de moderação salarial”, afirma Oreiro.

“Sem essa alternativa, o BC terá que subir os juros até que a taxa de desemprego comece a aumentar. Nesse caso, teremos uma moderação salarial realizada pela força, que é quando os sindicatos não tem mais poder de barganha”.

O economista Nelson Barbosa esteve no evento da FGV na última quarta-feira, onde ministrou um curso sobre crescimento e distribuição de renda.

Para Barbosa, recuperação virá a partir de 2015 (Valor Econômico, 14-08-2014)

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Lucinda Pinto De São Paulo

A deterioração do nível de confiança na economia, observada nos últimos meses, é um fenômeno típico dos anos de eleições. E, como aconteceu em outros anos de disputa eleitoral, deve ser revertida assim que houver definição do próximo presidente. Essa é a avaliação do ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa, que participou ontem de curso promovido pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB), na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.

Ele lembra que a queda da confiança afeta o desempenho da atividade, mas que haverá recuperação. A questão é em que velocidade isso ocorrerá. O economista afirmou que a economia brasileira tipicamente se recupera rapidamente após os efeitos de choques. Isso aconteceu, por exemplo, em 2010 e deve ocorrer também a partir de 2015. Barbosa traça um cenário em que, em uma situação mais extrema, os ajustes esperados de preços administrados sejam feitos de uma vez, a inflação dispararia para 7,5% e o crescimento do PIB ficaria em 1%.

No ano seguinte, a inflação cederia para 6,45%e, em 2017, para 4,5%. já o Pl8 avançaria a taxas de, respectivamente, 4%e 3%. “Hoje, a inflação esperada está alta, porque os preços administrados continuam represados. Assim que eles forem corrigidos, a inflação corrente dispara, mas a expectativa cai”. O ajuste, diz Barbosa, já começou. Mas, enquanto não for completado, a inflação corrente ficará relativamente alta. “Foi o que aconteceu em 2003 e em 2009”, acrescentou. O economista avaliou ainda que o nível do estoque de contratos de swap cambial ofertados pelo Banco Central (BC) pode estar perto do “adequado”. Ele diz que não há um consenso sobre qual é o ponto ótimo para a oferta desse instrumento, utilizado como proteção contra a variação cambial. Para o economista, no entanto, a discussão sobre a questão da distribuição de renda ganha grande relevância e deve ser alvo importante no próximo governo. “A grande questão está se deslocando para o conflito da distribuição pessoal da renda: quem paga imposto, quem recebe, para onde vai o imposto do governo”, diz Na avaliação dele, há um claro sinal por parte da população de que o modelo de Estado mínimo não é o mais desejável “As demandas sociais já demonstraram que o espaço fiscal deve ser canalizado para transferência de renda”, conclui

Entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo

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A entrevista com o Prof. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, patrono da AKB e homenageado no encontro a ser realizado em agosto deste ano, foi realizada no dia 11/7/2014, na residência do professor, em São Paulo. A entrevista foi conduzida por Giuliano Contento de Oliveira, professor do IE/Unicamp e membro da atual diretoria da AKB. O trabalho de transcrição contou com a imprescindível colaboração de Paulo José Whitaker Wolf, atualmente mestrando em economia no IE/Unicamp.

As poucas passagens entre colchetes constantes ao longo da entrevista foram introduzidas pelo entrevistador, no processo de edição do material, para facilitar o entendimento.

 

Por que o Professor resolveu estudar Economia?

Essa é uma história que tem mais acasos… Como sempre na vida da gente, não é? Até para respeitar a visão de Keynes a respeito da incerteza. Há mais acasos do que escolhas.

Em geral, as pessoas, na sua formação de indivíduo contemporâneo, entendem que elas fazem escolhas, que elas decidem o seu destino. No caso de minha vida de estudante, eu fui seminarista dos jesuítas e quando eu saí do seminário eu não tinha ideia exatamente do que eu iria fazer. Quando eu voltei para o [Colégio] São Luís, o Padre Vítor Gialluisi, que era diretor da Faculdade de Economia, perguntou-me: “- por que você vai fazer Direito?” (Meu pai queria que eu fizesse direito). “- O Brasil não precisa mais de bacharéis”, dizia ele. “- O Brasil precisa de técnicos, de economistas”, sustentava. E eu, até por uma questão de comodidade, porque o vestibular para direito tinha latim e eu tinha um domínio muito grande do latim, do português… Era latim, português e uma língua estrangeira. Então, eu resolvi fazer o curso de direito. Mas, logo no segundo ano, eu achei que, na verdade eu e João Manuel [Cardoso de Mello] achamos que não era o caso e fizemos o vestibular para Ciências Sociais. No curso de Ciências Sociais, nós fizemos um curso muito bom de Economia, durante os quatro anos.

Naquela época, nós tentamos, depois de formados, fazer um curso da FIPE [Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas], que na época era IPE [Instituto de Pesquisas Econômicas], mas não era possível para quem não tinha graduação em Economia. Eram muito acanhadas as Universidades brasileiras. Nós chegamos a fazer algumas cadeiras na [Rua Dr.] Vila Nova. A faculdade de economia era vizinha da faculdade de filosofia. Nós fomos falar com Miguel Colasuonno, que acabou de morrer, mas ele disse que não era possível, que era necessário ter graduação em economia. Então, veio o curso da CEPAL [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe] para cá. Foi o primeiro curso que a CEPAL iria oferecer em São Paulo, patrocinado pela prefeitura de São Paulo. E nós nos inscrevemos no curso e fomos aceitos. Era um curso intensivo, passávamos o dia inteiro lá e tínhamos que estudar à noite. Era um curso muito difícil e muito cansativo também.

Quando terminou o curso da CEPAL, o Zeferino [Vaz] tinha saído de Brasília e ido para a Unicamp. Então, ele convidou o Fausto Castilho, que acabou saindo por um período e, depois, voltou para a Unicamp, e o Fausto nos convidou para formar o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, o IFCH. O Departamento de Economia e Planejamento Econômico, o DEPE, foi o embrião do IFCH. Um pouco antes, eu havia começado a dar aulas de Introdução à Economia na Pontifícia Universidade Católica [de São Paulo], e eu não tinha graduação em Economia. Eu tinha apenas o título da CEPAL, um título de pós-graduação. Naquela época, o sistema de pós-graduação não era tão formal e eles aceitavam esse título como credencial para lecionar. Nunca tive carteira de economista. Sou economista honorário do Conselho Regional de Economia. Enfim, foi essa a história.

Essa trajetória tem muito a ver com as circunstâncias. Por que o Zeferino nos convidou? Primeiro, porque ele queria criar um departamento de Ciências Humanas, que incluísse economia, que fosse diferente do que o que a USP tinha, tanto na Economia como nas Ciências Sociais. Ele queria fazer uma coisa, digamos assim, mais ecumênica, com uma integração entre as Ciências Sociais, Filosofia e Economia. E foi esse o espírito de criação do IFCH. Nós éramos muito jovens, todo mundo tinha sido cassado, não havia gente. Por isso que eu digo que o acaso joga um papel enorme, pois não tinha gente para ele convocar, gente com um mínimo de formação. Então, nós fomos para lá e ele acabou confiando em nós. E não só confiando, ele nos protegeu muito naquele momento de eventuais arremetidas do governo militar. Nós tivemos episódios muito engraçados lá. Ele nos levou, eu e o João Manuel, em uma comemoração do Golpe de 1964, no dia 31 de março, e publicamente ele nos defendeu, porque eles achavam que nós éramos comunistas (o que eles tinham um pouco de razão)… (risos). Mas ele nos defendeu ali e conseguimos levar aquilo um pouco aos “trancos e barrancos”, inclusive com distensões internas, que eram ruins para o andamento do Instituto, o que culminou, infelizmente, com a nossa saída do IFCH. E, então, nós criamos o Instituto de Economia. Eu sinto muito isso, realmente sinto, porque eu achava importante a troca de experiências, de pontos de vista. Além disso, nós tínhamos uma formação sociológica, antropológica, muito fortes. Mas, infelizmente, às vezes os motivos mais mesquinhos acabam prevalecendo sobre o que realmente interessa. E, aí, nós nos separamos e fomos para o Instituto de Economia a partir de 1986. Então, se eu posso contar a você a sucessão de incidentes e acasos na minha vida, é assim.

Mas, de alguma maneira, o Instituto de Economia da Unicamp herdou essa abordagem integradora e plural. Certamente, uma das origens é justamente essa…

Exato. O acaso. Como dizia Ulysses Guimarães sobre a Política: “- A Política é como a nuvem: cada hora ela está em uma forma diferente.”. Então, aquilo foi acontecendo, pela ação das pessoas. E, depois, chegaram os “chilenos”. Alguns um pouco antes do golpe, outros um pouco depois… A [Maria da] Conceição [Tavares] acho que um pouco antes, depois vieram o [Carlos] Lessa, o [Antônio Barros de] Castro, o [Carlos] Alonso [Barbosa de Oliveira], o [José Carlos de Souza] Braga. E assim nós fomos, na verdade, formando um grupo de gente que tinha mais ou menos a mesma visão sobre as coisas. Nós, então, escolhemos uma linha de investigação, de discussão, a partir da ideia central – que nós herdamos em boa parte do Celso Furtado – que é discutir o Brasil, fazer a crítica das teorias da CEPAL e retomar os autores que nós considerávamos relevantes para o entendimento do capitalismo. Você é testemunha que nós buscamos inspiração em [Karl] Marx, em [John Maynard] Keynes, em [Joseph] Schumpeter. E, depois, em seus descendentes. Era, no fundo, o debate sobre a morfologia e a dinâmica de uma economia periférica vista como uma dimensão da economia capitalista. Então, as pessoas perguntam: “- Vocês eram desenvolvimentistas?”. Não sei. Se você incluir nessa epígrafe essa definição, nós somos. Mas, na verdade, nós estávamos mais preocupados em discutir, em rediscutir, na verdade, a estrutura e a dinâmica dessa economia periférica capitalista.

Não com rótulos, mas com conteúdo…

Sim, exatamente.

Nas suas primeiras obras, é muito evidente a presença, senão hegemônica, preponderante de Karl Marx. Em que momento o Professor teve contato com as ideias de J. M. Keynes e qual foi a sua reação em relação a elas?

Essa história do Keynes é muito interessante porque em “Conversas com Economistas [Brasileiros]”, a Conceição disse que aprendeu a ler Keynes comigo. Ela tem essa generosidade. Não foi bem isso, porque nós lemos juntos. Na verdade, eu já havia lido o livro do [Raúl] Prebisch – “Introdução a Keynes” – na faculdade de Direito, para escapar de algumas aulas mais chatas do curso. Eu não tenho nenhuma certeza de que havia compreendido bem, na sua integridade. Mas, simplesmente, a leitura despertou-me alguma curiosidade sobre a peculiaridade desse “pensador”. Iria falar desse “economista”, mas Keynes não era um economista. Keynes era um homem público, um pensador, um economista muito peculiar, digamos.

Então, quando nós fomos para Campinas, a Conceição chegou e nós estávamos fazendo nossas teses de doutoramento. Eu estava fazendo “Valor e Capitalismo”, o João Manuel “Capitalismo Tardio”. E logo depois de terminar, eu me dediquei [à leitura das obras de Keynes]. Na verdade, eu e Luis Antônio de Oliveira Lima, que foi meu companheiro de leitura da Teoria Geral [do Emprego do Juro e da Moeda] e, depois, do Tratado sobre a Moeda e dos outros livros. Nós ficamos fascinados com o radicalismo de Keynes, que ele queria esconder. Na verdade, ele [Keynes] gostaria de ser considerado menos radical do que ele realmente foi na análise do funcionamento do capitalismo. E nós ficamos fascinados com a qualidade, sobretudo da análise da economia capitalista como uma “economia monetária”, isto é, a ideia de uma economia monetária da produção.

Logo depois – isso foi nos anos 1980 -, surgiu o volume 29 [dos “Collected Writtings of John Maynard Keynes”], um dos trabalhos preparatórios da Teoria Geral. Nesse trabalho sobre economia monetária da produção, a diferença entre a “economia empresarial” e a “economia cooperativa” ou “economia de salário real” mostra que, quando Keynes foi buscar os fundamentos que sustentam a Teoria Geral, ele estava muito ancorado em dois autores, fundamentalmente em [Alfred] Marshall e em Marx. Ele dizia que Marx tinha, digamos, “a pregnant observation”, que era a ideia do D-M-D’. Agora, o resto ele dizia ser algo talmúdico. Eu não gosto disso. Claro, Marx era alemão, Keynes era inglês. Keynes tinha uma forte influência platônica, havia lido todos os clássicos, o que é visível na obra dele. Então, nós em Campinas – a Conceição, eu, o Luciano [Coutinho], o próprio João Manuel, que tinha uma certa distância em relação a Keynes e, depois, ficou cada vez mais impressionado com ele como intelectual, pela amplitude das questões das que ele tratava -, tínhamos uma leitura de Keynes que não era usual aqui no Brasil, porque a leitura usual era a do Keynes “hidráulico”, que a Joan Robinson chamava de “keynesianismo bastardo”, que prevaleceu durante muito tempo até por causa da experiência dos anos do pós-guerra (1950-60). Quando o keynesianismo era visto como uma política de redução da instabilidade do capitalismo. Se você olha alguns trabalhos dos keynesianos daquele período, você não tem praticamente uma discussão sobre a natureza do dinheiro, sobre a moeda, sobre o conceito de “preferência pela liquidez”, que é um conceito crucial. Nós começamos um debate entre nós. Nesse período, a Unicamp era muito marcada por isso, havia um clima de muita cooperação entre nós, de discussão. Frequentemente, a Conceição se exaltava com alguma coisa, e isso era bom, porque era uma forma de você começar a desconfiar do que você estava dizendo. Fez muito bem para a valorização de Keynes como economista singular, um economista que estava muito acima e que continua, eu diria, muito acima do que fizeram e do que estão fazendo os economistas hoje.

Um economista muito à frente do seu tempo, não é?

Sim, um economista muito à frente de seu tempo.

E, então, nós fizemos uma varredura completa da obra dele, desde o Indian Currency and Finance, que é o primeiro livro dele, até os trabalhos posteriores, até Bretton Woods. Eu posso dizer que eu tive o trabalho de ler a obra inteira do Keynes, tudo, tudo. Os trabalhos do pós-guerra em que ele tratava das políticas macroeconômicas. Então, nota-se que há ali rupturas e, ao mesmo tempo, continuidades. Se você pega desde o Indian Currency and Finance, você nota a preocupação dele com a economia internacional, as questões macroeconômicas, sobretudo a questão da moeda, da natureza da moeda, da natureza do dinheiro. E o Treatise on Money, que para mim é uma obra ciclópica, porque ele é o que trata com maior percuciência, do meu ponto de vista ainda utilizando o instrumental wickselliano, da moeda bancária. Isso já está no Marx. Na verdade, eu fiz o trabalho contrário: a partir de Keynes, eu descobri que Marx trabalhou a questão da moeda bancária. De uma maneira um pouco entrecortada, digamos, porque ele não terminou o terceiro volume. Foi o [Friedrich] Engels que ajudou a terminar. Há também uma ideia de que o Engels falsificou o Marx, o que eu não acredito. Ele fez interpolações, mas não falsificou. Isso é uma bobagem. Mas você tem que pegar o espírito. Marx, magnificamente, e de forma diferente de Keynes, mostra como a moeda de crédito se transformou na forma, digamos, mais avançada da moeda numa economia monetária, no capitalismo.

E os seus efeitos sobre a dinâmica de funcionamento de uma economia capitalista, não é?

Sim, exatamente.

Em “Conversas com Economistas Brasileiros”, há uma passagem que elucida muito essas suas impressões que acabaram de ser externadas, que era a ideia de que, em seus termos, “se trilhou o caminho da comparação e avaliação recíproca entre autores e teorias.”. Ou seja, não se ficou preso a um autor, a uma teoria. E, embora no começo da sua trajetória, vamos dizer assim, nós observamos essa preponderância de Marx, no conjunto, nós observamos uma grande influência de outros autores além de Marx, como Keynes, Schumpeter, Kalecki, Minsky…

Minsky… Na verdade, quando saiu o primeiro livro do Minsky, o “John Maynard Keynes”, em 1975, nós fomos a primeira Escola brasileira a ensinar o Minsky, a oferecer um curso em cima do Minsky. E o livro do Minsky também suscitou uma grade discussão lá, porque ele trouxe contribuições importantes sobre uma teoria dual dos preços, o “preço de demanda” e o “preço de oferta”. O Minsky foi muito importante, inclusive porque ele fez uma análise muito profunda da dinâmica dos mercados financeiros, passando pelos diferentes estágios até chegar à situação Ponzi.

De certa forma, ao longo da vida, em obras como “Stabilizing an Unstable Economy” ou “Can ‘it’ happen again?”, que tratam do Big Bank e do Big Government, ele foi mostrando o que aconteceu com as transformações dos mercados financeiros no pós-guerra. Ele faz uma análise muito concreta. Na verdade, Minsky tinha uma grande influência do Marx também, a qual ele não podia revelar. Ele era, na verdade, um gigante das correntes keynesianas. Eu diria que, depois desses realmente pioneiros, desses grandes, ele era o autor mais importante. Você nota como as pessoas chamam essa crise de “Momento Minsky”…

Agora, efetivamente, esses autores adotam métodos diferentes de pensamento. Como conciliar esses diferentes métodos? Essa conciliação foi simples?

Simples não foi. Porque, na verdade, esses autores que nós escolhemos para fundar o debate, a discussão, das questões atuais do capitalismo e do capitalismo brasileiro tinham a mesma ontologia do econômico. O método era diferente, mas a ontologia, a definição do objeto, era a mesma. Se você tomar esse texto do Keynes, o do volume 29, o que ele diz? Ele diz o seguinte: “- Eu defino a economia capitalista como um conjunto de empresários que possuem o controle dos meios de produção e do dinheiro e que oferece emprego a um grupo de trabalhadores que dependem do salário para sobreviver.”. Pronto, está dito tudo. A ontologia do econômico, apesar de eles tratarem com métodos diferentes, é a mesma.

Eu fico um pouco preocupado porque os economistas acham que a diferença entre os autores está no método, enquanto eu acho que ela está na definição e na configuração do objeto, na ontologia. Nisso, Keynes e Marx são muito parecidos. Por exemplo, no Treatise on Money, Keynes utiliza dois setores, de bens de investimento e de bens de consumo, para entender como se dá a formação dos preços. É claro, ele ainda está trabalhando numa etapa pré-demanda efetiva. O tratamento que ele dá à dinâmica entre os dois setores pode ser comparado facilmente com o tratamento que o Marx faz nos esquemas de reprodução. Marx também fala dos preços e das proporções. Keynes fala de preços e proporções porque queria definir uma teoria dos preços e o efeito sobre os rendimentos dos trabalhadores e os lucros. E ele adota a “taxa natural de juros”, a qual ele toma de Wicksell. Depois, na Teoria Geral, quando ele vai falar da taxa de juros, ele faz uma autocrítica [assume a taxa de juros como fenômeno monetário], porque ela pressupõe uma dimensão real. Keynes era muito capaz de abandonar as ideias, o que é muito bom. Ele abandonava o que ele achava que não servia, não se apega àquilo. É, então, mais por esse lado, como se constrói o objeto, do que pelo lado metodológico. Porque nós nunca aceitamos a ideia da economia como uma ciência da escassez. Isso se insere na tradição marginalista, neoclássica. Keynes foi pego por essa ideia no momento em que ele diz que o capital tem um preço porque é escasso, quando ele fala da eficiência marginal do capital.

Keynes detestava Ricardo. E aí você tem coisas engraçadas ali, porque, apesar de ter introduzido a escassez dessa maneira, quando ele chega no último capítulo sobre as lições que se pode tirar da Teoria Geral e ele fala da “eutanásia do rentista” (poucas pessoas tiraram as conclusões que deveriam ser tiradas disso), ele diz: “- ainda que a renda da terra se justifique pela escassez da terra, a renda do capital monetário-financeiro não se justifica, porque ele não é escasso, ou seja, ele pode ser criado livremente pelos bancos”. Então, quando ele fala da eutanásia do rentista, ele fala que não se justifica pagar uma taxa de juros exorbitante porque isso simplesmente reflete o poder do rentista. Não há uma justificativa técnica, porque o capitalismo avançou de modo a desenvolver essa forma de emissão endógena de moeda. Então, se você olhar bem, há, sim, um pouco de conflito…

E essa conciliação certamente contribuiu para o pensamento não convencional em economia no Brasil…

Sem dúvida… Contribuiu bastante, eu acho, para o desenvolvimento do pensamento não convencional no Brasil, sobretudo porque nós não fizemos isso de forma pretensiosa. Nós fizemos isso simplesmente como uma tentativa de reler os clássicos e apresentarmos aqueles que considerávamos grandes economistas, apresentando-os como fundamentais para o entendimento de uma economia monetária da produção – que era como Keynes chamava uma economia capitalista. Então, acho que contribuiu.

Nós também procuramos colocar a nu a radicalidade das ideias de Keynes, ocultada pela timidez dele em aceitar essa radicalidade. Keynes acreditava no poder de convencimento das ideias. Ele procurou os caminhos, digamos, mais suaves, para convencer seus opositores, para convencer os políticos, para convencer os seus colegas economistas etc. Ele tinha, de vez em quando, alguns “escorregões” e nesses escorregões ele mostra que a critica dele era muito mais profunda. Quando as pessoas qualificam Keynes de “estatizante” estão dizendo uma besteira. Keynes nunca acreditou na possibilidade do ajustamento espontâneo e automático de uma economia em que os indivíduos agem em condições de incerteza. Ele tinha uma esperança que se pudesse construir instituições capazes de reduzir, digamos, as “dores do ajustamento”. Tanto é assim que no pós-guerra ele diz: “- Vocês estão interpretando mal o que eu falei… Vocês estão falando da cura, da política que se segue quando há uma desaceleração, quando há uma situação de contração cíclica… Eu estou falando da prevenção… Por isso, eu acho que vocês têm de construir instituições capazes de mitigar essa tendência à oscilação do investimento, por causa da natureza da decisão de investir.”

Essa é uma questão que até hoje não se consegue “enfiar” na cabeça dos economistas convencionais, a saber, que a decisão de investir possui uma natureza completamente distinta da decisão de poupar. Chega um momento em que ele diz que a poupança é algo muito ruim, é um “ato negativo”. Uma coisa é a decisão de poupar, de acumular riqueza em geral. Outra é a decisão de investir, a decisão de adquirir um bem instrumental que tem a sua taxa de juros própria – ideia que ele “comprou” de Sraffa e que, no Capítulo 17 da Teoria Geral, um capítulo fundamental, ele mostra como essa taxa se transforma na taxa monetária. Então, nesse momento, o que na verdade ele está dizendo? Ele está dizendo, na verdade, que a decisão de investimento é uma decisão que só pode ser explicada pelo “espírito animal”. Essa é uma ideia genial. Nós estamos assistindo hoje, no mundo e no Brasil, o desfalecimento do espírito animal. As pessoas estão se refugiando na liquidez, com medo de ter a sua riqueza desvalorizada. E o mercado não consegue, por si mesmo, garantir isso. O estado, então, deve entrar fortemente injetando liquidez para segurar isso, porque se depender apenas do mercado, de valores, de riqueza, dos mercados financeiros, vai tudo para baixo.

Esse é o ponto que os economistas conservadores não conseguem aprender: a diferença entre as decisões de investir e poupar. Não é só o problema da anterioridade da decisão de investimento, do gasto de investimento em relação à poupança. Mas, também, do gasto de investimento como a força propulsora da formação da renda. Por que será que eles resistem tanto em entender isso? A minha resposta é a seguinte: porque que se eles admitirem isso, diversos teoremas da macroeconomia deles sucumbem. Mais que isso, que só se pode manter a estabilidade se houver um controle público de certas decisões, como a de investir, de modo a manter um nível adequando de emprego e renda. Então, há um componente ideológico poderosíssimo. Eles não podem abandonar, pois, abandonando, eles abandonam a “coisa” da escassez e, abandonando a “coisa” da escassez, todos os fundamentos da teoria neoclássica desabam.

É interessante notar como esse sistema é repleto de contradições, porque os instrumentos de ação que o estado dispõe para contrarrestar os efeitos de uma crise também acabam, nesse processo de “socialização de prejuízos privados”, gerando crises fiscais de difícil solução e que acabam se revertendo contra as instituições criadas para defender aquelas parcelas menos favorecidas da sociedade…

Perfeito. É exatamente isso.

O que você está assistindo, sobretudo depois dos anos 1970, é o princípio do fim dos “trinta anos gloriosos”. [Durante os “anos dourados”] você tinha uma sinergia, uma interação muito forte entre o crescimento dos salários e o crescimento do investimento, da renda e dos impostos. Os estados praticamente não tinham dívida. Foi um momento em que você saia daquela situação de baixa carga tributária em muitos países. O papel que os Estados Unidos tiveram na reconstrução europeia com a formação da União Europeia de Pagamentos e o Plano Marshall etc. Nos anos 1970, tudo isso começa a declinar. Esse período de liberalização é um período também de mudança estrutural nas formas de financiamento do estado, ao contrário do que se costuma argumentar. Como é a história da “Curva de Lafer?”. Se você aumentasse mais os impostos, sua arrecadação iria cair porque iria prejudicar o nível de atividade. Isso veio junto com a ideia do “trickle down”, ou seja, se você preservasse os ricos de uma punção maior de sua renda e, portanto, de sua poupança, eles investiriam mais e isso beneficiaria os trabalhadores. Acho que esse é o núcleo da visão dita “neoliberal”. E, ao mesmo tempo, isso veio junto com um movimento mais intenso de internacionalização das economias, dos movimentos de capital.

Muito bem, a instabilidade da economia tinha sido supostamente abafada e controlada pelas políticas keynesianas. Não foi exatamente por conta das políticas keynesianas, mas do conjunto de relações que se estabeleceu no pós-guerra entre empresas e sindicatos, o papel do comércio internacional etc. Esse ambiente de consenso keynesiano vai desaparecendo à medida que a economia vai desacelerando. Você tem um fenômeno muito interessante de que todas as proclamações de abandono das políticas econômicas dos trinta anos gloriosos estavam fundadas em cima de um “sufocamento” do capitalismo e que ele precisava ser libertado disso para que ele pudesse florescer e funcionar. E que o estado precisava ser mais contido em suas tentativas de intervenção. E foi exatamente a partir desse momento (1970-80) que os déficits fiscais começaram a crescer, por várias razões. As taxas de juros altas que passaram a prevalecer levaram a uma expansão muito acentuada das dívidas, isto é, a uma dinâmica perversa da dívida pública. Você só tem um momento nos Estados Unidos em que a dinâmica da dívida melhora, que é no governo Clinton, e porque ele recorreu a duas coisas: primeiro, à redução dos gastos sociais, apesar de ser democrata; e, segundo, porque ele começou a cobrar um imposto maior sobre os ganhos capital. Tirando isso, em todos os momentos você nota uma expansão continuada das dívidas públicas. Você olha a trajetória de expansão e é uma coisa impressionante. Em geral, ela vai subindo de uma maneira impressionante. Isso mostra que a economia entrou numa “disfunção estrutural”.

Por outro lado, quando esse crescimento da dívida pública se torna muito difícil de ser explicado e até contido, a liberalização dos mercados financeiros significa, sobretudo, que você faz uma tentativa de substituição da expansão do endividamento público, como formação da riqueza privada e instrumento de financiamento da economia, pela dívida privada. Se você olhar como se comportam essas curvas, em algum momento elas vão se cruzar, até chegar 2008, quando a dívida pública cresceu novamente para absorver a dívida privada. Hoje, nós estamos em um momento em que esse processo de absorção ainda não terminou. Os governos são obrigados a intervir.

Quem poderia imaginar, nos anos 1980, um banco central americano ou, em menor medida, um banco central europeu, fazendo “quantitative easing”? Vamos supor que o Friedman estivesse vivo, ainda. Ele recomendava que se jogasse dinheiro de helicóptero. Mas a economia não reage, porque o temor de uma desvalorização da riqueza fictícia acaba travando o gasto. As famílias não têm como, porque estão muito endividadas, as empresas não têm estímulo, porque a perspectiva das economias é ruim. Por outro lado, durante esse período, transferiu-se boa parte da produção manufatureira do mundo para a Ásia. Se você pegar a taxa de investimento das empresas dos Estados Unidos na Ásia e comparar com a taxa de investimento nos Estados Unidos, você entende tudo, na hora, porque é claro que elas não vão produzir mais caro nos Estados Unidos quando elas podem exportar [a partir da produção em países com custos relativos mais baixos]. O sistema empresarial americano vai muito bem obrigado. Está com quase US$ 4 trilhões de caixa. E a economia americana escorrega, parece que vai, mas não vai, cria empregos precários, não consegue absorver os chamados “missing workers”, que são quase 6 milhões e que estão fora do mercado de trabalho. Então, quando eles mostram a taxa de desemprego, é uma brincadeira, porque estas pessoas estão fora faz muito tempo.

Então, o capitalismo hoje é uma espécie de cruzamento da “mula-sem-cabeça” com o bicho-preguiça… (risos) Por quê? Porque, por um lado, você tem essa bolsa americana abastecida por liquidez abundante e barata produzida pelo FED, e, por outro, uma falta de dinamismo impressionante, que não é verdade para toda a economia global – a China, por exemplo, ainda nesse ambiente, não sei até quando, continua se valendo de suas vantagens acumuladas nos últimos anos para exportar, inclusive para nós…

Tudo isso tem muito a ver com algumas ideias centrais do seu livro mais recente, “O capital e suas metamorfoses”. Eu gostaria que o Professor falasse um pouco sobre o livro, a motivação principal e em que medida ele ajuda a entender esses processos todos.

Na verdade, esse livro começou a ser escrito, rigorosamente, no início dos anos 1980, porque eu tinha escrito o “Valor e Capitalismo”, mas não fiquei satisfeito porque eu só tratei, na verdade, da diferença da teoria do valor em Marx e nos clássicos. Praticamente não avancei. Então, eu achei que estava faltando alguma coisa. A partir das aulas que eu comecei a dar no doutorado da Unicamp, eu comecei a escrever esse livro. Essa aqui, por exemplo, é uma aula de setembro de 1983 [Belluzzo mostrou ao entrevistador essas notas, em seu escritório]. Aqui tem “economia capitalista como realização de uma economia monetária”. E aqui tem o capital a juros e tal… São aulas, como você pode ver.

Os alunos transcreviam as aulas e, a partir das transcrições, eu ia escrevendo… Você vai notar que já há várias observações na parte sobre o capital a juros e sobre capital fictício, sobre o que estava acontecendo nos mercados financeiros, observações que estão expostas em alguns textos que eu escrevi para a revista da Unicamp, a “Economia e Sociedade”, como “O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados ‘globalizados’”, de 1995, e, depois, o artigo que escrevi com o [Luciano] Coutinho, “Financeirização da riqueza, inflação de ativos e decisões de gasto em economias abertas”, de 1998. Acho que foi o primeiro alarme que soou – como a gente escreveu em português ninguém “deu bola”, mas depois o pessoal viu o negócio da relação entre inflação de ativos, consumo e investimento etc. e a natureza da crise, mas enfim.

O artigo também mostra como essa tentativa de recomposição da riqueza acaba aprofundando a crise…

Então, quando as pessoas pensam em escrever, elas acham que isso se deve a uma diferença de percepção, de inteligência das pessoas. E não é nada disso. O que acontece é que você tem que ir em cima das questões. Primeiro, é preciso montar sobre os ombros dos gigantes, para procurar avaliar se aquelas categorias com as quais eles trabalharam são úteis para você compreender [o seu objeto]. Você não pode fazer exegeses. Você precisa avançar em cima das questões que estão ocorrendo agora. Então, como você pode ver, esse livro começou a ser discutido em 1980. Precisa ter paciência. É um esforço que você vai fazendo ao longo do tempo, procurando resumir, melhorar…

O livro é muito rico, pelo menos na perspectiva de minha leitura, em vários aspectos. Mas é bastante notável a contribuição que ele oferece para a racionalização de processos aparentemente sem justificativa lógica, e também para mostrar a fragilidade, ou as fragilidades, das teorias econômicas prevalecentes, ou hegemônicas. Então, ideias do tipo: “macrofundamentar a microeconomia” ou “incorporar o sistema financeiro à teoria macroeconômica”, são ideias de fronteira e que podem ser objetos promissores de pesquisa para os economistas mais novos…

Isso está posto para vocês. É como eu estava dizendo, isso é uma questão muito mais relacionada com a concepção do objeto do que com a metodologia. Você pode fazer um modelo formal, não é esse o problema, formalizar ou não formalizar. O problema é saber se você vai formalizar abordando corretamente as propriedades do objeto. Formalizar ou não formalizar é uma discussão que não leva a nada, não interessa. Cada um tem as suas habilidades e faz o que gosta…

Em diversos momentos, o Professor fez menção à noção para Keynes da economia como um “instrumento da política”. Explique melhor essa ideia.

Keynes, pela trajetória dele… A biografia dele demonstra que ele estava interessado no que a economia podia contribuir para o bem-estar das pessoas. É isso, fundamentalmente. Basta ver que ele pertenceu ao “Clube dos Apóstolos” e, depois, foi membro do “Bloomsbury”. Em 1930, ele escreveu o “Perspectivas econômicas para os nossos netos”, que eu acho que é um texto revelador sobre a forma como Keynes pensava. Dizia ele: “- Nós precisamos jogar a economia para o banco traseiro da história… Os economistas devem ser úteis como os dentistas.”. Ele estava preocupado. Ele era um liberal humanista inglês, na melhor tradição do liberalismo inglês. A mãe dele era uma mulher que andava de bicicleta para atender os mais pobres. Então, apesar do ar aristocrático que ele tinha – ele era uma pessoa difícil, ele era muito intolerante, sobretudo com a mediocridade, à qual ele tinha horror. Não foram poucos os que se afastaram dele. Ele não era uma pessoa fácil -, ele podia ser uma pessoa encantadora. Mas, sobretudo, ele era um homem público, um humanista, e sob essa perspectiva deve ser entendido o Keynes como economista. A forma como ele abordou a questão. Ele tinha uma agudeza analítica impressionante. Ele ia nos pontos fundamentais. A coisa do “amor ao dinheiro”, essa riqueza abstrata, por exemplo, ele pegou, eu diria, tão bem quanto Marx. Porque ele tinha essa visão de que nós só vamos viver bem se nós aproveitarmos as potencialidades dessa economia e a submetermos, na verdade, aos desígnios humanos. Não podemos deixar que ela nos domine. Então, ele era uma pessoa excepcional, mesmo com todos os defeitos que ele tinha. Ele teve humildade suficiente para “engolir” a derrota de Bretton Woods. Ele foi derrotado, não pelo Dexter White, que era tão preocupado quanto ele na reordenação internacional, mas pela força das finanças americanas. Foi derrotado, mas fez um discurso no parlamento inglês defendendo as reformas de Bretton Woods.

Minsky é tido como um dos principais autores “pós-keynesianos”. Mas ele não fez uma mera leitura ou interpretação do Keynes. Ele certamente foi além.

Foi bem além no que diz à dinâmica dos mercados financeiros

Ele mostrou e trabalhou a ideia da economia capitalista como uma “economia de endividamento” e, subsequentemente, “intrinsecamente instável”. O Professor se recorda de algumas outras contribuições de calibre similar dentro da vertente “pós-keynesiana”, ou essa teria sido realmente a principal desde então?

Eu reconheço vários pós-keynesianos que deram suas contribuições como Jan Kregel, Thomas Palley, Sheila Dow, Victoria Chick… Eu poderia mencionar muitos pós-keyensianos. Mas acho que o Kregel, dentre os vivos, é o melhor deles. Mas surgiram muitos, e bons. O pessoal do Instituto Levy. O Epstein e os outros. Esse pessoal todo forma um grupo. Como também os franceses como o Aglietta, que também é muito importante. Mas eu diria que o Minsky foi o pioneiro em formular essa questão da instabilidade financeira da maneira que ele formulou. Eu acho que, de todos, ele, de fato, abriu o caminho mais importante. Depois vieram os outros. Recentemente, há um número importante de pessoas que deram contribuições importantes na análise da crise. Todos eles foram muito certeiros. E, então, a pergunta que muita gente faz: “Por que as reformas não ocorreram, se nós temos razão?”. Porque essa é uma questão de poder. Não é um problema de argumentação, nem de razão, é um problema de poder.

Nos anos 1930, em que a derrocada foi de tal ordem, e na sequência, a Segunda Guerra Mundial… Tudo isso custou muito para a sociedade. No pós-guerra, a derrota política e moral das classes dominantes foi fundamental para a viabilização dos trinta anos gloriosos. Eles não tinham condição de “colocar a cabeça para fora”. Tanto isso é verdade, uma verdade escandalosa, escancarada, que quem conduziu as constituições na direção de colocar os sistemas de proteção, o pleno-emprego etc. foram os conservadores: De Gaulle, De Gaspari e Adenauer. Porque não havia como. Claro, havia a questão de na próxima esquina haver o sistema socialista, era o momento de auge do sistema socialista e isso ajudou muito os americanos a colaborarem com os europeus para a reconstrução. Mas, fundamentalmente, as classes dirigentes, essas que hoje o Piketty trata no livro dele – ele trata disso, do lado “bicho-preguiça” do capitalismo -, estão montadas no estoque de riqueza acumulada. Com efeito, o capitalismo perdeu essa capacidade de encontrar caminhos para se distribuir renda, ao mesmo tempo em que gera desemprego. Mas eles não foram derrotados dessa vez. Eles produziram a crise e, mesmo assim, eles estão por cima.

E como controlar e constituir forças políticas para administrar esse capitalismo sobre a égide da financeirização como “padrão sistêmico de riqueza”, para usar os termos do Professor José Carlos Braga, do IE/Unicamp?

Essa é a grande interrogação. Há um alemão, que não é economista, é sociólogo da Escola de Frankfurt, chamado Wolfgang Streeck, e ele diz, como outros dizem também, que, primeiro, o desenvolvimento do capitalismo nos últimos anos usou de outras formas de constituição do indivíduo, da subjetividade do indivíduo. Ele incorporou muita gente, por exemplo, a esse festival de individualismo consumista, ao mesmo tempo em que destruiu os laços de solidariedade. E isso se expressa, sobretudo, no declínio dos sindicatos.

Aquele ambiente social e psicológico, digamos, que criou as instituições de bem-estar social – o filme do Ken Loach, “The spirit of’45”, mostra o que estava na cabeça das pessoas e nas suas esperanças, no pós-1945, depois daquela desgraça – [foi se dissolvendo ao longo do tempo]. Por exemplo, as negociações coletivas, os contratos de trabalho, os salários. A própria Alemanha e sua “economia social de mercado”, que era uma coisa aparentemente conservadora, mas que, no fundo, era uma forma de se dizer que sem uma estrutura jurídica que sustente isso e coloque os parceiros na condição de negociar, a política econômica por si mesma não consegue resolver os problemas. Esse entendimento foi se desfazendo ao longo dos anos 1970 e, sobretudo, a partir dos anos 1980, e você não tem capacidade de aglutinar forças sociais que se oponham. Nós não sabemos. Nós nunca devemos dizer que essa é uma coisa que vai perdurar, mas, por enquanto, é isso o que explica essa relativa dificuldade de resistência.

Sim, ainda há vários movimentos de resistência. Houve o “Occupy Wall Street”, o “movimento dos indignados” – na Espanha -, os outros movimentos na Europa etc. Mas nada que consiga formular uma proposta alternativa. Então, você nota que o próprio Krugman, que é um sujeito que veio, digamos, do centro para a esquerda. Ele, tratando agora da questão do “quantitative easing”, das pressões para aumentar as taxas de juros, ele vai em cima de uma questão que eu jamais imaginei que ele fosse tratar. Ele disse: “- Esse é um problema da classe rentista”. Ele vai em cima dessa questão. Eu acho que você não tem, ainda, aglutinação suficiente, por mais que você consiga demonstrar, intelectualmente, que a continuidade disso é inviável. Veja bem, o “quantitative easing” provocou uma outra bolha. Está na bolsa de Nova York. E como é que faz? Vai furar, não vai furar, vai deixar ir em frente. Ou seja, você vai levar isso adiante e provocar outra crise daqui a dois anos ou a um ano, dado que a etiologia é a mesma: a valorização fictícia da riqueza. Com isso, você dá um certo fôlego para a economia do trabalho e da renda, mas apenas por um certo período e a economia cresce pouco, [lançando-se as bases para a formação de] uma nova bolha.

A impressão que dá é que a viabilização da recuperação dos efeitos do estouro de uma bolha envolve a criação de novas bolhas, de sucessivas bolhas…

Exatamente, é isso. Quer dizer, na verdade, para colocar essa economia funcionando razoavelmente e crescendo modestamente, com um padrão aceitável, você precisa criar várias bolhas, uma seguida da outra…

Sendo que os estouros sempre se revertem contra os estados nacionais, em um sistema tido como globalizado…

É isso mesmo. Não tem coordenação internacional disso. Quando estoura, quem arca com o ônus é quem não tinha nada a ver com a bolha.

A ideia de constituir um fundo de estabilidade financeira global baseado em taxação sobre os fluxos internacionais de capital parece ser uma alternativa…

Essa é uma alternativa e que também está no livro do Piketty. Ele sugere um imposto mundial sobre a riqueza para fazer esse fundo. Ele está pensando em questões relativas à distribuição de renda, mas também com a estabilidade financeira. O que está acontecendo é que isso está sendo feito regionalmente. Por exemplo, veja o acordo dos BRICS. O que isso significa? No fundo, é a busca de defesas contra a instabilidade desse capitalismo. Recentemente, acho que Delfim escreveu sobre isso, dizendo que nós não podemos sobrevalorizar, mas também não podemos subvalorizar esse acordo dos BRICS. Isso é muito importante por várias razões. Você criou um banco de desenvolvimento e um fundo de estabilização contingente. Isso está surgindo e eu acho que essa é uma experiência importante que o Brasil está estimulando também, porque isso mostra que, nessas circunstâncias, você precisa de instrumentos como esse.

Eu vi o ministro das finanças francês dizendo que é insuportável que o dólar ainda mantenha esse privilégio de ser a moeda reserva, porque esse é um obstáculo para a estabilização. Os chineses estão claramente internacionalizando, em boa medida, o yuan na Ásia. Nós vamos assistir nos próximos meses e anos, que J. M. Keynes estava à frente do seu tempo. Porque todo mundo está pedindo um sistema internacional que seja capaz de atenuar os desequilíbrios nos balanços de pagamentos e condições de financiamento adequadas para que os países não precisem fazer ajustamentos recessivos ou deflacionários. Nós precisamos nos lembrar que hoje Bretton Woods está fazendo 70 anos. E, cada vez mais, eu me convenço de que J. M. Keynes estava adiante do seu tempo, que ele tinha razão.

Eu gostaria de deslocar um pouco a discussão, à guisa de fechamento, para alguns assuntos relacionados à economia brasileira. Uma, mais geral: quais são as suas impressões sobre a economia brasileira atualmente? Porque o que nós temos é uma conjunção de elementos que, se fosse um paciente, nós diríamos que ele não tem estado em sua plenitude: uma situação de baixo crescimento, taxa de juros ainda elevada, inflação acima da meta e déficits em transações correntes com baixo crescimento… Qual é a sua avaliação sobre essa situação e como as ideias de Keynes podem ser úteis para romper com essa encruzilhada?

Antes de mais nada, o déficit em transações correntes com baixo crescimento, com desaceleração. Keynes viu claramente nos anos 1920 que a Inglaterra não podia ter voltado ao padrão-ouro àquela taxa de câmbio. Depois, ele viu o fenômeno das “desvalorizações competitivas”. E foi isso que fez com que ele recomendasse taxas de câmbio fixas. Mas ele supunha que as taxas de câmbio seriam fixas, mas ajustáveis. Em as “Consequências econômicas de Mr. Churchill”, ele diz: “- Você vai destruir a indústria inglesa”. Foi isso o que ele disse ao Churchill, e ele realmente destruiu a indústria inglesa.

Nós estamos ainda nas consequências econômicas de “Mr. Cardoso”. Foi ele quem fez a primeira “estripulia” de valorizar o câmbio. Isso é o que me deixa um pouco preocupado. A ideia de Keynes é que você não pode valorizar o câmbio em um mundo supercompetitivo, como é o que o Brasil está enfrentando agora com a China e os países asiáticos, porque com a valorização cambial você destrói a estrutura industrial nacional. Keynes botou o “dedo na ferida”. E os seus prognósticos sobre a indústria inglesa, que eram muito negativos, acabaram se confirmando. A Inglaterra, do ponto de vista da manufatura, é hoje uma economia de segunda classe, embora seja um centro financeiro muito importante. Foi o que ele [Keynes] disse: “ – Churchill cedeu aos argumentos da City.”. E nós estamos cedendo aos argumentos… Nós não temos uma City aqui… Nós temos um mercado financeiro de especuladores… Eles gostam muito do câmbio valorizado e, sobretudo, da volatilidade cambial. Acho que esse é um problema sério da economia brasileira. Isso prejudica muito a possibilidade de crescimento, pois nós temos uma indústria que está perdendo vigor. Qualquer recuperação passa pela recuperação e pelo fortalecimento da indústria. Entendo que se trata de um problema estrutural.

Nos últimos 20 anos, o câmbio no Brasil foi convertido em um instrumento de combate à inflação. Os autores da política de metas a formularam desconsiderando a realidade dos países que não emitem a moeda reserva. Se considerarmos os anos 2000, a partir de certo momento a inflação estabiliza em torno de 5,5%. E ainda tem o problema da indexação. Então, qualquer questão da economia brasileira hoje passa pelo câmbio. Outro dia perguntaram-me: “- Você acha que é só o câmbio?” Acho que é principalmente o câmbio. “Só o câmbio”, não existe isso. Qualquer desvalorização nominal vai causar uma desvalorização real inferior àquela desejada inicialmente, por causa da inflação. Estamos metidos nessa “encrenca”. A segunda, e todas as outras coisas, são decorrentes dessa.

O baixo nível de atividade torna difícil uma política fiscal como eles queriam. Agora não é mais o caso, porque eu acho que a política fiscal deveria ser mais ativa, porque a economia está deslizando para baixo. A menos que você tenha um outro caminho, que é o caminho da aceleração das concessões e dos investimentos em infraestrutura, bem como a aceleração dos investimentos da Petrobras e o papel da Petrobras como fornecedora de divisas para diminuir o déficit em transações correntes, para que nós tenhamos tranquilidade para mexer nas coisas mais à frente. Mas nós temos um momento de transição muito difícil.

O reequacionamento do binômio juros-câmbio acaba sendo, de alguma maneira, constrangido pela institucionalidade do regime de metas?

Claro. Outro dia, conversando com um dos melhores “economistas tucanos”, ele disse: “- o problema é a taxa de juros!”. Tudo bem, a taxa de juros é um problema. Mas como você faz? Você reduz a taxa de juros e deixa o câmbio disparar? O que vai acontecer? Acontece que você tem um choque inflacionário. Ele disse: “- é verdade.”. Por qual razão? Porque você desviou todo o fornecimento de peças e componentes para fora. E ele concordou comigo. O choque inflacionário é enorme por causa das importações. Mas você tem irreversibilidades. Essa é uma outra coisa. A economia convencional neoclássica de equilíbrio geral não tem “tempo”. O tempo que ela tem é fictício, não existe. Não tem dinâmica, portanto, não tem movimento. E essa economia capitalista é, sobretudo, movimento. O que você faz, sem movimento, é ficar brincando com um sistema de equações, fingindo que você está introduzindo uma dinâmica. Não tem dinâmica nenhuma.

Nós poderíamos dizer: “tempo lógico ancorado em axiomas muito questionáveis.”

Perfeito. Você definiu com mais precisão o que eu estava dizendo. É isso mesmo… “tempo lógico ancorado em axiomas muito questionáveis”.

Para terminar, eu gostaria de fazer uma última questão, a saber: como o Professor avalia a Associação Keynesiana Brasileira?

Eu acho que vocês, que esse tipo de Associação tem uma importância enorme. Não apenas porque elas, mesmo com diversidades de pontos de vista, são capazes de reunir e acolher todos os economistas que, na verdade, procuram outra perspectiva teórica, de pontos de vista, ideológica, no bom sentido, no sentido de visão do mundo.

Schumpeter, entre outras virtudes, tinha a agudeza de perceber que existia uma diferença, entre os economistas, entre a visão e o método. Primeiro vinha a visão, depois o método. Ele era um europeu sofisticado. Não nasceu em Ohio e, portanto, tinha a ideia de que primeiro vinha a visão. Ele viveu em Viena, terra do positivismo lógico, de Freud. Ninguém passa incólume a essas coisas…

Então, a existência desse espaço de debate criado pela AKB é muito importante e eu espero que vocês levem isso adiante. É importante você ter diversidade de pontos de vista, estimular mesmo as diferenças. Porque hoje a universidade, você há de concordar, você está lá, está um pouco refratária a que você tenha mais ousadia. Porque ela começa a colocar aquelas regras… E uma associação como a AKB pode ter um papel enorme. Eu acho que ela pode até receber – e certamente vai receber, com prazer – os schumpeterianos, os marxistas etc. Acho que tem um papel fundamental e espero que ela tenha perenidade porque a universidade do jeito que anda, submetida a todas essas “regrinhas”, de “pontinho para cá, pontinho pra lá, não favorece a ousadia e a criatividade.

REGULAMENTO DO II PRÊMIO DE TESES E DISSERTAÇÕES AKB — 2014

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O II Prêmio de teses e dissertações da Associação Keynesiana Brasileira (AKB, 2014), será regido pelo presente regulamento.

 

APRESENTAÇÃO

ART. 1º:

O Prêmio tem a finalidade de incentivar a investigação econômica e o desenvolvimento de pesquisas e estudos relacionados à “teoria keynesiana”, incluindo trabalhos empíricos desde que referenciados a esta referida teoria.

 

Parágrafo único: o Prêmio será concedido em duas categorias:

i) DISSERTAÇÃO DE MESTRADO;

ii) TESE DE DOUTORADO.

 

PARTICIPAÇÃO

ART. 2º:

Poderão concorrer ao Prêmio pesquisadores, de qualquer nacionalidade, vinculados a instituições brasileiras por meio de trabalhos individuais, atendidas as especificações deste regulamento.

 

§ 1º Poderão participar do concurso os autores de dissertações de Mestrado e de teses de Doutorado ainda não publicadas, redigidas em português, aprovadas nos 24 (vinte e quatro) meses imediatamente anteriores ao encerramento das inscrições do presente Concurso (01 de abril de 2014 a 10 de junho de 2014).

 

§ 2º Ficam impedidos de participar:

i) trabalhos de autoria dos membros da comissão julgadora;

ii) capítulos de teses ou dissertações que já tenham sido premiadas em outros concursos.

 

PERÍODO

ART. 3º:

O concurso terá inscrições abertas em 01 de abril de 2014 e prazo final para envio de trabalhos em 10 de junho de 2014.

 

PREMIAÇÕES

 

ART. 4º:

Os prêmios contemplarão os melhores trabalhos inscritos em cada categoria.

§ 1º A Comissão Julgadora poderá decidir pela não concessão de prêmios.

§ 2º A Comissão Julgadora poderá conceder até duas menções honrosas.

 

ART. 5º:

A premiação dos vencedores será a seguinte:

i) Tese de Doutorado:

Primeiro lugar : R$ 2.000,00 e certificado.

Segundo lugar: R$ 1.000,00 e certificado

Menção honrosa (se houver): certificado.

 

ii) Dissertação de Mestrado:

Primeiro lugar: R$ 1.000,00 e certificado

Segundo lugar: R$ 500,00 e certificado

Menção honrosa (se houver): certificado.

 

INSCRIÇÕES

ART. 6º:

A inscrição será feita eletronicamente até o dia 10 de junho de 2014. O candidato deverá enviar e-mail anexando a ficha de inscrição, devidamente preenchida, e uma versão eletrônica do trabalho (formato PDF ou similar), para o endereço: associacaokeynesiana@gmail.com. No assunto do e-mail deve constar: II Prêmio AKB.

§ único Os trabalhos deverão ser encaminhadas em 3 (três) vias impressas por meio de encomenda expressa (tipo Sedex, ou serviço similar), com data de postagem até 10 de junho de 2014, para cada membro da comissão (respectivos endereços abaixo). O candidato não pode se identificar como remetente. O remetente deve ser: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Pasteur, nº 250, 103, Urca; 22290-240, Rio de Janeiro, RJ. Cada via deverá ser enviada para os seguintes endereços:

André Modenesi (A/C Sidenir Pereira)

Universidade Federal do Rio de Janeiro (Campus da Praia Vermelha) – Instituto de Economia. Av. Pasteur, nº 250, 106, Urca. Rio de Janeiro/RJ. CEP 22290-240

Guiliano de Oliveira

Rua Pitágoras, 353, sala 45 (CERI – Instituto de Economia Unicamp). Barão Geraldo – CAMPINAS/SP. CEP 13083-857

Octavio Conceição

PPGE/UFRGS. Av. João Pessoa 52/sala 33b. Centro. Porto Alegre/RS. CEP 90040-000

 

APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS

ART. 7º:

Os trabalhos deverão ser apresentados sem qualquer informação que identifique a autoria, direta ou indiretamente, sob pena de desclassificação. Na seção de agradecimento (se houver) nem o orientador nem a instituição de ensino do autor poderão ser mencionados.

 

ART. 8º:

Na folha de rosto do trabalho, deverão constar a identificação do II Prêmio AKB 2014, na margem superior da folha, e a categoria a que concorre (centralizados na folha).

 

COMISSÃO JULGADORA

ART. 9º:

O julgamento dos trabalhos das duas categorias será feito por uma Comissão Julgadora composta por: Andre de Melo Modenesi (UFRJ), Giuliano C. de Oliveira (UNICAMP) e Octavio Augusto Camargo Conceição (UFRGS).

 

§ único A Comissão Julgadora elaborará os procedimentos de avaliação, sendo soberana no julgamento. 3

 

RESULTADO

ART. 10º:

O resultado estará disponível no site da AKB (www.akb.org.br) até 07 de agosto de 2014.

 

ART. 11º:

A solenidade de premiação será realizada no VI Encontro Internacional da AKB, que será realizado na Escola de Economia de São Paulo (EESP), daFundação Getúlio Vargas, nos dias 13 a 15 de agosto de 2014.

 

DISPOSIÇÕES FINAIS

ART. 12º:

A inscrição do trabalho implica em automática concordância com o presente Regulamento.

 

ART. 13º:

Os casos omissos serão resolvidos pelo presidente e diretoria da AKB.

Campanha de filiação de alunos de graduação e pós-graduação

Campanha para filiação de novos associados:

A diretoria da Associação Keynesiana Brasileira decidiu instituir para o ano de 2014 um desconto na taxa de filiação de estudantes de graduação e pós-graduação.

Durante todo o ano de 2014 os estudantes de graduação e pós-graduação que se filiarem a AKB pagarão uma anuidade de apenas R$ 50,00. Vejam em anexo as instruções para filiação.

 

acesse o arquivo aqui ao lado : Instrucoes e ficha para filiacao

Prêmio AKB de Teses e Dissertações – Edição 2014

Submissões de Teses e Dissertações para concorrer ao Prêmio AKB de Teses e Dissertações 2014. Neste ano, a novidade é que mais trabalhos serão publicados.

 

Prêmios das categorias:

Tese de Doutorado:

Melhor Tese: R$ 2.000,00

Segundo Lugar: R$ 1.000,00

 

Dissertação de Mestrado:

Melhor Dissertação: R$1.000,00

Segundo Lugar: R$ 500,00

 

Para ambas as categorias, haverá a possibilidade de concessão de Menção Honrosa.

A Comissão Julgadora será composta por André Modenesi (IE-UFRJ), Giuliano Contento (IE-UNICAMP) e Octávio Conceição (FCE-UFRGS).

 

Em breve, divulgaremos o Edital do Prêmio AKB de Teses e Dissertações 2014

Parceria AKB – Revista Economia Ensaios (IE-UFU)

Informamos a todos os associados que foi feita uma parceria entre a AKB e a Revista Economia Ensaios, do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia, por meio da qual os melhores artigos submetidos ao Encontro da AKB serão selecionados para serem publicados em um número especial da Revista. A expectativa é que a Comissão Científica selecione algo em torno de sete artigos para publicação, além dos papers dos palestrantes estrangeiros, Robert Frenkel e Mark Setterfield.

 

Em breve, traremos mais informações operacionais sobre esta parceria AKB – Revista Economia Ensaios.

Call for Papers – VII International Conference of the Brazilian Keynesian Association

The VII International Conference of the Brazilian Keynesian Association (AKB), whose main topic is “Economic Policies for Sustained Growth with Social Equality in an Era of Instability”, will be held at the Getulio Vargas Foundation – FGV-SP, on August 13 to 15, 2014. The Conference will have three special sessions, one mini-course and several ordinary sessions. Topics of special sessions include “Macroeconomics and economic development: in honour of Professor Luiz Gonzaga Belluzzo (UNICAMP)”, “Post-Keynesian Macrodynamics” and “Economic Growth, De-industrialisation and Dutch Disease: the experience of Latin America”.  The mini-course on “growth and distribution” will be given by Professor Nelson Barbosa (IBRE and FGV-SP). Suggested areas for paper submission to ordinary sessions are:

  1.                                I.        International Economy, Trade and Finance
  2.                               II.        Financial System and Financing of the Economy
  3.                             III.        Macroeconomics and Economic Policy
  4.                              IV.        Keynes, Keynesianism and other Theoretical Traditions
  5.                               V.        Growth and Income Distribution
  6.                              VI.        Industrial Dynamics and the Behaviour of Large Corporations

VII.        Contemporary Economic History

Submission details:

i. The deadline for paper submission is May 25, 2014, according to the posting date;

ii. Papers can be written either in Portuguese, Spanish or English;

iii. Papers must be written in Microsoft Office Word, or PDF, and present no more than 25 pages (with an abstract both in Portuguese and English), single spacing, font Times New Roman  and size 12pt. The author’s name and institutional affiliation must be removed from hard copies.

iv. Each author can submit no more than 2 (two) papers (either as author or co-author);

v. Three hard copies of the paper must be sent to the following address: UFRJ/Instituto de Economia,   Professor José Luis Oreiro (A/C Sidenir Pereira), Av. Pasteur nº 250, Sala 103, Urca; 22290-240, Rio   de Janeiro, RJ.

vi. The file of the paper (with author’s name and institutional affiliation) must be emailed to: associacao.keynesiana@gmail.com;

vii. Transport costs and other costs must be covered by each participant. Accommodation can be provided by the organisers, depending on available funding.

More Information: The Scientific Commission includes Fernando Ferrari (UFRGS), Luiz Fernando de Paula (UERJ), José Luis Oreiro (UFRJ) and Fábio Terra (UFF). Organising Commission: José Luis Oreiro (UFRJ), Eliane Araújo (UEM), Nelson Marconi (FGV-SP), Giuliano Contento (IE-Unicamp) and Laura Carvalho (FGV-SP). See also www.akb.org.br.

VII Encuentro Internacional de la Asociación Keynesiana Brasileña – LLAMADA DE TRABAJOS

El VII Encuentro Internacional de la Asociación Keynesiana Brasileña (AKB), cuyo tema general es “Políticas Económicas para el Crecimiento Sostenido con Equidad Social en una Era de Inestabilidad”, será realizado en la Fundación Getúlio Vargas (FGV-SP) en el período de 13 a 15 de agosto del 2014. El Encuentro tendrá tres secciones especiales, un mini curso y varias secciones ordinarias. Las secciones especiales tendrán como tema “Macroeconomia y desarrollo económico: homenaje al Profesor Luiz Gonzaga Belluzzo (UNICAMP)”, “Macrodinámica Pós-keynesiana” y “Crecimiento económico, Desindustrialización y Síndrome holandés: la experiencia de América Latina”. El mini curso será ministrado por el Prof. Nelson Barbosa (IBRE e FGV-SP). Las áreas sugeridas para la sumisión de trabajos en las secciones ordinarias son las siguientes:

I. Economía Internacional, Comercio e Finanzas

II. Sistema Financiero e Financiamiento de la Economía

III. Macroeconomia e Política Económica

IV. Keynes, Keynesianismo e otras Tradiciones Teóricas

V. Crecimiento e Distribución de la Renta

VI. Dinámica Industrial e el Comportamiento de las Megacorporaciones

VII.  Historia Económica Contemporánea

 

Detalles para sumisión:

i. La fecha límite para la sumisión de trabajos es 25.05.2014, conforme fecha de franqueo;

ii. Los trabajos podrán ser escritos en portugués, español o inglés;

iii. Los trabajos deben ser escritos en formato Microsoft Office Word, o PDF, tener un máximo de 25 páginas (con resumo en portugués e inglés), espacio simples entre líneas, fuente Times New Roman y tamaño de letra 12pt. El nombre del autor(a) y su afiliación institucional deben ser excluidos de la versión impresa.

iv. Cada autor podrá someter un máximo de 2 (dos) trabajos (como autor o co-autor);

v. Tres copias impresas de los artículos deben ser enviadas para la siguiente dirección:

UFRJ/Instituto de Economia, Prof. José Luis Oreiro (A/C Sidenir Pereira), Av. Pasteur nº 250, Sala 103, Urca; CEP 22290-240, Rio de Janeiro, RJ.

vi. El archivo del trabajo (con el nombre del autor y su afiliación) debe ser enviado al email associacao.keynesiana@gmail.com;

vii. Los costos de transporte y otros gastos deben ser cubiertos por los participantes. Acomodaciones podrán ser fornecidas, a depender de los recursos obtenidos.

 

OTRAS INFORMACIONES: La Comisión Científica es formada por Fernando Ferrari (UFRGS), Luis Fernando de Paula (UERJ), José Luis Oreiro (UFRJ) e Fábio Terra (UFF). La Comisión Organizadora es compuesta por José Luis Oreiro (UFRJ), Eliane Araújo (UEM), Nelson Marconi (FGV-SP), Giuliano Contento (UNICAMP) y Laura Carvalho (FGV-SP)

VII Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira – Chamada de Trabalhos

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O VII Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), cujo tema geral é “Políticas Econômicas para o Crescimento Sustentado com Equidade Social numa Era de Instabilidade”, será realizado na Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP, no período de 13 a 15 de agosto de 2014. O Encontro terá três sessões especiais, um minicurso e várias sessões ordinárias. As sessões especiais terão como tema “Macroeconomia e desenvolvimento econômico: homenagem ao Professor Luiz Gonzaga Belluzzo (UNICAMP)”, “Macrodinâmica Pós-Keynesiana”  e “Crescimento Econômico e Desindustrialização e Doença Holandesa: a experiência da América Latina”.  O minicurso será ministrado pelo Prof Nelson Barbosa (IBRE e FGV-SP). As áreas sugeridas para a submissão de trabalhos nas sessões ordinárias são as seguintes:

I.        Economia Internacional, Comércio e Finanças

II.        Sistema Financeiro e Financiamento da Economia

III.        Macroeconomia e Política Econômica

IV.        Keynes, Keynesianismo e outras Tradições Teóricas

V.        Crescimento e Distribuição de Renda

VI.        Dinâmica Industrial e Comportamento das  Megacorporações

VII.        História Econômica Contemporânea

Detalhes para submissão:

i. O prazo limite para submissão dos artigos é 25/05/2014, conforme data de postagem;

ii. Os artigos poderão ser escritos em português, espanhol  ou inglês;

iii. Os artigos devem ser escritos em formato Microsoft Office Word,  ou PDF, ter um máximo de 25 páginas (com um resumo em português e inglês),  espaçamento simples entre as linhas, fonte Times New Roman  e tamanho das letras 12pt. O nome do autor(a) e sua afiliação institucional devem ser excluídos do paper impresso.

iv. Cada autor poderá submeter no máximo 2 (dois) artigos (como autor ou co-autor);

v. Três cópias impressas dos artigos devem ser enviadas para o seguinte endereço: UFRJ/Instituto de Economia,   Prof José Luis Oreiro (A/C Sidenir Pereira), Av. Pasteur nº 250, Sala 103, Urca; 22290-240, Rio de Janeiro, RJ.

vi. O arquivo do artigo (com o nome do autor e sua afiliação) deve ser enviado para o email: associacao.keynesiana@gmail.com;

vii. A taxa de submissão por artigo está detalhada abaixo, sendo que os referidos valores devem ser depositados na conta corrente da AKB: Banco do Brasil, Ag.1899-6 e c/corrente 36784-2; CNPJ 10.373.254/0001-09.

–  Submissão de associado que está em dia até 2014:  R$ 35,00 por cada submissão;

–  Submissão de associado que está em dia até 2013: R$ 135,00 (R$ 100,00 anuidade e R$ 35,00 por cada submissão) ou R$ 105,00 para estudante-associado (R$ 70,00 anuidade e R$ 35,00 para submissão;

–  Submissão de associado que está em dia até 2012: R$ 185,00 (R$ 150,00 por duas anuidades com desconto – 2012 e 2013 – e R$ 35,00 por cada submissão)

– Submissão de associado que está em dia até 2011: R$ 235,00 (R$ 200,00 por três anuidades com desconto – 2011, 2012 e 2013 – e R$ 35,00 por cada submissão)

–  Anuidade (para quem não for submeter artigo): R$ 100,00 (um ano), R$ 150,00 (para dois anos, sendo um em atraso) e R$  200,00 (para três anos, sendo dois em atraso); para estudante de graduação e pós-graduação: R$ 70,00.

– Submissão de não-associado: R$ 160,00 (por cada submissão para profissional) e R$ 135,00 (cada submissão para estudante que não quiser se associar).

ix. Os custos de transporte e demais despesas devem ser cobertos pelos participantes. Acomodações poderão se fornecidas, a depender dos recursos obtidos.

Maiores Informações: A Comissão Científica é composta por Fernando Ferrari (UFRGS), Luiz Fernando de Paula (UERJ), José Luis Oreiro (UFRJ) e Fábio Terra (UFF). Comissão Organizadora: José Luis Oreiro (UFRJ), Eliane Araújo (UEM), Nelson Marconi (FGV-SP), Giuliano Contento (IE-Unicamp) e Laura Carvalho (FGV-SP).

OBS: Os associados que quiserem se informar sobre situação de pagamento de anuidades passadas, enviem email para associacaokeynesiana@gmail.com

A realidade financeira vista mais de perto (Valor Econômico, 17/12/2013)

Por Cyro Andrade | De São Paulo

Leo Pinheiro/Valor / Leo Pinheiro/ValorLuiz Fernando De Paula: “Sair do rentismo para o produtivismo é o desafio a ser ainda enfrentado no Brasil, no caminho para um “crescimento robusto”

 

É conhecida a inventividade do sistema financeiro para encontrar modos de contornar regras que restrinjam sua liberdade de movimentos. Ou para abrir outras frentes de operação, substitutivas daquelas que passaram a estar sob crivos regulatórios antes inexistentes. Está nessa agilidade para revigorar possibilidades de ganho uma ilustração, na prática cotidiana dos mercados, da motivação e do alcance da atividade bancária, nem sempre percebidos com clareza. Neste seu novo livro, Luiz Fernando de Paula detalha a natureza da racionalidade interessada que bancos aplicam à gestão de seus ativos e passivos, com reflexos sobre todo o funcionamento da economia, sob aspectos macroeconômicos e institucionais – o que implica, com frequência, armar situações propícias à eclosão de crises, como aconteceu no passado, e de novo em 2008, com desdobramentos que se estendem até hoje.

“Bancos não são agentes neutros na intermediação de recursos na economia real e tampouco conformam seu balanço como resultado das decisões tomadas por outros agentes, tal como nos modelos neoclássicos”, lê-se no livro. Na verdade, “os bancos possuem expectativas e motivações próprias e, portanto, administram dinamicamente seu balanço, a partir de expectativas de rentabilidade e risco em um mundo intrinsecamente incerto”. Nascem daí efeitos que extrapolam as peças contábeis de cada instituição. Para John Maynard Keynes e economistas pós-keynesianos, como De Paula, “a dinâmica comportamental dos bancos afeta de forma decisiva as condições e volume de financiamento da economia e, consequentemente, as decisões de gasto dos agentes, assim como os resultados da política monetária”. E acaba afetando variáveis reais, como produto e emprego.

No Brasil, essa dinâmica e suas consequências têm efeitos intrinsecamente distorcivos, segundo De Paula. O problema essencial, aqui, “é como desestimular o comportamento rentista dos agentes (bancos, firmas e famílias), que faz com que aufiram boa parte de sua receita a partir de ganhos financeiros favorecidos por juros elevados em contexto de títulos de curto prazo. Sair do rentismo para o produtivismo é o desafio a ser ainda enfrentado”.

Há, portanto, uma lógica contraditória a desmontar. “A preparação para um crescimento robusto requer uma boa combinação de fundos públicos com o desenvolvimento de instrumentos privados de financiamento de longo prazo”, mas “um dos fatores que impede, historicamente, o desenvolvimento das relações financeiras de longo prazo no Brasil é a taxa de juros real elevada”.

No livro, D e Paula também procura demonstrar que, ao contrário do que costumam dizer outros economistas, “o investimento nunca poderá ser constrangido por falta de poupança, mas poderá ser constrangido por falta de financiamento, e, sobretudo, de financiamento mais adequado à maturidade do investimento”.

Poupança, financiamento, investimento, são elementos de variadas equações e cenários econômicos, assim como de painéis lógicos em que se inscrevem políticas econômicas. Para Keynes, lê-se também no livro, o investimento não deixará de ser realizado por falta de poupança, mas sim por escassez de financiamento; a poupança não é precondição para investimento; a igualdade entre poupança e investimento resulta da mudança no nível de renda e, portanto, a decisão de investimento precede a criação de renda.

“Falta melhor compreensão das relações conceituais da macroeconomia, no entendimento da realidade brasileira”, afirma De Paula. “Alguns economistas de linhagem ortodoxa repetem, quase como um mantra, que o problema do Brasil é a falta de poupança. A China é dada como exemplo de um país em que o câmbio é depreciado porque as pessoas poupam bastante, mas é no mínimo curioso como o governo chinês controla a taxa de câmbio, apesar da pressão dos Estados Unidos. O que precisamos no Brasil é ter um ambiente macroeconômico que favoreça as decisões empresariais de investimento, afetando de forma positiva as expectativas.”

Basicamente, como argumentam De Paula e outros economistas de orientação keynesiana, “seria preciso viabilizar a combinação de uma taxa de juros real baixa e um câmbio competitivo, razoavelmente estável, além de uma política industrial que estimule adequadamente setores selecionados como estratégicos”.

Tomado o caminho aberto por políticas traçadas para levar a tal combinação de fatores, se estará apenas iniciando um percurso que se estenderá no tempo, sem nada a ver com a brevidade que resultaria de algum “passe de mágica”, como diz De Paula. “A preparação para um crescimento robusto exigirá, ademais, uma boa combinação de fundos públicos com o desenvolvimento de instrumentos privados de financiamento de longo prazo. Seria interessante, por exemplo, estender a isenção fiscal à emissão de debêntures que não sirvam apenas a projetos de infraestrutura.”

No fim de todas as contas, De Paula acredita que o mercado de capitais tem mais potencial para desenvolver mecanismos de financiamento de longo prazo do que o setor bancário. E o BNDES, “ainda que não com o peso que tem atualmente, por algum tempo ainda continuará importante no financiamento de longo prazo da economia brasileira”. O banco teria que transitar, porém, “mesmo que gradualmente, para um papel mais estratégico no financiamento das empresas”. Cumpriria, assim, sua função de braço financeiro na execução da política industrial que se recomenda.

Não se deverá ignorar, para a boa sustentação de uma política industrial consequente, a relevância da inovação tecnológica, atividade que geralmente não encontra abrigo na cadeia de interesses imediatos dos bancos. É outro tema que De Paula aborda em seu livro. “A grande dificuldade da atividade de pesquisa e desenvolvimento é que o ativo de conhecimento criado por esse investimento é intangível, parcialmente incorporado ao capital humano. Assim, bancos e outros emprestadores, ao preferirem ativos físicos como garantia de empréstimos, mostram-se relutantes em emprestar quando o projeto envolve montantes significativos de investimento, além da quase impossibilidade de se fazer qualquer projeção em relação aos investimentos esperados do projeto a ser implementado.”

São obstáculos que podem aumentar substancialmente o custo do capital para tais atividades – se for encontrado -, em particular para pequenas e médias empresas em seus primeiros movimentos.

Leia íntegra da entrevista no site www.valor.com.br

“Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia – Uma Abordagem Keynesiana”

Luiz Fernando de Paula. Editora: Campus/Elsevier. 162 págs. R$ 62,90

Luiz Fernando de Paula é professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ex-presidente da Associação Keynesiana Brasileira

 

Lançamento do livro “Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: uma abordagem keynesiana”

Lançamento do livro “Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: uma abordagem keynesiana”, de autoria de Luiz Fernando de Paula, no dia 17 de dezembro (terça) a partir das 19 horas na Livraria Prefácio (Rua Voluntários da Pátria, 39 – Botafogo, Rio de Janeiro/RJ). Segue em anexo o convite do evento de lançamento e capa completa do livro.
Formado na tradição keynesiana, Luiz Fernando de Paula conhece profundamente tanto a obra de Keynes quanto a de Minsky e seus seguidores. Com a experiência de anos na análise do sistema bancário e do mercado de capitais brasileiro, conhecida do público através de suas muitas publicações, o autor deste livro tem muito a agregar ao nosso conhecimento tanto da teoria financeira adequada ao mundo real, nesse momento em que a fé nos mercados eficientes sofre seu abalo mais importante em muitos anos, quanto da realidade do sistema financeiro brasileiro.
Do Prefácio de Fernando Cardim de Carvalho – Professor Emérito do IE/UFRJ
Em sua trajetória de economista, a ampla pesquisa de Luiz Fernando de Paula sobre setor bancário e sistema financeiro foi construída em cima das ideias de Keynes, Minsky e Schumpeter. Ele traz essas ideias em uma análise magistral do papel do setor bancário e das finanças sobre  crescimento econômico, crise e desenvolvimento. Seu tema central – fragilidade financeira e instabilidade que emerge em função da própria lógica de expansão capitalista – é essencial para entender a situação presente de economia mundial. A concisa e abrangente revisão do “estado da arte” do pensamento econômico realizada neste livro é imensamente útil tanto para especialistas quanto para iniciantes na temática sobre bancos e financiamento.
Gary A. Dymski
Professor de Economia da Leeds University Business School e da Universidade da Califórnia, Riverside

Seção Especial AKB/ANPEC – A Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento e o Novo-Desenvolvimentistmo

Caros amigos,

Quero convida-los para a seção especial AKB/ANPEC a ser realizada na quarta-feira dia 11 de dezembro as 17:15 no encontro nacional da anpec.

Título da Seção : A Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento e o Novo-Desenvolvimentismo

Presidente: Luiz Carlos Bresser-Pereira

Expositores: José Luis Oreiro, Luiz Fernando de Paula e Nelson Marconi

Conto com a presença de todos

Saudações Keynesianas

José Luis Oreiro

Presidente da Associação Keynesiana Brasileira