Blog da Associação Keynesiana Brasileira

European perplexity, por Bresser-Pereira.

Publicado por associacaokb em 26/03/2013

Folha de S.Paulo, March 25, 2013.

“In order to solve the economic crisis it is necessary to restore the equilibrium of unit labor costs, that is, to reduce wages.”
The financial crisis of the Eurozone was relatively overcome, but the economic crisis remains profound. The sovereign financial crisis of the Euro in 2010 resulted from the 2008 global banking crisis which led the States to run into debt in order to bail out the banks. It was overcome when the president of the European Central Bank ensured that he would buy on the secondary market the countries’ sovereign debt securities.
But the economic crisis of the Eurozone continues to be unresolved. European economy as a whole is stagnant, because the implicit or internal exchange rates of the Southern countries have appreciated as compared to the rates of the Northern countries, and their enterprises ceased to be competitive.
The notion of internal exchange rate is a notion related to the value and not to the exchange rate market price. The value of exchange rate does not result from the variations in the supply and demand of foreign currency, which cause the market exchange rate to float around its value, but it is the value that the exchange rate must have in order to make competitive the enterprises existing in the country. The value of the exchange rate depends on the relationship between a country’s productivity increase and wage increase (the “unit labor cost” in economic language) as compared to other countries. In 2003, Gerhard Schröeder, Germany’s Prime minister at that time, through the Agenda 2010 initiative, promoted the flexibility of labor laws and, at the same time, concluded an agreement between enterprises and trade unions according to which wages would no longer be increased in the same proportion as productivity, in exchange for job security. Since the Southern countries did not reach the same agreement, their unit labor cost rose as compared to Germany’s, the internal exchange rate appreciated, enterprises lost competitiveness and became indebted, households also became indebted, and this translated as huge current account deficits, despite the fact that public accounts remained in equilibrium (except for Greece).
In order to solve the economic crisis it is necessary to restore the equilibrium of unit labor costs, that is, to reduce wages. The normal way to do it would be for each country to retrieve its ability to depreciate the exchange rate – a solution that spreads among the whole society the cost of the necessary adjustment and does it at once – but which requires a monetary reform that, in a planned way, would discontinue the euro.
Since the Europeans do not have the courage to do it, an alternative would be an inflation that would reduce the actual wages, while the Northern European countries would increase their wages, but Germany does not accept to lose competitiveness with regard to China and to the United States. The third alternative is the one that is being adopted: it is “austerity”, that is, wage reduction through recession and unemployment. It is a cruel solution, whose weight falls on wage-earners and small enterprises. It is the solution against which perplexed European citizens protest on the streets and in elections, but, in the end, it is the feasible solution as long as they do not lose the almost religious respect they have developed regarding their common currency.
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Globalization and Competition
Published in French (La Découverte),
Portuguese (Campus)
and English (Cambridge University Press)

  1. www.bresserpereira.org.br

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Seminário de Lançamento do Livro: Sistema financeiro e política econômica em uma era de instabilidade

Publicado por associacaokb em 29/11/2012

No link seguinte:

Cartaz

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Entrevista de Luiz Carlos Bresser-Pereira a José Luís Oreiro para a Associação Keynesiana Brasileira

Publicado por associacaokb em 27/08/2012

Um keynesiano-estruturalista no tempo da globalização 

Véspera da homenagem que esta associação fez a Luiz Carlos Bresser-Pereira em seu IV Encontro Internacional, São Paulo, 21 de agosto de 2012.

a)      Por que você resolveu estudar economia?

Em 1955 eu estava começando o terceiro ano de Direito na USP, e, de repente, caiu-me nas mãos os textos dos intelectuais nacionalistas do ISEB sobre a industrialização Brasileira e o pacto desenvolvimentista que Getúlio Vargas estava liderando. Decidi então que não buscaria mais ser juiz de direito; eu seria um economista ou um sociólogo do desenvolvimento. A decisão pela economia aconteceu quando, em 1962, logrei que Antonio Delfim Netto me aceitasse no programa de doutorado da Faculdade de Economia e Administração da USP.

b)     Em que momento você teve contato com as ideias de Keynes? Qual foi sua reação a elas?

Eu primeiro me tornei um economista estruturalista e, em seguida, também um keynesiano.  Comecei a estudar a história do pensamento econômico em 1959, quando fiz o concurso para a FGV. E continuei a estuda-lo nos Estados Unidos em 1960, quando fiz meu MBA. Ao mesmo tempo que lia meus mestres, Arthur Lewis, Myrdall, eu lia Marx,  Keynes, Kalecki e Schumpeter. Primeiro, dei aulas de desenvolvimento econômico, a partir de 1968, e, a partir de 1970, macroeconomia, quando criei o Departamento de Economia na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.

c)      Que pessoas você considera seus mentores no estudo de economia?

Meus mestres de economia brasileira foram Ignácio Rangel e Celso Furtado; meus mestres de teoria econômica geral, Marx e Keynes.

d)     Você se considera um economista Keynesiano ou Pós Keynesiano? Como você se diferencia de Keynesianos como Stiglitz e Krugman?

Eu sou um economista keynesiano-estruturalista. A teoria econômica está dividida em escolas, mas felizmente existe uma Teoria Econômica Básica onde estão os princípios da teoria do desenvolvimento capitalista e da teoria microeconômica clássicas e da macroeconomia keynesiana que estão de alguma forma presentes em um bom texto introdutório de Economia. Stiglitz e Krugman são antes neoclássicos; mas, como aprenderam essa Teoria Econômica Básica e são profundamente inteligentes e criativos, esquecem seus modelos hipotético-dedutivos quando analisam a realidade econômica, e podem ser considerados neokeynesianos. Um verdadeiro keynesiano deve pensar historicamente. Deve construir modelos históricos, não construir castelos matemáticos sem correspondência na realidade. Nos últimos 20 anos eu logrei elaborar uma crítica da teoria econômica neoclássica que me parece original e decisiva. Ao invés de simplesmente afirmar que os modelos neoclássicos não são realistas, eu expliquei por que eles não são nem podem ser realistas. Essas ideias estão no paper, “Os dois métodos e o núcleo duro da teoria econômica” que eu demorei 15 anos para escrever. Eu parto de uma classificação de ciências em metodológicas e substantivas, estas, por sua vez, dividindo-se em ciências  naturais e ciências sociais ou históricas. As primeiras usam o método hipotético-dedutivo, porque não tem objeto empírico de estudo; elas ajudam a pensar. Já as ciências substantivas devem usar o método empírico-dedutivo ou histórico-dedutivo se forem ciências sociais como é a economia. A teoria econômica neoclássica ignorou essa distinção e, com os axiomas do homo economicus, das expectativas racionais e dos rendimentos decrescentes, tornou-se uma “ciência” hipotético-dedutiva, cujo critério de verdade não é a aderência à realidade mas uma certa coerência lógica. Ora, uma ciência substantiva que não adere à realidade é uma falsa ciência; é mero exercício lógico-matemática destituído de validade. De acordo com esta minha visão, a microeconomia marshalliana livrada da teoria subjetiva do valor juntamente com a teoria dos jogos não constituem o microfundamento da Economia mas são a base de uma ciência metodológica como é também a Econometria: a Teoria da Tomada de Decisão Econômica. Temos, assim, três ciências complementares, uma substantiva, que analisa os sistemas econômicos – a Economia ou Economia Política –, que usa o método histórico, e duas metodológicas que usam o método hipotético-dedutivo: a Teoria da Tomada de Decisão Econômica e a Econometria.

e)      Como sua opção teórica se relaciona com sua visão política do mundo? Por que? Você se considera um socialdemocrata?

Eu sempre me considerei um desenvolvimentista de centro-esquerda. Quero uma sociedade mais desenvolvida e mais justa que caminhe na direção do socialismo no longo prazo Sempre fui, portanto, um socialdemocrata.  Mais do que compatíveis, a teoria estruturalista do desenvolvimento e a macroeconomia keynesiana são teorias históricas instrumentais para que alcancemos esses objetivos – para que administremos o capitalismo mais competentemente e com mais justiça que os liberais.  Atualmente estou ajudando a construir uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento que une a visão keynesiana e estruturalista.

f)       Qual a sua maior contribuição para o desenvolvimento do pensamento keynesiano ou heterodoxo?

Enumero três: (1) o modelo histórico de desenvolvimento, distribuição e progresso técnico com a inversão do modelo clássico de distribuição, eu está em Lucro, Acumulação e Crise (1986); (2) a teoria da inflação inercial, com Yoshiaki Nakano, que está em Inflação e Recessão  (1984); e (3) a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, que está em Globalização e Competição (2010).

g)      Olhando os seus escritos acadêmicos pode-se perceber uma mudança no foco de interesse entre os anos 1990 e 2000. Com efeito, na década de 1990 você parecia estar mais interessado com questões relacionadas a eficiência na governança do Estado; ao passo que na década de 2000 seu interesse passa a ser a “macroeconomia da estagnação brasileira”. O que motivou essa mudança de foco?

Minha preocupação com o a eficiência do aparelho do Estado decorreu de haver sido nomeado Ministro da Administração Federal e Reforma do Estado (1995-98). Quando, em 1999, voltei para a vida acadêmica, voltei a dedicar-me ao desenvolvimento econômico e à macroeconomia, e as juntei não na “macroeconomia da estagnação brasileira” (esse é apenas o título de um livro meu de 2007 sobre a economia brasileira), mas na macroeconomia estruturalista do desenvolvimento.

h)     No ano de 2002, você publicou um paper com o Nakano intitulado “Uma estratégia de desenvolvimento com estabilidade”. Aparentemente esse paper marca a retomada do seu interesse por questões relacionadas ao desenvolvimento econômico, com ênfase na “semi-estagnação brasileira”. A linha de raciocínio ali exposta vai culminar com seu livro “A Macroeconomia da Estagnação”, publicado em 2007. Fale sobre o desenvolvimento de suas ideias entre o paper de 2002 e o livro de 2007.

Depois que, com o uso da teoria da inflação inercial o Brasil logrou estabilizar sua alta inflação inercial eu pensei que se desenvolveria de forma extraordinária. Por isso, fiquei decepcionado com a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. Nos quatro anos e meio que permaneci em seu governo manifestei sempre ao presidente meu desacordo com a política ortodoxa que estava sendo praticada baseada em altas  taxas de juros e taxa de câmbio sobreapreciada. Comecei a fazer minha crítica ainda em 1999, no trabalho, “Incompetência e confidence building por trás de 20 anos de quase-estagnação da América Latina”. Quando, em 2001, meu velho companheiro de estudos e trabalhos, Yoshiaki Nakano, também se desligou do governo, convidei-o para escrever, sucessivamente, dois papers, “Uma estratégia de desenvolvimento com estabilidade” e “Crescimento econômico com poupança externa”.  Em seguida eu continuei a trabalhar na crítica da poupança externa e da tese da restrição externa ao mesmo tempo que orientava duas teses de doutorado sobre a taxa de câmbio (de Paulo Gala e de Lauro Gonzales). Em seguida, escrevi um outro modelo fundamental, o da doença holandesa, no qual apareceu o conceito de equilíbrio industrial. Esses desenvolvimentos teóricos foram essenciais para que eu publicasse em 2007 “Macroeconomia da Estagnação”. Terminado o livro, desenvolvi o terceiro modelo da macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, o modelo da tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio que, em seguida, me permitiu escrever o livro teórico para mim fundamental, “Globalização e Competição”.  

i)        Você é o responsável pela criação do conceito “novo-desenvolvimentismo”. Conte-nos um pouco sobre o processo de criação desse conceito. É verdade que o termo “novo-desenvolvimentismo” foi ideia do Nakano?

Depois de termos escrito os dois papers  acima referidos eu fiquei convencido que começávamos a definir uma nova abordagem para o desenvolvimento econômico e a macroeconomia. Disse isso ao Nakano e perguntei que nome poderíamos dar para as novas ideias. Ele sugeriu “novo desenvolvimentismo”. Eu imediatamente aceitei e na quinta edição de meu livro Desenvolvimento e Crise no Brasil (2003)discuti o novo desenvolvimentismo no último capítulo. Só, porém, em 2006 eu teria um artigo que me satisfez sobre o tema: “O novo desenvolvimentismo e a ortodoxia convencional”.

j)        Nos últimos anos você tem desenvolvido um novo conceito “a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento”. Qual a relação da mesma com o “novo-desenvolvimentismo”? Por que razão você considera a “macroeconomia estruturalista do desenvolvimento” uma nova escola de pensamento econômico?

Sempre defini o novo desenvolvimentismo como uma estratégia nacional de desenvolvimento, como a instituição fundamental para o desenvolvimento econômico; a teoria que justifica esse conjunto de políticas econômicas é a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento. Esta macroeconomia não é uma criação apenas minha. Outros economistas têm dela participado. Agora estou escrevendo um livro que deverá se chamar Structuralist Development Macroeconomics and New Developmentalism com você, José Luiz Oreiro, e com Nelson Marconi. São ideias novas. Um conjunto de modelos novos que renovam o estruturalismo e o keynesianismo.  Por isso entendo que estamos criando no Brasil uma nova escola de pensamento. Uma escola que já tem participação internacional, como pudemos ver com a aprovação das 10 Theses on New Developmentalism que foi subscrita originalmente, em 2010, por 80 economistas de todo o mundo.

k)      Quais são os princípios teóricos fundamentais da “macroeconomia estruturalista do desenvolvimento”? Qual a relação da mesma com o pensamento Keynesiano ou Pós-Keynesiano?

Na macroeconomia estruturalista do desenvolvimento temos três modelos principais: a crítica à política de crescimento com poupança externa e à tese de que os países em desenvolvimento enfrentam uma restrição externa;  o modelo da doença holandesa com duas taxas de câmbio de equilíbrio e o conceito de taxa de câmbio de equilíbrio industrial – aquela taxa que torna competitivas as empresas utilizando tecnologia no estado da arte mundial; e o modelo da tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio. Esses modelos colocam a taxa de câmbio pela primeira vez no centro da teoria do desenvolvimento.  Essa é uma teoria keynesiano-estruturalista que analisa países em desenvolvimento de renda média no quadro histórico da globalização. É uma teoria que ao enfrentar problemas novos, em certos casos crítica o pensamento keynesiano e o pensamento estruturalista antigos. Por exemplo, para a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento a crônica falta de dólares ou a “restrição externa” deriva muito mais de uma taxa de câmbio cronicamente sobreapreciada e, em consequência, de déficits em conta corrente injustificáveis, do que das elasticidade renda das importações e das exportações.   

l)        Como você avalia a Associação Keynesiana Brasileira?

Sinto-me honrado em ser um de seus patronos. Seus dirigentes são todos amigos próximos meus. Entendo que ela já está dando uma contribuição importante para o desenvolvimento do pensamento econômico brasileiro.

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Thomas Palley: A Keynesian Theory of Hegemonic Currencies – Or Why the World Pays Dollar Tribute

Publicado por associacaokb em 13/08/2012

Several years ago (June 2006) I wrote an article advancing a new theory of why the dollar is the world’s dominant currency and why it is likely to remain so. The article was published in the midst of the last boom and sank like a stone. But now debate about the cause of the dollar’s hegemony has been revived in an interesting paper by Fields and Vernengo titled “Hegemonic currencies during the crisis: The dollar versus the euro in a Cartelist perspective” (also here). Their paper provides an opportunity to revive discussion, so I am posting the article again. Here it is (subject to a couple of word edits):

The U.S. dollar is much in the news these days and there is a sense that the world economy may have become excessively reliant on the dollar. This reliance smacks of dysfunctional co-dependence whereby the U.S. and the rest of the world both rely on the dollar’s strength, but neither is well served by it.

The U.S. dollar is the world’s premiere currency, with approximately two-thirds of world official foreign exchange holdings being dollars. Moreover, many countries appear willing to run sustained trade surpluses with the U.S., supplying everything from t-shirts to Porsches in return for additional dollar holdings. This willingness to exchange valuable resources for paper IOUs represents a form of dollar tribute.

Many foreign policymakers complain about the U.S.’s special advantage, which allows it to run enormous trade deficits without apparent market sanction. Whereas balance of payments considerations constrain other countries to run tight economic policies, no equivalent constraint appears to hold for the United States. This advantage is rooted in the dollar’s special role as the world’s reserve currency.

For the U.S. one major benefit of the dollar’s reserve currency role is that it increases the demand for U.S. financial assets. This drives up prices of stocks and bonds and lowering interest rates, thereby increasing household wealth and lowering the cost of borrowing money. Additionally, the U.S. government gets seignorage (a free loan) from the hundreds of millions in dollar bills held offshore. Printing a one hundred dollar bill is almost costless to the U.S. government, but foreigners must give over one hundred dollars of resources to get the bill. That’s a tidy profit for U.S. taxpayers.

Increased foreign demand for U.S. assets also appreciates the dollar, which is a mixed blessing. On one hand, consumers benefit from lower import prices. On the other, it makes U.S manufacturing less internationally competitive because an over-valued dollar makes U.S. exports more expensive and imports cheaper. Reserve currency status therefore promotes trade deficits and de-industrialization.

The conventional explanation of the dollar’s reserve currency status is a “medium of exchange” story. The U.S. has historically been the largest and richest currency area, with the largest share of world output and trade. This has provided incentives for other countries to hold and use dollars. Additionally, the fact that many governments over-issue their own money and create high inflation, encourages foreign citizens to protect themselves by holding dollars instead of domestic currency.

A second theory of reserve currencies, associated with the political left, is based on U.S. military power and the Pax Americana. The argument is that U.S. military power provides the security that protects the global market system, and New York is the new Rome. Countries, such as Saudi Arabia, hold reserves in dollars because New York is a political safe haven, and because that is how they help cover the costs of enforcing the Pax Americana.

These two theories are mutually reinforcing. Thus, to the extent that the dollar is widely used and is also a safe haven, investors will tend to rush into dollars in times of uncertainty. Consequently, central banks in other countries need to accumulate large dollar reserve holdings to protect against financial disruptions that result from sudden exits by investors, as happened in East Asia in 1997.

There is a third unrecognized theory that can be labeled the “buyer of last resort” or Keynesian theory of reserve currencies. Put bluntly, the tribute other countries pay the U.S. through their trade surpluses is the result of their failure to generate adequate consumption spending in their own markets, be it due to poor income distribution or bad domestic economic policies. This forces them to rely on the American consumer.

The logic of this third theory is easily illustrated. Over the last decade, while Europe and Japan stagnated, the U.S. grew on the back of robust consumer spending. This spending has sucked in imports, helping growth in Europe, East Asia, and Latin America, and making the U.S. the major engine of global growth.

East Asian countries (especially China) have been particularly willing to run trade surpluses with the U.S. because this has fuelled export-led growth. These countries rely on exports to keep their factories operating. Export success then attracts foreign direct investment that advances development. Under-valued exchange rates are vital for this strategy as it keeps exports competitive. Countries have therefore channeled their trade surpluses into dollars, keeping the dollar over-valued and enabling them to sell in the U.S. market. This explains both the continuing strong demand for dollars despite the U.S. trade deficit, and the dollar’s dominance in official foreign exchange holdings.

Ironically, America’s dispensation from trade deficit discipline stems from other countries’ failure to develop an equivalent of the American consumer. Countries want to industrialize with full employment, but they lack adequate internal demand. Consequently, they must rely on the U.S. market. It is also why Germany supplies BMWs and Mercedes-Benzes in return for paper dollar IOUs.

Conventional theory says the dollar will only lose its dominance when countries become saturated with dollar holdings. At that stage they will cease buying and may even sell dollars, causing a fall of the dollar. The problem with this story is that countries have no incentive to sell dollars, as this would kill the golden goose of export-led growth.

The Keynesian theory of hegemonic currencies suggests a different take. One reason the dollar could topple is if countries finally manage to develop their own consumption markets. Euroland is most capable of doing this, but for the moment it is gripped by policymaking that is obsessed with inflation and afraid of growth. China needs to improve its income distribution in a way that links income distribution to productivity. Unions are the natural way to do this, but they are blocked by China’s totalitarian political system that fears unions.

An alternative source of collapse is if American consumers reduce spending because they feel over-extended, the Fed raises interest rates too high, or American banks tighten lending standards. In this event, the U.S. economy would stall and the dollar could fall owing to diminished U.S. economic prospects.

All three theories have merit, but in today’s economic environment the buyer of last resort theory is especially relevant. As long as other countries fail to generate sufficient demand in their own markets, they will be compelled to rely on the U.S. market and pay dollar tribute.

However, none are well served by this co-dependence. Other countries are resentful of the U.S.’s special situation that exempts it from trade deficit discipline. Side-by-side, U.S. long-term economic prospects are undermined by the erosion of the manufacturing sector, while U.S. workers face wage and job pressures from imports that are advantaged by the dollar’s over-valuation. Moreover, all are vulnerable to a sudden stop of the system resulting from financial over-extension of the U.S. consumer.

This suggests that the rest of the world needs to develop an alternative to the U.S. consumer. That will require raising wages in developing economies, and encouraging consumption in Europe and Japan. Such measures would stabilize the global economy by providing a second engine of growth, and it would also correct the large global financial imbalances that have developed as a result of over-reliance on the U.S. consumer.

This article was originally published by Yale Global Online as “Why Dollar Hegemony is Unhealthy.” Permission to re-publish and use can be obtained by e-mailing Yale Global at globalization@yale.edu.

 

Artigo publicado em http://www.thomaspalley.com/?p=317#more-317

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Programação do V Encontro da Associação Keynesiana Brasileira

Publicado por associacaokb em 09/08/2012

Aqui o programa do V Encontro da AKB, a ser realizado na FGV-SP, em 22-24 de agosto. Solicitamos atenção  em especial a alocação dos coordenadores de mesa. Haverá tradução simultânea no mini-curso.

Cordialmente,

Sidenir Pereira
Secretaria AKB

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V Encontro da Associação Keynesiana Brasileira – Artigos aprovados

Publicado por associacaokb em 30/07/2012

Aqui: V Encontro da Associação Keynesiana Brasileira .

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A Origem da Macroeconomia e a Crítica de Sraffa a Hayek

Publicado por associacaokb em 24/04/2012

Rodrigo Magalhães *


* Aluno do curso de graduação em economia da Universidade de Brasília. E-mail: rodrigofdemagalhaes@gmail.com.

A controvérsia sobre a condução das políticas monetária e fiscal nos EUA e dos demais países afetados pela crise financeira de 2008 desencadeou um reaparecimento no debate publico de doutrinas econômicas que, fora de um limitado publico de seguidores, pareciam estar extintas. Entre tais fenômenos, talvez o mais curioso seja a aceitação, por parcela crescente de setores da sociedade norte-americana, das ideias expostas pelo pré-candidato Republicano Ron Paul. Prometendo o fim do FED, readoção do padrão-ouro e forte contração fiscal, o senador texano parece exprimir um conjunto semi-ininteligivel de analises – ao menos para a maior parte dos policy makers e acadêmicos – sobre a origem da crise e o modo de resolvê-la. Afinal, ao que de fato o senador se refere quando diz que a origem da crise esta na sobre acumulação de capital provida  por uma expansão creditícia realizada sob os auspícios das autoridades monetárias ?.

            A resposta a pergunta se remete a origem da macroeconomia e as controvérsias dentro da tradição pos-wickeselliana. Hayek, Keynes, Robertson e Sraffa engajaram-se em intricadas discussões, por volta da década de 1930, a respeito dos efeitos monetários sobre o produto e o emprego durante a transição entre posições de equilíbrio de longo prazo.

            O chute inicial se deveu a severa critica lançada por Hayek, em uma resenha publicada em 1932, ao Tratado Sobre a Moeda, lançado por Keynes dois anos antes. Mantendo-se dentro da dicotomia clássica entre variáveis monetárias e reais, Keynes investigava a ocorrência de desvios momentâneos entre a taxa de juros de mercado e a taxa natural, esta ultima resultante da produtividade do capital e da parcimônia das famílias. Fiel ainda a tradição clássica, o Tratado ainda não incorporaria os elementos centrais da revolução Keynesiana – a ideia que é o nível de renda, e não a taxa de juros, a variável responsável pelo ajuste entre investimento e poupança. Hayek, por sua vez, buscando estabelecer a tradição na qual se formara, se opunha fortemente a ausência em Keynes de uma teoria do capital para compreensão dos mecanismos de ajuste de longo prazo que forcariam o sistema bancário a praticar uma taxa de mercado compatível com as condições de equilíbrio no mercado de fundo de empréstimos. A ausência de uma apropriada resposta de Keynes, em parte percebida pela sua própria afirmação de que “não existe uma teoria do capital no presente momento”, foi prontamente recebida por Hayek ao afirmar que, na menos pior das hipóteses, uma teoria do capital sofisticada existe e encontra-se “especificamente em Bohm-Bawerk e Wicksell”.

            Na tradição Austríaca, a quantidade disponível de capital em uma economia se mensura de acordo com a extensão do período de produção existente. Métodos capitais-intensivos seriam aqueles que, ao conceber um fundo de subsistência que permita aos trabalhadores engajarem-se na produção durante uma maior fração de tempo, elevam a produtividade do trabalho e o produto total. O processo dá-se mediante o deslocamento dos fatores originais de produção, trabalho e terra, de atividades voltadas para a aquisição de bens de consumo presente em direção a produção de bens intermediários que incrementam os meios de produção disponíveis. Ao fazer isso, no entanto, prolonga-se temporalmente o estagio entre a aquisição de insumos e a obtenção de bens de consumo finais destinados as satisfações individuais.

            Para o Hayek de Prices and Production, somente através da analise dos efeitos sobre a estrutura de capital é que se poderia conhecer a transição entre diferentes equilíbrios monetários. Sendo a oferta de capital um conjunto de bens de primeira ordem que os poupadores ofertam de modo a expandir o fundo de subsistência dos trabalhadores, existe uma taxa de juros paga as famílias pelos empresários que permite que a disponibilidade de capital seja idêntica ao volume de investimento que os empresários estarão dispostos a empreender. Nesse caso, podemos definir a taxa de juros natural como aquela taxa que garante que a preferência intertemporal das famílias seja idêntica a produtividade marginal do capital, dado o suposto de retornos decrescentes para métodos de produção temporalmente mais alongados.

            Se, durante um período de desequilíbrio, a taxa de marcado praticada pelos bancos for inferior a natural, a demanda por crédito ira superar a captação de depósitos e, portanto, os bancos precisarão acomodar a crescente demanda via um aumento na oferta de crédito. Os empresários, que enxergam numa menor taxa de juros a sinalização acerca da maior lucratividade de tecnologias mais capital-intensivo, expandem seus investimentos e a capacidade produtiva da economia. Como, no entanto, o investimento supera a poupança real disponível ao nível de renda de pleno emprego, o aumento da demanda agregada impacta somente o nível de preços. Tendo em vista que o mecanismo de transmissão se dá de forma assimetria, ocorre uma alteração momentânea entre os preços relativos favoravelmente aos bens de capital em detrimento dos bens de consumo, gerando o que Hayek chama de poupança forcada, resultante de forcas inflacionárias que não esta de acordo com as preferências intertemporais que não foram alteradas durante o processo.

            Após o mecanismo inflacionário ter se propagado e os preços relativos terem voltado ao seu patamar inicial, os empresários terão percebido que a demanda por bens de consumo não se descolou em direção a bens futuros, levando a um aumento de bens presentes e, com isso, a uma maior lucratividade em tal ramo de produção. Os empresários, que haviam prolongado o período de produção de modo a atender uma demanda futura maior, encontra-se com capacidade ociosa em virtude da sobreacumucacao de capital obtida durante período de expansão creditícia. A crise, Hayek conclui, é o mecanismo natural pela qual a economia se desfaz de um excesso de capital subo timo, mesmo que isso se de através de uma recessão. Políticas monetárias que buscassem sustentar a oferta creditícia iriam apenas estender o doloroso, porem necessário, ajuste da taxa de juros de mercado a taxa natural.           

            Em uma serie de artigos publicados no Economic Journal, Piero Sraffa lançou-se em uma profunda critica – em parte estimulada pelo próprio Keynes – a exposição de Hayek da teoria austríaca dos ciclos expressa em Prices and Production. Vale lembrar que, em virtude do estágio ainda inicial de suas pesquisas, a crítica de Sraffa não expressa sua própria visão positiva sobre a teoria do capital, mas permanece apenas dentro do terreno da própria teoria austríaca – isto é, é uma critica interna a teoria de Hayek. O primeiro ponto de Sraffa encontra-se na suposta transitoriedade dos efeitos da poupança forcada em oposição ao caráter permanente de uma mudança na poupança voluntaria. Sraffa argumenta que, tanto no primeiro como no segundo caso, uma nova configuração de equilíbrio emergiria. Um processo inflacionário acionado por uma expansão creditícia, ao alterar a distribuição de renda entre produtores e consumidores, alteraria igualmente um dos dados da teoria, a saber: a dotação de fatores. Mesmo permanecendo iguais as preferências e as tecnologias, ao final do distúrbio monetário, encontraríamos uma nova posição de equilíbrio com relações capital-produto mais altas, não necessitando retornar ao estoque de capital do equilíbrio inicial.        

            Se, por exemplo, aqueles que incrementaram sua renda em virtude da inflação tiverem uma preferência intertemporal maior do que aqueles que perderam, haverá um aumento da poupança, mesmo que mantendo-se constante o produto, que financiara ex post o aumento de investimento inicial. Por conta de uma menor produtividade marginal do capital, a taxa natural ria se ajustar a de marcado, sem que para isso o capital acumulado tenha que ser dissipado. Desse modo, as distinções entre poupança forcada e voluntaria se desfariam.

            Em um segundo flanco, Sraffa ataca a concepção defendida por Hayek que as perturbações que sua teoria analisa dependem exclusivamente de desvios da taxa monetária em relação a natural – sua ocorrência seria possível ainda que os empréstimos fossem efetuados in natura de acordo com cada uma das mercadorias existentes na economia. Para que essa possibilidade fique mais clara, imaginemos uma economia monetária na qual há um mercado futuro para cada bem existente. Caso um especulador adquira uma quantidade emprestada de dinheiro a fim de comprar um saco de milho ao preço prevalecente no mercado atual para vender no mercado futuro, podemos definir a taxa própria de juros do milho como a diferença entre a quantidade de moeda necessária para a obtenção do milho presente menos o valor do mesmo milho ao preço dos mercados futuros. As taxa próprias representam, portanto, as taxas pagas em termos dos próprios bens caso cada empréstimo fosse efetuado sem a intermediação monetária.

            Em equilíbrio – isto e, na ausência de arbitragem – os preços futuros coincidem com o custo de produção, resultando na equalização de todas as taxas de juros próprias, inclusive a da monetária. Na ocorrência de um choque de oferta, entretanto, os preços futuros e presentes tenderiam a diferir e haveria tantas taxas de juros quanto existem bens – não sendo possível, fora do equilíbrio, definir a taxa natural de juros, uma vez que cada taxa própria seria a sua taxa de equilíbrio. Apenas quando os preços de produção se reconfigurassem de acordo com uma taxa uniforme de retorno sobre os preços dos bens de capital (supondo-se livre competição), as taxas  próprias voltariam a ser idênticas.       

            As respostas de Hayek as criticas de Sraffa atestam um claro desconforto. No que diz respeito a questão da poupança forcada, Hayek admite que o retorno para os níveis iniciais de consumo após o fim do surto inflacionário reside no quão rápido e o crescimento dos salários nominais vis-à-vis a elevação dos preços dos bens de capital. Em seguida, atesta: “as transferência de renda de uma classe menos propensa a poupar para uma classe mais inclinada para tanto ira inevitavelmente produzir alguma poupança real”.

            Em relação a existência de uma variedade de taxas próprias de juros, Hayek igualem te admite a possibilidade de que, em qualquer momento fora do equilíbrio, todas as taxas próprias seriam equilíbrio para elas próprias. Sraffa, em sua treplica, extrai as conclusões inevitáveis que Hayek parecia receoso em aceitar: “o único significado (isto e, se houver algum) que eu posso tirar disso é que a política monetária ideal requer agora que a taxa monetária deve ser igual a todas essas taxas divergentes”.

            O resultado do debate parece ter sido peremptório: mesmo teóricos simpáticos a Hayek e a tradição austríaca reconheceram que a sua estatura enquanto teórico foi danificada. Schumpeter, por exemplo, em uma carta endereçada a Sraffa disse estar plenamente de acordo com o jovem economista italiano. Nicholas Kaldor, que ate então era um economista de formação austríaca, relata que o resultado do debate foi de suma importância para a dissolução do circulo de Lionel Robbins na LSE e George Schackle, na ocasião da publicação da Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias décadas depois, viria a se referir a critica de Sraffa como uma “milestone” na analise econômica.

            É de se estranhar que o reaparecimento repentino de teorias ate então consideradas sepultadas (vale lembrar que, mesmo tendo ganhado o Nobel em 1974, a relevância acadêmica de Hayek em economia já havia há muito sido relativizada), esquecendo-se convenientemente do seu próprio opacamento aos olhos de seus contemporâneos. Um retorno a historia da disciplina, no entanto, pode nos permitir jogar um pouco de luz no obscurantismo ideológico com o qual o debate atual esta sendo conduzido.

            

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A Economia Pós-Keynesiana e o Mundo Pós-Crise Financeira de 2008 – José Luis Oreiro

Publicado por associacaokb em 31/01/2012

Entrevista concedida a Revista Multiface (a ser publicada no Vol. 5. N.2) A Revista Multiface é uma publicação científica para alunos de graduação produzida pelos alunos do Programa de Ensino Tutorial (PET) da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG.

Multiface: O economista Robert Lucas, um dos precursores da escola das expectativas racionais, afirmou que não é mais necessário ler a Teoria Geral do Emprego, do Juros e da Moeda, de John Maynard Keynes. Como o senhor avalia a importância da obra de Keynes para o entendimento das condições econômicas atuais?

Oreiro: Não concordo com o Lucas. A Teoria Geral de Keynes é uma obra fundamental para aqueles que desejam entender o funcionamento de uma economia capitalista moderna. Os modelos usados por Lucas e pelos novos-clássicos são relativamente sofisticados do ponto de vista matemático, mas representam economias extremamente primitivas. Os modelos de equilíbrio geral dinâmico usados pelos novos-clássicos representam economias onde (i) nenhuma transação pode ocorrer a “falsos preços”, ou seja, preços para os quais a oferta e a demanda de cada mercadoria não são iguais, (ii) a decisão de contratação de insumos e a venda da produção acabada no mercado são simultâneas de maneira que as empresas não necessitam financiar a atividade de produção e (iii) os mercados são completos no sentido Arrow-Debreu. Nesse tipo de economia não existe nenhum espaço para a moeda e o sistema financeiro. Os novos-clássicos só conseguem incluir moeda nos seus modelos por intermédio de “short-cuts” como as hipóteses de “cash-in-advance” ou a inclusão, a força, da moeda na função utilidade dos agentes. Sem essas hipóteses, indivíduos racionais não demandariam moeda, nem como meio de pagamento, no mundo suposto pelos novos-clássicos. Isso porque nesse tipo de economia, parafraseando Frank Hahn, “existe um preço cotado hoje, para um guarda-chuva a ser entregue em Cambridge, no Natal de 2112, se chover”. Em outras palavras, os mercados são completos de maneira que todas as transações podem ser efetuadas e liquidadas em t=0. Como não existem transações a serem realizadas depois de t=0, apenas entrega de mercadorias, também não há espaço para a moeda como meio de pagamento, e menos ainda como reserva de valor. Também não há espaço para o sistema financeiro, particularmente para bancos. Daqui se segue que a economia suposta por Lucas e pelos Novos-Clássicos é, no fundo, uma barter economy. Se isso é verdade então com que autoridade Lucas afirma que a leitura da Teoria Geral é desnecessária? Acaso ele quer afirmar que a análise de uma economia não-monetária, onde o sistema financeiro é inexistente, é mais relevante para o entendimento sobre o funcionamento de uma economia capitalista moderna do que a Teoria Geral de Keynes, a qual foi escrita para dar conta da análise de uma Economia Monetária de Produção? O problema é que esse pessoal do mainstream americano confunde formalismo com relevância.

Multiface: Atualmente existe uma grupo de economistas considerados novos keynesianos. Qual a principal diferença entre esse grupo de economistas e aqueles que adotam o paradigma pós keynesiano? O senhor os consideraria como economistas realmente keynesianos?

Oreiro: Os Novos-Keynesianos podem ser classificados em primeira e segunda geração. Nos trabalhos da primeira geração de novos-keynesianos (Stiglitz, Romer e Mankiw) o objetivo eram simplesmente mostrar a compatibilidade entre o suposto tradicional neoclássico de comportamento racional e os resultados da “velha” macroeconomia Keynesiana. Mais especificamente tratava-se de responder o porque agentes econômicos racionais mantinham preços e salários nominais rígidos face a uma queda da demanda agregada, quando essa rigidez era a responsável pela queda da produção e do emprego, a qual afetava de maneira adversa aos agentes econômicos em seu conjunto. A resposta dessa primeira geração de novos-keynesianos foi mostrar que num contexto no qual existem custo de ajustamento de preços e onde as imperfeições no processo de seleção e monitoramento dos trabalhadores pode dar origem a rigidez de salário real, pode ser do interesse privado das empresas manter os preços dos seus produtos inalterados face a uma queda da demanda agregada. Os novos-keynesianos de segunda geração (Woodford e Galí) foram muito além disso. Eles resolveram replicar a mesma metodologia de construção de modelos dos novos-clássicos e adotaram o assim chamado “modelo de equilíbrio geral estocástico dinâmico”, ou seja, a versão inter-temporal do modelo de equilíbrio geral Arrow-Debreu para uma economia sujeita a “incerteza”, ou seja, na qual o resultado das decisões dos agentes econômicos é condicional ao “estado da natureza”. Foi a rendição final dos novos-keynesianos a hipótese de expectativas racionais. A diferença dos modelos DSGE dos novos-keynesianos com respeito ao dos novos-clássicos é que nos primeiros se impõe, de forma puramente ad-hoc, a existência de rigidez de preços. A justificativa para esse procedimento é que os modelos DSGE são a forma “correta” para se analisar os efeitos dinâmicos das políticas econômicas. Dessa forma, deve-se sacrificar a relevância no altar do formalismo. Eu tenho alguma simpatia pelos novos-keynesianos de primeira geração, mas acho um completo non-sense o trabalho feito pelos novos-keynesianos de segunda geração. Particularmente acho que o velho e antiquado modelo IS-LM-BP (ou sua versão remasterizada, o modelo IS-RM-BP) muito mais relevante para o entendimento a respeito do funcionamento de uma economia capitalista moderna do que o modelo DSGE. Quanto a considerar os novos-keynesianos como “realmente keynesianos” está claro que não considero. Não se trata de ter uma visão “fundamentalista” da obra de Keynes. Longe disso. Mas qualquer pessoa que tenha minimamente lido a Teoria Geral sabe que a economia ali apresentada não guarda nenhuma relação com a economia representada pelos modelos DSGE. Trata-se de uma apropriação indébita do nome de Keynes.

Multiface: A zona do euro está passando por um período de crise em que alguns países têm enfrentado grande dificuldade para pagar as dívidas contraídas anteriormente. Em reposta a essa situação várias medidas de austeridade foram adotadas com apoio do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu. Como o senhor avalia essas medidas?

Oreiro: Acho que essas medidas não vão funcionar. A crise atual da área do Euro não está relacionada com governos gastadores que se endividaram em excesso, mas com o fato de que os países que compõe a área do Euro perderam a capacidade de imprimir sua própria moeda, de tal forma que os mercados de títulos soberanos estão sujeitos ao que eu denomino de “corrida para liquidez”, algo que é muito próximo em essência a uma corrida bancária. Considere que os detentores de títulos de um país como a Itália, por exemplo, passem a desconfiar, a partir de um determinado momento, da capacidade desse país em honrar as suas obrigações financeiras. Nesse caso, cada investidor tomando individualmente pode até não acreditar num default soberano, mas pode ficar incerto a respeito do comportamento dos demais investidores. Nesse contexto, se houver uma corrida para a liquidez, ou seja, se todos os demais n-1 investidores (ou uma fração significativa dos mesmos) resolverem liquidar suas posições em títulos da Itália, o preço de mercado desses títulos irá despencar, gerando uma grande perda de capital para o investidor que mantiver sua posição em títulos do governo desse país. Daqui se segue que cada investidor individual terá um forte incentivo a se desfazer de suas posições antes que todos os demais o façam. Como todos tem o mesmo incentivo o resultado é uma corrida para a liquidez, onde o preço dos títulos soberanos despenca e, consequentemente, a taxa de juros aumenta muito. A depender da extensão da elevação da taxa de juros, a dívida pública pode se tornar insustentável, o que realiza as profecias pessimistas dos investidores. A única forma de se evitar esse “equilíbrio ruim” é por intermédio do compromisso (que pode ser implícito) da autoridade monetária com a monetização da dívida pública em casos de “corrida para a liquidez”. Se o compromisso for crível então a corrida para a liquidez não irá ocorrer e a autoridade monetária não será obrigada a comprar os títulos soberanos. Austeridade não é substituto para a função de emprestador de última instância. Isso porque a austeridade num momento de recessão atua apenas no sentido de aprofundar a queda do nível de renda e de emprego, reduzindo assim a arrecadação de impostos e, portanto, a capacidade dos governos de fazer frente aos seus compromissos financeiros. Multiface: A interpretação pós keynesiana trata como possível que uma economia mantenha sistematicamente uma taxa de juros maior do aquela considerada neutra – isto é, aquela que proporciona plena utilização da capacidade produtiva da economia. Podemos considerar que a economia brasileira tem uma taxa de juros muito acima da taxa neutra? Por quais razões isso ocorre? Oreiro: O Brasil possui uma taxa de juros sistematicamente elevada para os padrões internacionais, mesmo quando comparamos com outros países em desenvolvimento. Os economistas brasileiros, das mais diversas tendências, tem apresentado diversas explicações para o fenômeno, mas não existe um consenso na literatura brasileira sobre qual seja a causa dos juros elevados no Brasil. Eu acredito que uma explicação possível para esse fenômeno seja o fato de que o passado de alta inflação experimentado no Brasil, ao expandir enormemente o sistema financeiro e a demanda por substitutos próximos da moeda correte, criou uma “cultura rentista” em nosso país, na qual os indivíduos, das mais diversas classes sociais, ficaram viciados em juros elevados sobre aplicações com liquidez diária e risco praticamente zero. Essa cultura rentista pode ter gerado uma taxa de juros convencional muito alta, o que cria um piso abaixo do qual o Banco Central não consegue colocar a taxa de juros sob risco de perder totalmente a credibilidade por parte do público. Nesse contexto, a redução da taxa de juros torna-se um processo extremamente lento, realizado ao longo de vários ciclos de taxa de juros, onde a cada ciclo a taxa de juros média é ligeiramente mais baixa do que no ciclo anterior. Dessa forma, o público lentamente revê suas convenções sobre o valor “normal” da taxa de juros, permitindo assim ao Banco Central prosseguir no processo de redução de juros sem por em risco a credibilidade da política monetária.

Multiface: A formação da taxa de juros e as causas da inflação são explicadas de maneira diferente pelo teoria pós keynesiana. Como seria a gestão da política monetária sob uma perspectiva pós keynesiana e no que ela difere da gestão ortodoxa? Quais seriam os objetivos e os mecanismos de ajuste adotados pela autoridade monetária?

Oreiro: Deve-se observar que não existe um consenso entre os economistas pós-keynesianos sobre qual a forma ideal de condução da política monetária. Podemos identificar pelo menos duas posições sobre o tema. A primeira posição atribui um papel fundamental para a política salarial no processo de controle da inflação (vejam o livro de Hansjorg Herr e Milka Kasandziska, Macroeconomic Policy Regimes in Western Industrial Countries, publicado em 2011 pela Routledge). A ideia aqui é que, no longo-prazo, existe uma forte correlação entre a inflação salarial e a evolução do deflator implícito do PIB, de tal maneira que o controle do primeiro implica no controle do segundo. Nesse contexto, a política salarial deve seguir uma regra segundo a qual a taxa de variação dos salários nominais deve ser igual ao crescimento da produtividade do trabalho acrescido da meta de inflação. Os salários não podem ser corrigidos pela inflação passada em nenhuma circunstância, mas apenas pela meta de inflação perseguida pela autoridade monetária. Essa regra de reajuste dos salários nominais facilita a convergência da taxa de inflação com respeito a meta, fazendo com que o Banco Central possa manter a estabilidade da taxa de inflação com uma dosagem menor de taxa de juros. Nesta abordagem, a taxa de juros é um instrumento meramente auxiliar, embora fundamental, no controle da taxa de inflação. Sua função é impedir que a inflação apresente grandes desvios, ainda que temporários, com respeito a meta de médio e longo-prazo, em decorrência de pressões de demanda que induzam ao aumento das margens de lucro por parte das empresas. Isso por sua vez atua no sentido de conferir aos sindicatos a segurança de que reajustes de salário nominal com base na meta de inflação, ao invés de baseados na inflação passada, não irão proporcionar perdas salariais para seus filiados. Em resumo, nessa abordagem, o controle da taxa de inflação é conseguido por intermédio da coordenação entre as políticas monetária e salarial. A segunda posição, a qual poderíamos chamar de “Keynesianismo vulgar”, acredita que o grande problema das economias capitalistas é a tendência a um estado de semi-depressão devida a escassez crônica de demanda agregada (ou seja, uma situação na qual a poupança de pleno-emprego supera o investimento). Para manter a economia operando com pleno-emprego é necessário então que o governo incorra no déficit fiscal necessário para absorver o excesso de poupança de pleno-emprego. A sustentabilidade do déficit fiscal no longo-prazo exige que a política monetária seja então usada para manter a taxa real de juros ligeiramente abaixo da taxa de crescimento do produto real, de forma a impedir o aumento exponencial da relação dívida pública/PIB. O controle da taxa de inflação seria obtido, nesse contexto, pela adoção de um regime de taxa de câmbio fixo combinado com controles fortes, se não proibição total, dos fluxos de capitais internacionais de curto-prazo aos moldes do prevalecente durante o Acordo de Bretton Woods. Pessoalmente tenho muito mais simpatia pela primeira posição do que pela segunda. É possível que economias como a Japonesa ou mesmo a Alemã tenham um problema crônico de “excesso de poupança” de tal forma que seja necessário um grande déficit fiscal (ou um grande saldo comercial) para manter o pleno-emprego. Mas certamente não é o caso de economias como a dos Estados Unidos ou do Brasil. Além disso, controlar a inflação por intermédio da adoção de um regime de câmbio fixo só seria viável no bojo de uma ampla reforma do sistema financeiro internacional, algo que parece inviável num mundo multi-polar. Multiface: A crise de 2007-08 abalou a teoria econômica ortodoxa diante de sua incapacidade de lidar com os problemas que surgiram. Desde então foi possível perceber aumento no interesse pela perspectiva pós keynesiana dentro do meio acadêmico? Como o senhor avalia a situação dessa corrente teórica no Brasil? Oreiro: A crise de 2007-08, a qual ainda não terminou, aumentou o interesse do público em geral tanto por Keynes como por Marx. No Brasil observamos um aumento do interesse, tanto dos estudantes de economia como do público em geral, pelas ideias de Keynes e de Pós-Keynesianos. Em nosso país a escola Pós-Keynesiana é bastante forte e atuante. O pensamento Pós-Keynesiano é largamente difundido entre os cursos de graduação e pós-graduação em economia no Brasil em função da presença de professores/pesquisadores dessa corrente teórica. Atualmente os centros mais representativos do pensamento pós-keynesiano no Brasil ainda são o Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Mas outros centros também tem se destacado na docência e pesquisa com base nessa corrente teórica. Aqui cabe destacar a UFRGS, a UFMG e a UnB. Não posso deixar de mencionar a importância para essa corrente de pensamento da criação, em 2008, da Associação Keynesiana Brasileira. Este ano faremos em São Paulo o V Encontro Internacional da AKB. Atualmente a AKB conta com mais de 100 filiados, número que aumenta a cada ano.

Multiface: O senhor e outros economistas pós keynesianos tem participação ativa em alguns veículos de mídia convencional. Você acredita que os meios de comunicação tem concedido mais espaço para essa interpretação distinta da economia?

Oreiro: Com certeza. Atualmente os economistas pós-keynesianos tem um espaço bastante considerável em jornais como o Valor Econômico. Outros veículos de mídia convencional nos contatam regularmente para saber nossa opinião sobre assuntos diversos. A ditadura do pensamento único prevalecente até 2005 terminou no Brasil.

Multiface: A Revista Multiface tem como um de seus objetivos principais despertar o interesse dos alunos de graduação para a pesquisa acadêmica. O senhor poderia recomendar algum livro ou artigo para aqueles que desejam iniciar seus estudos na área de economia pós keynesiana?

Oreiro: Recomendo dois livros. O primeiro, do Marc Lavoie, introduction to post-keynesian economics, publicado em 2009 pela Palgrave Macmillan. O segundo do Thomas Palley, post keynesian economics, publicado em 1996 também pela Palgrave Macmillan.

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Sobre o patamar da taxa básica de juros no Brasil

Publicado por associacaokb em 19/01/2012

Por Giuliano Contento de Oliveira
 
A despeito do processo mais recente de flexibilização da política monetária no Brasil, pode-se dizer que: 1) o patamar da taxa básica de juros brasileira ainda é muito alto, provocando distorções econômicas e financeiras não desprezíveis, incluindo aquelas desencadeadas pela atração de capital especulativo, como a valorização cambial; e 2) nada indica que mudanças no cenário internacional não possam recolocar o problema do alto patamar da taxa Selic de forma mais aguda do que atualmente. Isso porque, mesmo depois da flexibilização do regime cambial em 1999 e do crescimento significativo do crédito a partir de 2003, outros fatores que contribuem para isso persistem.
 
Segundo a versão convencional, a elevada taxa básica de juros no Brasil decorre do baixo nível de poupança. Parte-se do pressuposto clássico de que a taxa de juros é determinada pelo equilíbrio entre investimento e poupança, constituindo um “fenômeno real”.
 
Nada indica que mudança no cenário internacional não possa elevar a Selic de forma mais aguda que hoje.
 
Essa explicação, contudo, baseia-se em pressupostos incompatíveis com a realidade das economias capitalistas contemporâneas, em que a incerteza, a não neutralidade da moeda, o dinheiro de crédito e a preferência pela liquidez são características imanentes. Além de não ser a única, a interpretação convencional não é a mais adequada para explicar a alta taxa de juros no Brasil.
Se o patamar elevado da taxa Selic decorre do baixo nível de poupança, como explicar o fato de outros países, a despeito dos níveis similares de poupança, terem taxas básicas de juros bem menores? Segundo os ortodoxos, em razão da existência de fatores que restringem a convergência da taxa de juros em direção às taxas internacionais, com destaque aos seguintes: 1) inconversibilidade monetária; e 2) política de acumulação de reservas realizada pelo Banco Central nos últimos anos.
  
Mas, pode-se argumentar que diversas economias, mesmo com moedas inconversíveis, apresentam juros de curto prazo bem menores do que a prevalecente no Brasil; e, antes da política de acumulação de reservas internacionais, o patamar dos juros no Brasil já era muito alto.
Na “ciência econômica”, as verdades não são tão inquestionáveis assim. Aquilo que parece ser óbvio pode não ser exatamente a explicação verdadeira…
 
A taxa básica de juros da economia deve ser entendida como o prêmio pela abstinência da liquidez e não do consumo corrente. Nesse sentido, o elevado patamar da Selic no Brasil provém do alto prêmio cobrado pelos detentores de riqueza pela abstinência da liquidez. Isso reprime a transformação da poupança financeira em poupança econômica, uma vez que, considerando o arcabouço da indexação financeira ainda prevalecente na economia brasileira mesmo depois do fim da alta da inflação, dispor de elevada liquidez não implica a abdicação de alta rentabilidade.
 
Ademais, outro fator que contribui para o alto patamar da taxa básica de juros no Brasil corresponde ao baixo grau de efetividade dos canais de transmissão da política monetária. Como importantes canais que transmitem a taxa Selic para as decisões de gasto e alocação de riqueza são menos efetivos do que poderiam, a taxa básica de juros requerida para assegurar um nível de demanda agregada compatível com o cumprimento da meta para a inflação acaba sendo muito alta.
 
A indexação financeira, por exemplo, contribui para o desvirtuamento do canal de ativos da política monetária, além de dificultar a construção de uma curva de juros positivamente inclinada. Essa institucionalidade, entre outras distorções, incentiva o curto prazo, obstaculiza a construção de um mercado de capitais dinâmico e permite a arbitragem entre papéis prefixados e pós-fixados, incentivando o espírito especulativo em detrimento do empresarial.
 
O baixo grau de eficiência dos canais de transmissão da política monetária, contudo, não decorre apenas da indexação financeira. Os spreads bancários elevados limitam a efetividade do canal do crédito. O sistema de crédito subsidiado também concorre nessa direção, mas não há qualquer evidência de que os bancos privados no Brasil sejam capazes de viabilizar um sistema de financiamento de longo prazo no momento atual. O sistema de indexação dos preços dos bens, serviços e fatores ainda existente também contribui para limitar o efeito da política monetária sobre a economia. Esses são apenas alguns exemplos de fatores que restringem a eficácia da política monetária no Brasil.
 
Nesse sentido, pode-se sustentar que o elevado patamar da taxa básica de juros na economia brasileira decorre, principalmente, da combinação entre alto prêmio exigido pelos detentores de riqueza pela abstinência da liquidez e baixo grau de efetividade de importantes canais de transmissão da política monetária. Enquanto o primeiro desestimula a transformação da poupança financeira em poupança econômica, o segundo dificulta a compatibilização entre os níveis de oferta e demanda agregadas, sem tensões inflacionárias, a partir de um baixo patamar de taxa de juros. Ademais, o nível de inflação doméstica também concorre para uma taxa nominal superior ao patamar médio de juros nominais prevalecentes nas economias desenvolvidas, em particular.
 
Essas condições, evidentemente, não impedem que, circunstancialmente, o patamar da taxa básica de juros no Brasil seja menos anormalmente alto, particularmente em contextos marcados por taxas de juros excepcionalmente baixas nas economias desenvolvidas. Mas a redução permanente do patamar da taxa de juros no Brasil requer a implementação de reformas e medidas capazes de: 1) aumentar o grau de efetividade dos canais de transmissão da política monetária, sem o comprometimento do sistema de financiamento de longo prazo; e 2) compatibilizar a institucionalidade da economia brasileira ao regime de baixa inflação, o que impõe a eliminação dos mecanismos ainda prevalecentes de indexação, seja no âmbito produtivo, seja no âmbito financeiro.
 
Giuliano Contento de Oliveira é professor do Instituto de Economia da Unicamp.

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Keynes estava certo – Paul Krugman

Publicado por associacaokb em 01/01/2012

Folha de S.Paulo – Mundo – Keynes estava certo – 31/12/2011

O teste tem vindo de países europeus como Grécia e Irlanda, que tiveram que impor austeridade fiscal
“O momento de expansão, e não de retração, é a hora certa para o Tesouro Nacional ser austero.”
Foi o que disse John Maynard Keynes em 1937, quando o BC americano estava a ponto de provar que Keynes estava certo ao tentar equilibrar o orçamento cedo demais, fazendo a economia americana entrar em profunda recessão.
 
Um governo que adota política de cortes numa economia em depressão faz a queda ser pior; a austeridade deve esperar até que a recuperação esteja bem encaminhada.
 
Infelizmente, no fim de 2010 e início de 2011, políticos e governantes em muitas partes do ocidente acreditavam que sabiam mais, e que nós deveríamos focar em deficits e não em empregos, ainda que nossas economias tivessem acabado de se recuperar da depressão pós-crise financeira. Agindo de forma anti-keynesiana, acabaram provando que Keynes estava certo mais uma vez.
Ao declarar que a economia keynesiana foi vingada, estou indo contra o saber convencional. Especialmente em Washington, a incapacidade do pacote de estímulos de Obama de gerar grande número de empregos é geralmente vista como prova de que gastos governamentais não conseguem produzir empregos.
Mas aqueles de nós que fizeram as contas corretamente perceberam desde o início que a Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009 era restrita demais, dada a profundidade da queda. E também previmos o consequente retrocesso político.
 
Portanto, o verdadeiro teste para a economia keynesiana não veio dos tépidos esforços do governo americano para impulsionar a economia, que foram largamente contrabalançados por cortes em níveis estaduais e municipais
 
O teste tem vindo de países europeus como a Grécia e a Irlanda, que tiveram que impor severa austeridade fiscal como condição para receber empréstimos de emergência -e têm sofrido perdas econômicas do mesmo nível da Grande Depressão. Isso não deveria acontecer, segundo a ideologia que domina grande parte do nosso discurso político.
Em março passado, a parte republicana do Comitê Econômico Conjunto do Congresso divulgou relatório que ridicularizava as preocupações de que cortes em um momento de queda poderiam piorar a situação, argumentando que os cortes aumentariam a confiança de consumidores e de mercados, e isso sim poderia levar a um crescimento mais rápido, não mais lento.
 
A insistência em cortes imediatos continuou dominando o cenário político, com efeitos maléficos sobre a economia. É verdade que não houve novas grandes medidas de austeridade do governo federal, mas vimos muita austeridade “passiva” à medida que o pacote de estímulos de Obama saiu de cena e governos estaduais e municipais sem liquidez continuaram fazendo cortes.
 
Você poderia argumentar que Irlanda e Grécia não tinham escolha quanto à imposição de austeridade a não ser fazê-lo ou declararem-se inadimplentes e deixar o euro.

Mas outra lição de 2011 foi que os EUA tinham e têm uma escolha; Washington pode estar obcecado com a questão do deficit, mas os mercados financeiros estão, sim, sinalizando que nós deveríamos tomar mais empréstimos.

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No Brasil, Keynes se sentiria em casa

Publicado por associacaokb em 01/08/2011

Fábio Alves – O Estado de S.Paulo
31 de julho de 2011
Se Deus não fosse brasileiro, John Maynard Keynes certamente deveria ter sido. Em nenhum outro país o economista inglês que publicou o cânone “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, em 1936, tem tantos discípulos na academia. E ao longo da história foram muitos os governantes que aplicaram ao pé da letra seus preceitos e doutrina.
Atestam isso o número expressivo de economistas alinhados com a teoria keynesiana no alto escalão do governo Dilma Rousseff e o crescimento significativo da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), que promoverá nesta semana, no Rio de Janeiro, a quarta edição de seu encontro internacional.
O encontro servirá para acadêmicos brasileiros e estrangeiros discutirem o panorama do sistema financeiro mundial e a crise do euro. O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira participará de uma sessão especial para debater as estratégias de crescimento pós-crise para a economia global e brasileira.
A associação, que encontra apenas na França entidade de tamanho semelhante em número de seguidores, já conta com 120 membros, mais que o dobro dos 50 acadêmicos brasileiros que a criaram em 2008, ano em que a crise financeira mundial reacendeu o temor da Depressão dos anos 30.
O pensamento keynesiano espraiou-se com tal amplitude no Brasil que atualmente existem poucos centros acadêmicos, entre eles as escolas do Rio de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da PUC, que podem ser considerados ainda bastiões da teoria neoclássica, identificada com a defesa ampla do livre mercado e da limitada intervenção do Estado na economia.
Já a Unicamp, cujo programa de mestrado foi frequentado pela presidente Dilma, encabeça a linha de pensamento heterodoxo, entre os quais a teoria keynesiana, cujo cerne é mostrar que economias capitalistas são inerentemente instáveis, já que o pleno emprego é uma utopia de economistas clássicos como o célebre escocês Adam Smith.
Essa popularidade recente de Keynes recebeu um empurrão depois da crise de 2008, que ressuscitou os ensinamentos do economista inglês, que morreu em 1946. Os Estados Unidos e a Europa foram forçados a adotarem políticas anticíclicas para evitar um colapso econômico, resgatando bancos privados e injetando bilhões de dólares na economia.
Presença nacional. Mas foi o Brasil que deflagrou essa guinada no mundo, mais precisamente durante o segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que abandonou uma política econômica mais conservadora em termos fiscal e monetário. Mais do que Lula, o perfil do governo Dilma está marcado por economistas defensores de medidas heterodoxas encontradas no receituário de Keynes.
“O keynesianismo de Lula no segundo mandato foi mais por reação do que por convicção, com uma política pragmática em razão de um ambiente muito adverso na economia mundial”, explica o professor Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e vice-presidente da AKB. “Já no governo Dilma, há muito mais gente identificada com uma corrente keynesiana desenvolvimentista.”
Além do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), Luciano Coutinho, outros economistas tidos como keynesianos no governo Dilma incluem o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, e o secretário de Política Econômica, Márcio Holland de Brito. É a essa inclinação para um desenvolvimentismo à la Keynes que muitos atribuem a escolha da presidente Dilma e, por tabela, do Banco Central em não sacrificar o crescimento econômico em prol do combate à inflação, abrindo mão, inclusive, de atingir neste ano o centro da meta do regime de inflação, de 4,5%.
“Um economista ortodoxo típico consideraria a política econômica atual como keynesiana porque ela tem procurado, por meio de certa flexibilização, fazer um sacrifício no combate à inflação que possa ter perdas mais fortes, quiçá desnecessárias, do crescimento do produto e do emprego”, diz o presidente da AKB, Luiz Fernando de Paula, também professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
O keynesianismo no Brasil ganhou força com a atuação da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), criada em 1948 e que teve como expoentes o renomado economista argentino Raúl Prebisch e o brasileiro Celso Furtado. Mas o fato de a América Latina, e em particular o Brasil, ser um terreno tão fértil para a ideia do Estado como ator principal na indução da industrialização é atribuído pelos acadêmicos ao desenvolvimento tardio da indústria na região, em comparação aos países desenvolvidos, que já tinham ultrapassado a segunda fase da revolução industrial quando Keynes escreveu a sua teoria.
“O Brasil precisa desenvolver sua indústria e financiar seus empreendedores por meio da poupança nacional e de um banco de investimento nacional (BNDES), e não depender do mercado financeiro (controlado pelo Norte) para reduzir as desigualdades sociais e ter um crescimento econômico forte”, diz o professor Edwin Le Heron, da Universidade de Bordeaux e presidente da Adek, a associação keynesiana da França, que tem 90 associados. “Tivemos a mesma estratégia na França com o general De Gaulle.”
Ostracismo. Os keynesianos de carteirinha culpam o ex-presidente americano Ronald Reagan e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher pelo ostracismo relegado a Keynes com o foco no modelo neoliberal de política econômica nos Estados Unidos e na Inglaterra praticamente até hoje, resultando, inclusive, no Consenso de Washington, conceito elaborado em 1990 por John Williamson, do Peterson Institute for International Economics, e encampado pelo FMI.

Pela cartilha do Consenso, privatização, liberalização comercial e desregulamentação da conta de capital deveriam ser a prioridade dos governos latinos, depois da década de 80 marcada por hiperinflação e crise da dívida externa. A Argentina tornou-se o modelo desse novo receituário, que teve no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso seu seguidor no Brasil.

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Conversas com Economistas Pós-Keynesianos I – Fernando Cardim de Carvalho

Publicado por associacaokb em 19/07/2011

Fernando José Cardim de Carvalho possui graduação pela Universidade de São Paulo (1975) , mestrado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (1978) e doutorado em Economia pela Rutgers, the State University of New Jersey (1986) . Atualmente é Consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Economia , com ênfase em Teoria Econômica. Atuando principalmente nos seguintes temas: Asset-Choice, Indexation, Modelos de Economia Agricola, Post Keynesian, Reforma Agraria.

Blog da AKB:  Por que voce escolheu estudar economia?

FJCC: Na verdade, eu nunca escolhi estudar economia. Quando completava meu colegial e me preparava para fazer o vestibular, meus planos eram fazer Direito na USP (eu sou paulista, como você sabe) e jornalismo na Cásper Líbero. Eu queria me tornar um jornalista especializado em análise política e achava que direito me daria a base técnica necessária para isso. As regras do vestibular da USP de então não permitiam buscar duas faculdades no mesmo exame, por isso eu queria fazer Direito lá, tendo que buscar jornalismo em outra escola. A Cásper Líbero era uma escola tradicional de jornalismo, que me satisfazia. Eu passei todo meu terceiro ano de colégio me preparando para o vestibular unificado, o CESCEA, como se chamava então, em Direito e para o outro exame, de jornalismo. Perto da realização do exame, quando fui fazer minha inscrição no CESCEA, ao ser perguntando qual o curso, eu respondi, por nenhuma razão em particular, Economia, ao invés de Direito. Chegando em casa depois, contei à minha futura esposa e a outros o que tinha feito e ninguem entendeu, inclusive eu, realmente. O resto é história. Mas cheguei a manter a segunda parte do plano. Fiz também o vestibular de jornalismo, passei em quarto lugar ou algo assim, mas não fui fazer o curso. O primeiro ano na FEA/USP foi ambíguo. Gostei muito de algumas cadeiras, e nada de outras. No segundo começou a melhorar e eu fiquei até o fim, aí já convencido que tinha sido a melhor escolha.

Blog da AKB:  Em que momento voce teve contacto com as idéias de Keynes? Como foi sua reação a elas?

FJCC: Meu primeiro contato foi ainda no final da faculdade. Um professor de modelos de crescimento, Gustavo Maia Gomes, que era aluno do IPE, um professor muito bom, mesmo sendo muito jovem naquela época, usava como livro auxiliar a coleção de artigos clássicos sobre crescimento editado pelo Amartya Sen para a Penguin, chamado Growth Economics. Ali eu li Harrod, Kaldor, Robinson, etc, pela primeira vez (e também Solow, Swan e outros). A coleção tinha uma excelente introdução do próprio Sen, como era costume nos volumes deste tipo publicados pela Penguin. Eu tenho meu exemplar do livro do Sen até hoje. Quando o curso estava chegando ao fim e muitos de nós já nos preparávamos para o mestrado, eu decidi ler a Teoria Geral. A primeira leitura para a maioria das pessoas não é impressionante, e comigo não foi muito diferente. Era interessante, mas naquela época, meio dos anos 70, a maior curiosidade ainda era Marx. Mas no último ano de faculdade, um grupo de alunos da graduação resolveu fundar uma revista. Daquele tipo ano um, número um, que nunca chega a publicar o número dois. Esse grupo era liderado pelo Persio Arida, que contava entre seus seguidores na época outros alunos como o Aloísio Mercadante, a Lidia Goldenstein, um outro aluno chamado Markus Sokol, que depois virou líder de uma ala radical do PT, etc. Isto é apenas uma curiosidade. A revista se chamava Argumento e um dos participantes do grupo era amigo meu e me pediu um artigo para esse número de estréia. Naquela época a redação de economia brasileira era extremamente importante no exame de mestrado e nós preparávamos redações sobre os temas prováveis, seguindo aquilo que centralizava atenções no debate da época. Uma das que fiz foi sobre Estatização, e mandei o texto para a revista. Quando ela saiu, incluindo meu “artigo”, ela continha também uma pequena nota do Pérsio sobre os livros do Leijonhufvud e do Davidson, desconhecidos por aqui. O artigo em si serviu-me pouco, ou quase nada, porque Pérsio estava interessado no que esses livros podiam ser úteis para uma discussão da mercadoria padrão, conceito usado por Sraffa no Produção de Mercadorias, mas me deixou curioso sobre os dois livros citados. Um outro amigo comum conseguiu localizar uma cópia do livro de Leijonhufvud (On Keynesian Economics and the Economics of Keynes) numa livraria em Belo Horizonte, porque naquela época importar livros era difícil, caro e muito demorado. Eu comprei, li e achei muito interessante. Quando fui fazer o mestrado na Unicamp, em 1976, conhecer melhor Keynes já era uma meta e isso foi se fortalecendo nos anos seguintes, apesar da ênfase na Unicamp então ser quase inteiramente em Marx e Kalecki ser preferido a Keynes, por não depender tanto de conceitos como incerteza, expectativas, etc, que não se enquadravam bem com a orientação mais marxista que era privilegiada. Vindo para o Rio depois do curso de Campinas, em 1977, continuei procurando os livros e textos sobre Keynes, alem de reler a Teoria Geral, agora com bem mais capacidade para avaliar do que se tratava. Em 1982, eu fui um dos alunos brasileiros (o outro foi o Francisco Eduardo Pires de Souza) da primeira Summer School organizada em Trieste, por Kregel, Garegnani e Parrinello, contando com gente como Davidson, Minsky, Asimakopulos, Harcourt, Don Harris, o próprio Kregel, o Antonio Castro entre outros. Abordava-se muitas escolas heterodoxas, mas a concentração maior era entre os pós Keynesianos e os neo-Ricardianos, como Garegnani e outros. Ali eu pude conhecer mais de perto as duas abordagens e fiz minha escolha.

Blog da AKB:  Que pessoas voce considera como seus mentores no estudo de economia?

FJCC: Aqui no Brasil, minha influência mais importante foi a de Antonio Barros de Castro. Eu o conheci no mestrado em Campinas, ele foi meu orientador de mestrado e trabalhamos muito proximamente por muito tempo. Ele foi responsável por minha ida a Trieste, porque como um dos conferencistas da Escola de Verão, ele podia indicar dois alunos para o programa, e ele indicou a mim e ao Francisco Eduardo. A influência do Castro sempre foi muito forte, principalmente nos métodos de trabalho e atitudes, já que seus interesses em economia não eram os mesmos que os meus. Mas como ele tinha passado algum tempo em Cambridge, onde teve contato com vários dos autores que me interessavam, também foi fonte importante de referências bibliográficas, apesar do seu entusiasmo por Keynes ser significativamente menor do que o meu. O outro mentor que tive foi Paul Davidson, meu orientador de doutorado em Rutgers, para onde fui no ano seguinte ao da Summer School. Minha abordagem keynesiana se move fundamentalmente dentro do perímetro que ele mesmo definiu em suas obras, com algumas exceções, e também se define pelo privilégio dado à relação Marshall/Keynes, e pela importância dada a autores como Shackle, uma influência central na formação das minhas idéias. Eu não tenho me referido muito a Shackle nos últimos anos, porque há algum tempo não tenho tratado de termas como expectativas e incerteza, mas a falta de menções não se deve a uma mudança da minha opinião sobre ele, e sim ao fato de que penso ter absorvido tão completamente suas proposições que já não sinto necessidade de explicitar isso todo o tempo.

Blog da AKB:  O que é ser um economista pós-keynesiano? Como voce se diferencia de Keynesianos como Krugman e Stiglitz?

FJCC: Eu não me interesso muito por esse tipo de discussão, eu tenho sempre medo de que isso sirva para alimentar debates sobre a “verdadeira natureza” dos praticantes, das “doutrinas” aceitas, etc. Isso se torna com muita facilidade um debate teológico, servindo principalmente para definir quem deveria ser queimado pela inquisição e quem poderia ainda ter sua alma salva, quem sabe, desde que aceite a penitência adequada. O que eu posso dizer é quais são os fundamentos sobre que eu apóio minhas proposições (não minhas crenças), e esses fundamentos são os que definem uma economia monetária de produção. Essa é uma estilização hipotética de uma economia moderna, de mercado, caracterizada por certas instituições, diferente das estilizações utilizadas por outras correntes, inclusive as que se apóiam em abordagens de equilíbrio geral walrasiano, ainda que seja para apontar as “imperfeições” da economia como ela realmente existe. Esse é o caso, por exemplo, de Stiglitz, que mesmo no que ele escreveu de mais recente, em teoria econômica (não no debate político voltado para a cidadania, e não para a comunidade acadêmica de economia). Esse método de definir tipos ideais para buscar identificar os desvios da realidade, como Frank Hahn já defendia no passado, me parece representar uma chance perdida de investigar o que realmente tem importância no mundo real, desperdiçando muito tempo na exploração de propriedades de configurações que se sabe irrelevantes, apenas para poder mostrar que são irrelevantes no final (é claro que a situação daqueles que fazem esse trabalho porque acreditam que elas sejam também relevantes empriicamente é muito pior, mas esses, francamente, já não me interessam há muito tempo. Há uma idade em que se pode perder tempo debatendo esse tipo de coisa, e outra em que a concentração em problemas relevantes se torna mais urgente).
Por outro lado, o debate em economia, como em todas as ciências sociais, gera implicações em termos de política que são sempre muito importantes. Nesse debate, não me interessa a cor do gato, o que interessa é que ele cace ratos. É impossível ignorar que a crítica, contínua e demolidora, do Paul Krugman às políticas anti-keynesianas e às teorias em que se apóiam é muito mais eficaz que a da maioria de nós (nós todos, em escala planetária). Nesse debate, não me interessa a diferenciação, quando ela não é relevante.

Blog da AKB: Sua escolha teórica tem alguma relação com sua visão política do mundo? Por que?

FJCC: Certamente. Eu venho de uma formação fundamentalmente marxista na minha juventude, que se supunha compatível com uma série de valores, como a importância do combate à desigualdade, à extensão de direitos, a busca de regras mais democráticas de relacionamento político, etc. Os trabalhos do que antigamente se chamava de Jovem Marx ainda me interessam, porque pareciam focalizar exatamente esses problemas. Com o tempo, os fundamentos téoricos da abordagem de Marx foram aparecendo, para mim, como muito mais frágeis do que eu julgava inicialmente e a encarnação política do marxismo, nos regimes de tipo soviético, a negação de tudo o que se esperava caracterizar um mundo melhor. É claro que não se pode imputar a Marx os resultados do chamado marxismo-leninismo, já que Marx não viveu para se posicionar a respeito, ainda que seja possível inferir de seus trabalhos que ele talvez fosse muito crítico do que se fez depois em seu nome. De todos os problemas reais do marxismo-leninismo, e sua ênfase em partidos do proletariado, o mais importante é certamente sua dependência aparentemente intrínseca de regimes totalitários. O totalitatismo parece ter estado no DNA dos regimes criados por esses partidos, que, com o tempo, aliaram o controle político à corrupção e ao controle de burocracias auto-eternizadoras. A crescente insatisfação com essa alternativa, me levou a buscar outros caminhos onde a preocupação com a redução de desigualdades, defesa do trabalho, etc, pudesse conviver com regimes democráticos me levou a estudar as experiências social-democratas e socialistas democráticas. Aglumas foram muito bem sucedidas, como as as nórdicas, outras foram bem sucedidas por um certo tempo, como na Grã Bretanha no pós guerra, outras foram muito marcantes na moldagem de instituições duráveis, como o que se chama de liberalismo nos Estados Unidos, simbolizados pela figura maior do século XX, o Presidente Roosevelt. Estudando essas experiências, que me pareciam compatíveis com a teoria keynesiana, sempre uma influência importante nas experiências social-democratas, especialmente depois da segunda guerra, me pareceu que havia mesmo muito em comum, o que me ajudou a moldar uma visão política mais coerente, eu acho. Essa visão eu pude explicitar em um artigo chamado Keynes and the Reform of the Capitalist Social Order, que publiquei no Journal of Post Keynesian Economics, que resumem um pouco minha própria visão política.

Blog da AKB: Na sua opinião qual sua maior contribuição para o desenvolvimento do pensamento pós-keynesiano ?

FJCC: Isso não cabe a mim dizer. Se alguem, lendo o que escrevi nesses anos, todos interessou-se mais pela teoria keynesiana e achou que esses textos ajudavam a entender melhor do que se tratava, minha maior contribuição foi essa mesma.

Blog da AKB:  Fale sobre a “axiomatização” que voce fez do conceito de economia monetária de produção no seu livro de 1992. Num artigo anterior ao livro publicado como TD na UFRJ voce usava a palavra “axiomas”, mas no livro voce mudou para o termo “princípios”. Qual a razão dessa mudança?

FJCC: Eu acho que ali o mais importante é o desdobramento em cinco ou seis (eu comecei com cinco e depois achei que seis seria mais consistente) princípios do que a mudança de axiomas para princípios em si. Axiomas são afirmações de partida, independentes e não redutíveis. No caso dos axiomas que eram propostos antes, me parecia que essa condição não era respeitada. Alem disso, o esquema de três axiomas, proposto por Davidson, serviam mais ao propósito de criticar a abordagem convencional do que para servir de base a uma teoria alternativa. Assim, o axioma na não validade do axioma da substituição bruta, por exemplo só era importante porque Davidson estava combatendo a idéia, presente na condição de estabilidade de modelos de equilíbrio geral, de que tudo era substituto para tudo, quando a relação proposta por Keynes entre moeda e produto, através das propriedades essenciais da moeda no capítulo 17 da Teoria Geral, era bem mais com plexa. Essa é um importante argumento de crítica, mas não de fundamentação de uma alternativa. Por isso, eu propus uma reformulação de princípios, mais voltados para a conceituação de uma economia monetária de produção, em relação ao proposto por Davidson anteriormente, mais voltado para a crítica das abordagens convencionais.

Blog da AKB:  Para pós-keynesianos como voce, Davidson e Kregel o conceito de economia monetária de produção é o core central da contribuição de Keynes para a teoria econômica. Entretanto, nos trabalhos de discipulos diretos de Keynes como Harrod, Kaldor e até mesmo Robinson a moeda aparece de forma passiva, se tanto, na análise. Isso te incomoda? O pos-Keynesianismo não seria, usando as palavras de Solow, um “estado de espírito” ao invés de uma escola de pensamento?

FJCC: Até certo ponto, Solow tem razão, porque esses rótulos não têm dono, alguem que exerça um poder de excomunhão. É preciso, de qualquer forma, aqui fazer uma distinção entre passividade da moeda, como na visão dos chamados horizontalistas no que se refere à oferta de moeda, liderados por Kaldor, e a passividade da moeda no sentido dos modelos de crescimento, como nos três autores que você cita. No caso dos modelos de crescimento, e isso é particularmetne claro no texto de Harrod, não há a hipótese de moeda passiva porque não se examina o modo de funcionamento da economia, mas sim como deveria ser redefiinida a condição de equilíbrio em uma configuração dinâmica. O problema de Harrod era o que o equilíbrio proposto por Keynes, em que demanda agregada era igualada pela oferta agregada, embutia a condição de que o investimento não era nulo. Se o investimento não era nulo, a oferta agregada, por causa do crescimento do estoque de capital, no período seguinte seria maior que a do período anterior e por isso, para preservar o equilíbrio, seria necessário que a demanda agregada crescesse também. A taxa garantida de crescimento de Harrod era simplesmente a taxa de crescimento que garantia que a demanda cresceria na mesma intensidade que a oferta e que portanto o equilíbrio de curto período descrito por Keynes na Teoria Geral se manteria na sucessão de curtos períodos. Não é uma teoria de operação de uma economia monetária, e nem sequer uma teoria da demanda agregada, é apenas a exploração da trajetória de equilíbrio de uma economia com as características descritas por Keynes. Joan Robinson em The Accumulation of Capital faz a mesma coisa, só que desdobrando a condição de equilíbrio em muitas possibilidades. Não são modelos de como a economia opera, mas sim algo muito mais restrito, o cálculo da solução de equilíbrio quando esta, por si mesma, altera as condições em que ela é encontrada. Harrod não diz que a taxa de crescimento depende da propensão a poupar e da relação capital/produto. O que ele diz, e é bem claro em seu artigo seminal, é que, se é para preservar o equilíbrio, a economia tem de crescer àquela taxa. Isso nada tem a ver com passividade da moeda.

Blog da AKB: Como voce avalia o desenvolvimento do pós-keynesianismo no Brasil? A escola tem conseguido formar novos quadros intelectuais?

FJCC: Eu acho que sim, alem das mais otimistas expectativas que tínhamos aí por volta da segunda metade dos anos 80, quando iniciamos o programa de mestrado na UFF que tinha na teoria keynesiana um dos seus pontos centrais. Basta olhar para ver os encontros da Associação Keynesiana, com um grande número de membros, a maior parte dos quais é desconhecida para mim. O keynesianismo é um componente forte do debate político-econômico neste país e tem também uma influência considerável na tomada de decisões no governo federal. Quando recebo visitantes estrangeiros ou participo de encontros no exterior é sempre um motivo de grande curiosidade o porque da força da corrente neste país. Ter de alguma forma contribuído para isso é fonte de uma enorme satisfação e de um grande orgulho para mim.

Blog da AKB: Na sua opnião qual será o futuro da escola pós-keynesiana no mundo? Em algum momento ela pode vir a se tornar mainstream? Por que?

FJCC: É difícil fazer previsões. O keynesianismo foi revivido com grande força pela crise internacional aberta em 2007. Eu me lembro de ter lido há alguns anos atrás uma observação do Edward Prescott, a quem deram inclusive um prêmio nobel, de que no programa de pós-graduação em que ele trabalhava, os alunos nem ouviam falar do nome Keynes. Alem da surpreendente apologia da ignorância vinda de um funcionário de uma universidade, é uma declaração que faz pensar: quem julgaria hoje em dia, exceto em uma igreja de lunáticos, Prescott ou Lucas ou Sargent, uma influência realmente duradoura sobre o pensamento econômico, que supere Keynes, nêmesis desse pessoal? Outro autor revivido pela crise, criando até mesmo situações cômicas, é Hyman Minsky. É quase impossível ler alguem falando sobre a crise (que tenha alguma audiência alem da crescentemente restrita comunidade de crentes na teoria convencional) que não se sinta obrigado a mencionar Minsky. Há até mesmo uma pista para distinguir pelo menos quem se deu ao trabalho de ler alguma coisa que Minsky tenha escrito. Aqueles que citam Minsky junto com Kilndleberger e só conseguem citar o nome do Manias, deste último, via de regra, não fazem a mais remota idéia do que realmente ele tenha dito, mas pelo menos se sentem envergonhados de reconhecer essa lacuna na sua formação. Grandes eventos, como a grande depressão redefinem a relevância de teorias econômicas. Basta ver as grandes mudanças ocorridas em resultado da grande depressão dos anos 30. Hoje se vê Lawrence Summers, por exemplo, falando de como modelos de equilíbrio geral estocástico dinâmico não são nada mais do que divertimentos irrelevantes, em um vídeo no youtube. O que virá por aí? Como dizia Chou En Lai a respeito da revolução francesa, é cedo  demais para dizer.

Blog da AKB:  Voce foi um dos grande estimuladores da criação da AKB.Como voce avalia a performance da AKB no ano em que se realiza o 4 Encontro Internacional da Associação?

FJCC: Eu acho que é um sucesso indiscutível, especialmente naquilo que, para mim, é o mais importante, que é a oportunidade de interação com economistas que adotam ou querem conhecer melhor essa tradição de pensamento mas que estão em centros cujo acesso ao debate é mais difícil. A vitalidade da associação nesses quatro anos desde sua fundação é absolutamente notável. Eu não contribuí para sua operação, apenas na discussão de sua criação, mas mesmo por essa participação eu tenho um enorme orgulho.

 

 

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A Escolha de Sofia: Entre a Desindustrialização e o Fim do Estado do Bem-Estar?

Publicado por associacaokb em 16/06/2011


José Luis Oreiro *

Luiz Fernando de Paula **

 

O instigante artigo de Samuel Pessoa e Márcio Nakane,  intitulado “A estabilização incompleta”, publicado no Valor Econômico de 14/06/2011, apresenta como principal conclusão uma verdadeira “escolha de Sofia” para a economia brasileira. Para que o Brasil possa ter uma taxa de juros mais baixa seria necessário (i) acabar com a acumulação de reservas internacionais por parte do BCB e aprofundar o processo de conversibilidade do Real, iniciado no começo da década de 1990, o que levaria a uma maior valorização da taxa real de câmbio de forma a atrair a poupança externa necessária para o “equilíbrio macroeconômico”, tendo como conseqüência uma redução ainda maior na competitividade da indústria nacional, acelerando assim o processo de desindustrialização da economia brasileira; ou (ii) aumentar a poupança doméstica por intermédio da redução do grau de cobertura do Estado do Bem-Estar Social introduzido no Brasil após a Constituição de 1988, uma vez que as políticas sociais e “assistencialistas” em prática no nosso país hoje em dia geram incentivos contrários a abstenção de consumo presente, contribuindo assim para uma baixa taxa de poupança doméstica.

O argumento dos autores se baseia no seguinte raciocínio. Em função da estrutura perversa de incentivos a abstenção de consumo presente, devido à ampla cobertura previdenciária, a taxa doméstica de poupança no Brasil é baixa, de maneira que o equilíbrio macroeconômico entre oferta e demanda agregada exige uma elevada taxa real de juros, criando assim um grande diferencial positivo entre a taxa de juros doméstica e a taxa de juros internacional. Numa economia aberta com mobilidade de capitais, esse diferencial de juros cria enormes incentivos para a entrada de capitais especulativos no país, os quais tendem a apreciar a taxa real de câmbio. A apreciação da taxa real de câmbio, por seu turno, incrementaria as importações e reduziria as exportações, aumentando assim o déficit em conta-corrente, o qual seria financiado com poupança externa. À medida que o câmbio se aprecia e a poupança externa flui para o país, contudo, a demanda doméstica passa a ser direcionada para bens produzidos no exterior, diminuindo assim a pressão sobre a oferta de bens disponível, o que permite a manutenção de uma taxa de inflação estável com uma taxa real de juros mais baixa. Dessa forma, os autores sustentam que, com o fim da política de acumulação de reservas combinada com a plena conversibilidade do real, a economia irá alcançar um novo ponto de equilíbrio no qual os juros reais serão mais baixos e o câmbio será mais valorizado do que na situação inicial, ao mesmo tempo em que o déficit em transações correntes alcançaria níveis próximos a 4% do PIB. Um corolário desta política é que a taxa real de câmbio prevalecente na nova posição de equilíbrio será provavelmente muito baixa para dar garantias mínimas de sobrevivência à indústria nacional. O país estaria condenado, portanto, a desindustrialização.

Para impedir a ocorrência de desindustrialização, e ao mesmo tempo eliminar o problema “juro alto, câmbio valorizado”, a única alternativa disponível seria reduzir as políticas sociais e assistencialistas do Estado brasileiro, de forma a produzir o conjunto correto de incentivos microeconômicos para uma elevação da taxa de poupança doméstica. Em outras palavras, deve-se reduzir substancialmente o Estado do Bem-Estar criado no Brasil a partir da Constituição de 1988.

Nesse contexto, observa-se que a eliminação do problema “juro alto, câmbio valorizado” requer que o governo e a sociedade brasileira façam uma escolha entre desindustrialização e fim do Estado do Bem-Estar Social, uma verdadeira “escolha de Sofia”.

O governo atual, ao mesmo tempo de esquerda e desenvolvimentista, tenta (inutilmente segundo os referidos autores) escapar desse dilema por intermédio da política de acumulação de reservas conduzida pelo Banco Central. Quando o BC compra reservas (e estereliza o efeito dessas operações sobre a base monetária por intermédio das operações compromissadas) ocorre um aumento da demanda por moeda estrangeira, a qual produz uma elevação “artificial” do preço da mesma, de maneira a se produzir uma taxa real de câmbio sub-valorizada. Essa desvalorização artificial do câmbio impede o aumento da poupança externa, travando assim o processo de ajuste “natural” pelo qual a demanda doméstica se equipararia a oferta disponível, o que permitiria a redução da taxa real de juros. Dessa forma, a política de acumulação de reservas consegue impedir (ao menos parcialmente) a valorização natural da taxa real de câmbio, à custa da manutenção da taxa real de juros em patamares elevados na comparação com outros países. Essa política de acumulação de reservas, contudo, tem um elevado custo fiscal, em função do alto custo de carregamento dessas reservas, resultado do diferencial entre a taxa de juros doméstica (que remunera as operações compromissadas) e a taxa de juros internacional (que remunera as reservas). Além disso, a manutenção de uma elevada taxa real de juros – em função da política de compra de reservas internacionais – não só contribui para manter um elevado fluxo de capitais especulativos para o Brasil – o que gera o problema da tendência a apreciação do câmbio real – como ainda reduz o incentivo para o investimento privado, diminuindo assim a taxa potencial de crescimento da economia brasileira.  Sendo assim, a tentativa do governo de fugir a “escolha de Sofia” só atua no sentido de aprofundar os desequilíbrios existentes na economia brasileira, como também no sentido de reduzir o potencial de crescimento do país a longo-prazo.

O argumento dos autores parece, a primeira vista, bastante lógico. O problema é que a lógica não é suficiente para se alcançar a “verdade”. Além da lógica, é necessário que se parta de premissas corretas ou razoavelmente realistas. Além disso, as conclusões devem ser submetidas a um adequado teste empírico. Ao fim e ao cabo, a “prova do pudim é comê-lo”.

A argumentação dos autores tem quatro premissas fundamentais e uma conclusão empiricamente testável. A primeira premissa é que a oferta doméstica de bens é inelástica a longo-prazo, de forma que um aumento da demanda agregada autônoma (por exemplo, o investimento) exige um aumento da taxa real de juros para que se mantenha o equilíbrio macroeconômico, ou seja, uma taxa de inflação constante e estável. A segunda premissa é que o Brasil sofre de um problema estrutural de escassez de poupança doméstica devido aos incentivos perversos criados pela Constituição de 1988, os quais estimulam o consumo presente em detrimento da poupança e do consumo futuro. A terceira premissa é que a apreciação do câmbio real gera um aumento da taxa de poupança externa, sem que haja uma redução da taxa de poupança doméstica. Em outras palavras, a apreciação da taxa real de câmbio permite um aumento da poupança agregada da economia. Sendo assim, não há substituição de poupança doméstica por poupança externa na argumentação dos autores. A conclusão que é empiricamente testável é que a economia brasileira se encontra hoje com uma taxa de câmbio sub-valorizada. A quarta premissa é que o elevado risco cambial, causado pelo alto risco de conversibilidade (“hipótese Arida”), que por sua vez eleva os custos de hedge, contribui para que a taxa de juros doméstica seja superior as taxas internacionais. Iremos argumentar na seqüência que as quatro premissas são questionáveis, ao passo que a conclusão empiricamente testável é rejeitada na maior parte dos estudos existentes sobre a situação da taxa real de câmbio no Brasil.

A inelasticidade da oferta agregada a longo-prazo parece indicar que os autores assumem que a economia opera com pleno emprego da força de trabalho ou que, pelo menos, a economia está operando com uma taxa de desemprego próxima ao que os economistas denominam de NAIRU, ou seja, taxa de desemprego para a qual a inflação não se acelera. Com efeito, a economia brasileira tem registrado nos últimos meses (mas não durante todo o governo Lula) níveis bastante baixos de desemprego, o que tem levado vários economistas a afirmar que o Brasil vive, hoje em dia, um estado de pleno-emprego de fato, ou próximo a ele. Se o Brasil está ou não numa situação de pleno emprego é uma questão empírica que não iremos tratar aqui, mas não é esse o ponto que importa para a argumentação dos autores. A argumentação deles se baseia explicitamente na hipótese de que a oferta agregada é inelástica[1], logo o pleno emprego deve ser a “norma” e não o caso fortuito[2]. Tendo em vista que o Brasil convive há vários anos com o problema “juro alto, câmbio valorizado” não nos parece correto basear toda uma argumentação lógica em cima de um pressuposto que, se for válido, aplica-se apenas ao período bem mais recente da economia brasileira. De fato, o pleno emprego certamente não tem sido a norma no Brasil desde o final da década de 1970, e também não foi a norma no governo Lula.

A premissa de que o Brasil sofre de um problema de escassez crônica de poupança doméstica devido aos incentivos perversos produzidos pela Constituição de 1988 também parece não ser uma hipótese plausível. Do ponto de vista da teoria keynesiana, tal como os gastos agregados determinam a renda global da economia, o poupança agregada resulta das decisões empresariais de investimento. De fato, ao observarmos o comportamento da taxa de investimento e da poupança bruta no Brasil entre o primeiro trimestre de 2000 e o primeiro trimestre de 2011, constatamos que (i) as flutuações da taxa de poupança são mais intensas do que as flutuações da taxa de investimento; mas, grosso modo, as flutuações da última acompanham as flutuações da primeira, e (ii) a taxa de poupança bruta apresenta dois momentos de intensa variação, a saber, entre o primeiro trimestre de 2003 e o primeiro trimestre de 2004, período no qual ela apresenta um forte aumento de 4 p.p; e o primeiro trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, período em que a taxa de poupança sofre uma redução bastante significativa de 4,2 p.p. Essas mudanças súbitas e violentas na taxa de poupança bruta não podem ser atribuídas a mudanças no Estado do Bem-Estar Brasileiro, mas sim a evolução da taxa real de câmbio, da taxa de inflação e da política tributária do governo. Com efeito, o início do governo Lula se caracterizou pela combinação de taxa real de câmbio depreciada e taxa de inflação relativamente alta (ainda que em declínio). Câmbio depreciado e inflação elevada são fatores que deprimem o salário real, produzindo assim uma redução do consumo privado e, conseqüentemente, um aumento da poupança doméstica privada. Entre 2008 e 2009, a redução da taxa de poupança pode ser explicada pelas medidas de desoneração tributária de caráter temporário que o governo adotou sobre uma série de produtos para estimular o consumo de maneira a combater os efeitos da crise financeira mundial sobre a economia brasileira. Passada a crise e findos os programas de redução temporária de tributos, contudo, observa-se uma recuperação significativa da taxa de poupança bruta, a qual aumenta 2,2 p.p entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2011.

Além disso, parece ser pouco plausível que o problema do juro elevado no Brasil se deva a escassez de poupança doméstica. Com efeito, se essa explicação fosse correta, então a taxa real de juros de longo-prazo deveria ser muito alta para os padrões internacionais, o que não acontece. Com efeito, o contrato de DI futuro/swaps com vencimento em julho de 2014 estava pagando um juro real ex-ante de 7,4% a.a no dia 14/06/2011. Trata-se de um juro elevado, com certeza, mas não absurdo na comparação com outros países em desenvolvimento. Na verdade o problema brasileiro é com a taxa de juros de curto-prazo; mais especificamente, a idiossincrasia brasileira é que a taxa real de juros de curto-prazo (ou seja, a Selic descontada da expectativa de inflação) é muito alta para os padrões internacionais. Isso não tem nada a haver com uma alegada escassez de poupança doméstica, mas com a forma de rolagem da dívida pública brasileira herdada do período de inflação alta (Nakano, 2011).

Mais especificamente, a razão fundamental para a persistência de um juro real de curto prazo[3] tão elevado deve-se ao fato de que nosso país é, provavelmente, o único lugar do mundo onde o mercado monetário e o mercado de dívida pública estão umbilicalmente conectados por intermédio de um título conhecido como Letras Financeiras do Tesouro, a “jabuticaba” brasileira, as quais respondem por aproximadamente 35% da dívida mobiliária federal.

A existência desses títulos faz com que a mesma taxa de juros que a autoridade monetária utiliza para colocar a inflação dentro da meta definida pelo CMN seja a mesma taxa de juros que o Tesouro Nacional paga por uma fração considerável da dívida pública. Dessa forma, a taxa Selic é obrigada a cumprir duas funções dentro do sistema financeiro brasileiro: ela é a taxa de juros que regula os empréstimos no mercado interbancário, ao mesmo tempo em que ela é a taxa pela qual o Tesouro Nacional consegue rolar uma parte significativa da dívida pública. Como a mesma taxa de juros precisa desempenhar duas funções, segue-se que a função de instrumento de política monetária acaba sendo contaminada pela função de rolagem da dívida pública federal, uma vez que o Banco Central não tem como fixar um valor da Selic para as operações no mercado interbancário e outro valor da Selic para as operações de rolagem da dívida pública[4].

Nesse contexto, a fragilidade ainda remanescente das contas públicas brasileiras acaba por fazer com que a taxa de juros requerida pelo mercado para a rolagem da dívida pública seja “excessivamente alta”, o que acaba se transmitindo, por arbitragem, para as operações normais de política monetária. Alternativamente, o comportamento da política monetária igualmente pode contaminar a rolagem da dívida pública. Deve-se ressaltar que a tão propalada melhoria da situação fiscal do Estado Brasileiro, após a adoção de expressivos superávits primários, é mais mito que fato. Com efeito, não só o setor público consolidado continua gerando expressivos déficits nominais (3,3% do PIB em 2009 e 2,6% do PIB em 2010), como ainda os juros nominais da dívida (5,4% do PIB em 2009 e 5,3% 2010) superam em muito o superávit primário (3,3% do PIB em 2009 e 2,6% em 2010). Dessa forma, o Estado brasileiro ainda possui uma postura financeira “Ponzi” nos termos de Minsky (1986), ou seja, as receitas líquidas do governo não são capazes de cobrir a totalidade das despesas de juros[5], o que eleva o risco de financiamento do Tesouro, aumentando assim o poder de mercado dos compradores de títulos, os quais podem exigir taxas de juros mais altas para a colocação dos papéis do governo.

A premissa de que não existe substituição de poupança doméstica por poupança externa nos parece também bastante questionável[6]. Isso porque uma apreciação da taxa real de câmbio induz um aumento – este sim artificial – do salário real e da participação dos salários na renda. Como a propensão a consumir a partir dos salários é maior do que a propensão a consumir a partir dos lucros (Kaldor, 1956); segue-se que uma apreciação da taxa real de câmbio irá produzir uma redução da taxa de poupança doméstica, anulando total ou parcialmente, o efeito do aumento da poupança externa sobre a poupança agregada da economia.

Quanto a premissa de que o risco de conversibilidade contribui para elevar a taxa de juros doméstica, esta é igualmente questionável[7]. Se existe um assunto que tem sido fortemente questionado pela literatura internacional, e até por instituições multilaterais como o FMI, são os supostos benefícios da liberalização financeira para os países em desenvolvimento. Mercados financeiros e cambiais em países emergentes se defrontam freqüentemente com o problema de integração financeira internacional assimétrica: seus mercados são estreitos vis-à-vis o volume dos fluxos de capitais, podendo torná-los em certas circunstâncias bastante instáveis, com efeitos instabilizantes sobre a taxa de câmbio, já que o comportamento dos investidores externos é em boa medida determinado por fatores exógenos. Assim, a existência de um volume de reservas cambiais elevado e/ou a possibilidade de se implementar controle de capitais quando a circunstância convir, pode sinalizar aos investidores o compromisso do governo de manter um razoável ordenamento no mercado de divisas, contribuindo para sua maior estabilidade. As evidências empíricas sobre os benefícios do processo de liberalização financeira sobre crescimento econômico e estabilidade macroeconômica no Brasil não apresentam os resultados esperados pelos defensores da liberalização (ver, entre outros, Paula, 2011).

No que se refere à conclusão dos autores de que a taxa de câmbio encontra-se sub-valorizada, os autores baseiam a mesma num estudo empírico realizado pelo economista Afonso Celso Pastore (e associados) no qual se estima um modelo de determinação da taxa real de câmbio de equilíbrio, onde o câmbio de equilíbrio depende dos termos de troca e do passivo externo líquido. Nesse modelo, o câmbio real no Brasil encontra-se 5% acima do valor de equilíbrio, ou seja, a situação prevalecente na economia brasileira seria, nesse caso, de câmbio sub-valorizado. Essa conclusão é contrária a uma boa parte da literatura brasileira que trata do tema em consideração (ver, entre outros, Oreiro et alli, 2010). O problema com o modelo de Pastore e associados é que o mesmo ignora a dimensão doméstica do conceito de taxa real de câmbio de equilíbrio (Nurkse, 1945), a qual é definida como aquele nível da taxa real de câmbio que garante simultaneamente o equilíbrio externo (déficit em conta corrente sustentável no longo-prazo) e o equilíbrio interno (economia operando com pleno-emprego e inflação estável). Dessa forma, a dinâmica da taxa real de câmbio de equilíbrio do modelo de Pastore e Associados é praticamente idêntica a dinâmica da taxa real de câmbio efetiva, fazendo com que os episódios de desalinhamento cambial, quando ocorrem, sejam de reduzida magnitude e baixa persistência temporal (ver Pastore et al, 2008).

Com base nos argumentos acima expostos, concluímos com a observação de que a tese defendida por Pessoa e Nakane é questionável do ponto de vista de sua fundamentação teórica e empírica. Acreditamos que as causas do problema “juros elevados, câmbio apreciado” devem ser buscadas em outras fontes que não as citadas pelos referidos autores, e que, ademais, a economia brasileira não parece estar fadada a uma “escolha de Sofia” entre a Desindustrialização e o fim do Estado do Bem-Estar Social.

Referências

BELUZZO, L.G; CARNEIRO, R. (2004). “O mito da conversibilidade”. Revista de Economia Política, vol. 24, n.2.

BRESSER-PEREIRA, L.C. (2010). Globalização e Competição. Campus: Rio de Janeiro.

FERRARI FILHO, F; JAYME JR. F.G; LIMA, G.T; OREIRO, J.L; PAULA, L.F. (2005). “Uma avaliação crítica da proposta de conversibilidade plena do Real”. Revista de Economia Política, vol. 25, n.1.

KALDOR, N. (1956). “Alternative theories of distribution”. Review of Economic Studies, XXIII, pp. 83-100.

KEYNES, J.M. (1936). The General Theory of Employment, Interest and Money. Macmillan Press: Londres.

LIBANIO. G. (2009). “Aggregate demand and the endogeneity of natural rate of growth: evidence from Latin American economies”. Cambridge Journal of Economics, vol. 33, Janeiro.

MINSKY, H.P. (1986). Stabilizing an Unstable Economy. Yale University Press: New Haven.

NAKANO, Y. (2011). “Por que a taxa de juros é tão alta?”. Valor Econômico, 14 de junho.

NURKSE, R. (1945). “Conditions of international monetary equilibrium”. Essays in International Finance 4 (Spring). Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press.

OREIRO, J.L; PAULA, L.F; JONAS, G. (2004). “Por uma moeda parcialmente conversível: uma crítica a Arida e Bacha”. Revista de Economia Política, vol. 24, n.2.

OREIRO, J.L; GUIMARÃES SOUZA, G.J; NAKABASHI, L. (2010). “A economia brasileira puxada pela demanda agregada”. Revista de Economia Política, vol. 30, n.4.

OREIRO, J.L; PAULA, L.F. (2010). ‘Por que a taxa de juros é tão alta?”. Valor Econômico, 05 de outubro.

OREIRO, J.L; PUNZO, L; ARAUJO, E; SQUEFF, G. (2010). “Restrições macroeconômicas ao crescimento da economia brasileira” In: BRESSER-PEREIRA, L.C (org.). A Crise Global e o Brasil. FGV Editora: Rio de Janeiro.

PASTORE, A.C; PINOTTI, M.C; ALMEIDA, L.P (2008). “Câmbio e crescimento: o que podemos aprender?” In: BARROS, O; GIAMBIAGI, F (Orgs.). Brasil Globalizado. Campus: Rio de Janeiro.

PAULA, L.F. (2011). Financial Liberalization and Economic Performance: Brazil at the crossroads. London: Routledge.

TOBIN, J.  (1975). “Keynesian models of recession and depression”.  The American Economic Review, vol. 65, n.2.


* Professor do Departamento de Economia da UnB, Pesquisador do CNPq e Diretor da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). E-mail: joreiro@unb.br.

** Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, Pesquisador do CNPq e Presidente da AKB. E-mail: luizfpaula@terra.com.br.

[1] As evidências empíricas disponíveis para a economia brasileira mostram que o regime de crescimento prevalecente no Brasil é demand-led, ou seja, puxado pela demanda agregada. Dessa forma, a hipótese de inelasticidade da oferta-agregada a longo-prazo parece não ter fundamentação empírica. A esse respeito ver Libânio (2009) e Oreiro, Guimarães e Nakabashi (2010).

[2] O equilíbrio com pleno emprego, embora seja uma possibilidade lógica, é apenas uma entre n posições de equilíbrio numa economia capitalista (Keynes, 1936). Além disso, as economias de mercado não possuem mecanismos endógenos capazes de garantir a convergência à posição de equilíbrio com pleno emprego. Isso porque, a flexibilidade de preços e salários nominais, suposta pela Teoria Clássica e Neo-Clássica como sendo o mecanismo pelo qual as economias de mercado tendem “naturalmente” a operar com pleno emprego no longo-prazo, gera efeitos fortemente desestabilizadores sobre o nível de produção e emprego, de tal forma que o desemprego pode se ampliar, ao invés de se reduzir, ao longo do tempo. A esse respeito ver Tobin (1975).

[3] Oreiro e Paula (2010).

[4] O leitor deve observar que a argumentação aqui apresentada não tem nenhuma relação direta com a discussão a cerca da influência das LFTs sobre o efeito riqueza da política monetária.

[5] Isto não quer dizer que o Estado brasileiro esteja insolvente, pois ele tem capacidade de se financiar no mercado. Ademais, a solvência do Tesouro depende de uma série de fatores, como o comportamento da taxa de crescimento do PIB, superávit primário, taxa Selic e a composição da dívida pública.

[6] A hipótese de que a poupança doméstica e a poupança externa são substitutas é detalhadamente desenvolvida em Bresser-Pereira (2009).

[7] A assim chamada hipótese Arida-Bacha-Resende segundo a qual o problema do juro alto no Brasil está relacionado com a conversibilidade incompleta ou parcial do Real foi objeto de intensa crítica e debate na Revista de Economia Política. Ver Beluzzo e Carneiro (2004), Oreiro, Paula e Jonas (2004) e Ferrari Filho et al (2005).

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The Future of Macroeconomic Policy: Nine Tentative Conclusions

Publicado por associacaokb em 05/04/2011

The Future of Macroeconomic Policy: Nine Tentative Conclusions

Olivier Blanchard

Economic Counselor and Director of the Research Department of the International Monetary Fund

The global economic crisis taught us to question our most cherished beliefs about the way we conduct macroeconomic policy. Earlier I had put forward some ideas to help guide conversations as we reexamine these beliefs. I was heartened by the wide online debate and the excellent discussions at a conference on post-crisis macroeconomic policy here in Washington last week. At the end of the conference, I organized my concluding thoughts around nine points. Let me go through them and see whether you agree or not.

1. We’ve entered a brave new world in the wake of the crisis; a very different world in terms of policy making and we just have to accept it.

2. In the age-old discussion of the relative roles of markets and the state, the pendulum has swung–at least a bit–toward the state.

3. The crisis made it clear that there are many distortions relevant for macroeconomics, many more than we thought earlier. We had ignored them, thinking they were the province of the micro-economist. As we integrate finance into macroeconomics, we’re discovering distortions within finance are macro-relevant. Agency theory–about incentives and behavior of entities or “agents”–is needed to explain how financial institutions work or do not work and how decisions are taken. Regulation and agency theory applied to regulators is important. Behavioral economics and its cousin, behavioral finance, are central as well.

4. Macroeconomic policy has many targets and many instruments (that is, the tools we use or variables to implement policy). There are many examples of this that were discussed at the conference, but here are two.

  • Monetary policy has to go beyond inflation stability, adding output and financial stability to the list of targets, and adding macro-prudential measures to the list of instruments.
  • Fiscal policy is more than just “G minus T” and an associated “multiplier” (the proportion or factor by which changes in government spending or taxes affect other parts of the economy). There are potentially dozens of instruments, each with their own dynamic effects that depend on the state of the economy and other policies. Bob Solow made the point that reducing discussions about fiscal policy to what is the right multiplier does not do service to the issue.

5. We may have many policy instruments, but we are not sure how to use them. In many cases, we are uncertain about what they are, how they should be used, and whether or not they will work. Again, many examples came up during the conference.

  • We don’t quite know what liquidity is, so a liquidity ratio is one more step into the unknown.
  • It was clear that some people believe capital controls work and some don’t.
  • Paul Romer made the point that, if you adopt a set of financial regulations and keep them unchanged, the markets will find a way around, and ten years later, you’ll have a financial crisis.
  • Mike Spence talked about the relative roles of self-regulation and regulation. Both are needed, but how we combine them is extremely unclear.

6. While these instruments are potentially useful, their use raises a number of political economy issues.

  • Some instruments are politically hard to use. Take cross border flows. Putting in place a multilateral regulatory structure will be very difficult. Even at the domestic level, some macro-prudential tools work by targeting specific sectors, sets of individuals, or firms, and may lead to strong political backlash by those groups.
  • Instruments can be misused. The more there are, the more the scope for misuse. It was clear from the discussion that a number of people think that, while there may be an economic case for capital controls, governments could use them instead of choosing the right macroeconomic policies. Dani Rodrik argued for using industrial policy to increase the production of tradables–goods or services that can be traded among countries–without getting a current account surplus. But in practice we know the limits of industrial policy, and they haven’t gone away.

7. Where do we go from here? In terms of research, the future is exciting. There many topics on which we should work–namely macro issues with, as Joe Stiglitz said, the right micro foundations.

8. Things are harder on the policy front. Given we don’t quite know how to use the new tools and they can be misused, how should policymakers proceed? While we have a good sense of where we want to get to, a step-by-step approach is the way to do it.

  • Take inflation targeting. We can’t, from one day to the next, just give it up and have, say, a system with five targets and seven instruments. We don’t know how to do it and it would be unwise. We can, however, introduce gradually some macro-prudential tools, testing the water to see how they work.
  • Increasing the role of Special Drawing Rights in the international monetary system is another example. If we go in that direction, we can move slowly from, say, creating a market in private SDR bonds to exploring the possibility for the IMF to issue SDR bonds to the private sector and then, if feasible, issuing them to mobilize funds in times of systemic crisis.

Pragmatism is of the essence. This was a general theme that came up, for example, in Andrew Sheng’s discussion of the adaptive Chinese growth model. We have to try things carefully and see how they work.

9. We have to keep our hopes in check. There are going to be new crises that we have not anticipated. And, despite our best efforts, we could have old-type crises again. That was a theme in Adair Turner’s discussion of credit cycles. Can we, using agency theory and the right regulations, get rid of credit cycles? Or is it basic human nature that, no matter what we do, they will come back in some form?

I was asked whether the conference was “Washington Consensus 2“. It was not intended to be and it was not. The conference was the beginning of a conversation, the beginning of an exploration, and we look forward to your contributions.

 

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IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira: CHAMADA DE TRABALHOS

Publicado por associacaokb em 11/03/2011

O IV Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira Keynesiana (AKB) será realizado  no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), nos dias 03 a 05 de agosto de 2011. O Encontro terá como tema  “Sistema Financeiro e Economia Internacional Pós-Crise”. Será composto por duas sessões especiais, um mini-curso e sessões ordinárias. As sessões especiais terão como tema  “Estratégias de Crescimento Pós-Crise para Economia Mundial e Brasil” e “Difusão do Keynesianismo no Brasil: homenagem a Fernando Cardim de Carvalho. O  tema do mini-curso é “Sistema Financeiro Pós-Crise” e será ministrado por Jan Kregel e Fernando Cardim de Carvalho. As áreas sugeridas para a submissão de trabalhos nas sessões ordinárias são as seguintes:

(i)            Economia Internacional e Finanças

(ii)            Sistema Financeiro, Financiamento da Economia e a Contribuição de Fernando Cardim de Carvalho

(ii) Macroeconomia e Política Econômica

(iii) Crescimento e Distribuição de Renda

(iv) Dinâmica Industrial e Comportamento das Mega-Corporações

 

Detalhes para submissão:

i. O prazo limite para submissão dos artigos é 13/05/2011, conforme data de postagem;

ii. Os artigos poderão ser escritos em português, espanhol  ou inglês;

iii. Os artigos devem ser escritos em formato Microsoft Office Word 97 (ou acima),  ou PDF, ter um máximo de 25 páginas (com um resumo em português e inglês),  espaçamento simples entre as linhas, fonte Times New Roman e tamanho das letras 12pt. O nome do autor(a) e sua afiliação institucional devem ser excluídos do paper impresso.

iv. Cada autor poderá submeter no máximo 2 (dois) artigos (como autor ou co-autor);

v. Três cópias impressas dos artigos devem ser enviadas para o seguinte endereço: Programa de Pós-Graduação em Economia/UFRGS, Av.João Pessoa 52/sala 33b, Centro, Porto Alegre/RS, 90040-000, a/c Prof Fernando Ferrari Filho;

vi. O arquivo do artigo (com o nome do autor e sua afiliação) deve ser enviado para o email: associacao.keynesiana@gmail.com;

vii. A taxa de submissão por artigo está detalhada abaixo, sendo que o  valor da referida taxa deve ser depositado na conta corrente da AKB: Banco do Brasil, Ag.1899-6 e c/corrente 36784-2

-  Submissão de associado que está em dia até 2010: R$ 110,00 (R$ 80,00 anuidade e R$ 30,00 por cada submissão);

-  Submissão de associado que está em dia até 2009: R$ 160,00 (R$ 130,00 por duas anuidades com desconto – 2010 e 2011 – e R$ 30,00 por cada submissão)

-  Submissão de associado que está em dia até 2008: R$ 200,00 (R$ 170,00 por três anuidades com desconto – 2009, 2010 e 2011– e R$ 30,00 por cada submissão).

-   Anuidade (para quem não for submeter artigo): R$ 80,00 (um ano), R$ 130,00 (para dois anos, sendo um em atraso) e R$  170,00 (para três anos, sendo dois em atraso).

- Submissão de não-associado: R$ 120,00 (por cada submissão).

viii. Conjuntamente com as 3 (três) cópias do artigo, o autor deverá enviar a cópia do comprovante de depósito da taxa de submissão para o endereço que consta no item (v);

ix. Os custos de transporte, de acomodações e demais despesas devem ser cobertos pelos participantes.

Comissão Científica e Maiores Informações: A Comissão Científica é composta por:  Fernando Ferrari Filho (UFRGS), Marco Flavio Resende (UFMG) e Paulo Gala (FGV-SP)). Detalhes adicionais sobre o Congresso serão divulgados futuramente no site da AKB, pela Comissão Organizadora:Luiz Fernando de Paula(UERJ), Fernando Ferrari (UFRGS) e André Modenesi(UFRJ).

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Por que a China é a China – Luiz Fernando de Paula

Publicado por associacaokb em 22/11/2010

Comentário do Prof Antonio Delfim Netto sobre o artigo “Por que a China é a China”, publicado no jornal Valor:

Prezado Prof. Luiz Fernando,

 

Permita-me dizer-lhe que gostei muito de seu “suelto” no Valor, de 12/11.

Limpo, claro e com a correta relação de causalidade. Seguramente você não é um keynesiano de “pé quebrado” como tantos que maltratam o velho Keynes.

 

Um abraço cordial, do

 

Antonio Delfim Netto

 

P.S. (1) – Não esqueça do grande Schumpeter; que é preciso que existam fatores de produção disponíveis para atender ao “espírito animal” e que a variável crítica é a relação salário/câmbio

 

P.S.(2) – Fico na maior tristeza quando economistas das melhores famílias usam a relação de causalidade entre o câmbio real valorizado e taxa de investimento/PIB para “provar” como é bom tê-la.

Por que a China é a China

Luiz Fernando de Paula

Valor Econômico, 12/11/2010

 

Alguns economistas brasileiros afirmam em alto e bom tom que a China é a China porque, ao contrário do Brasil, tem uma poupança elevada, o que permite sustentar suas altas taxas de investimento, desde 2003 superiores a 40% do PIB. Por detrás das elevadas taxas de poupança estariam a alta propensão para poupar do trabalhador chinês e grandes superávits fiscais, ambos contribuindo para o aumento da poupança agregada. Neste artigo sustentamos que tal visão – imbuída de pressupostos teóricos reducionistas – é simplista para entender o milagre chinês.

A experiência mundial mostra que um dos fatores fundamentais para dar sustentação ao desenvolvimento é o financiamento ao investimento. Essa questão foi tratada por Keynes em seu debate com os economistas Ohlin e Robertson sobre a causalidade entre poupança e investimento: “Os bancos detêm uma posição chave na transição de uma escala inferior de atividade para uma mais elevada. Se eles recusam uma acomodação, um crescente congestionamento do mercado de empréstimos de curto prazo ou do mercado de novas emissões inibirá a melhora (nas condições de financiamento), não importa quão frugal o público se proponha a ser a partir de suas rendas futuras. (….) O mercado de investimentos pode tornar-se congestionado por causa da falta de liquidez, mas nunca se congestionará por falta de poupança”.

Assim, para Keynes, o investimento não depende de poupança prévia, e sim de financiamento. Este, por sua vez, não se confunde com poupança, podendo a liquidez necessária para realização do investimento ser criada endogenamente pelo sistema financeiro: uma economia não poderá se expandir se o sistema financeiro não for capaz de atender elasticamente a demanda crescente por financiamento dos agentes. Contudo, se há perspectivas promissoras quanto ao futuro e a demanda por financiamento das empresas é atendida, então o processo multiplicador de renda gerado pelos gastos de investimentos resulta ex-post em um volume de poupança correspondente.

O financiamento ao investimento é fundamental para dar sustentação ao desenvolvimento

Quando Keynes diz “não importa o quão frugal o público se proponha a ser a partir de suas rendas futuras”, ele sustenta que mesmo que os agentes aumentem sua propensão a poupar isso não garante um investimento (e poupança agregada) maior, pois se o “espírito animal” dos empresários não estiver desperto e houver uma oferta de financiamento insuficiente, o investimento pode não se realizar.

Em uma economia aberta a taxa de câmbio é uma variável fundamental na determinação do mix entre poupança doméstica e poupança externa, uma vez que a manutenção de uma taxa de câmbio competitiva ao mesmo tempo que estimula os investimentos em setores comercializáveis inibe o déficit em transações correntes; alternativamente um câmbio real apreciado desestimula os investimentos em setores comercializáveis, gera déficits em transações correntes e estimula a captação de recursos externos.

A apreciação do câmbio real resulta em um aumento na importação de bens de capitais para viabilizar um dado volume de investimento, ao mesmo tempo em que desestimula a produção doméstica desses bens. Assim, quando a taxa de câmbio se aprecia, emerge simultaneamente uma deterioração em conta corrente e uma queda na poupança doméstica, estando ambos os processos relacionados à contração das exportações líquidas.

Voltemos, agora, à China. Em primeiro lugar, a sustentação das elevadas taxas de investimento tem sido feita por meio de um setor bancário público, dirigido para financiar a custos baixos (e subsidiado) a produção e investimento produtivo. O setor bancário estatal chinês tem sido capaz de atender elasticamente as demandas crescentes de financiamento das empresas do país. Essa é a “solução chinesa” para resolver o problema do congestionamento por falta de liquidez destacado por Keynes. Em segundo lugar, com os salários médios baixos, em função de uma oferta “ilimitada” de mão de obra, a relação lucro/salário é elevada na China, combinada com um câmbio depreciado, torna suas exportações extremamente competitivas. Em terceiro, o governo chinês mantém um forte controle sobre a taxa de câmbio – a “cereja do bolo” na feliz expressão de José R. Campos (Valor, 24/06/2010), o que é possível em função da existência de controles extensivos sobre os fluxos de capitais, que serve para atrair investimentos diretos estrangeiros voltados para exportação e estimular a expansão da capacidade produtiva das empresas domésticas voltadas para o exterior. Assim, a China tem elevadíssimos superávits em conta corrente (média de 8,6% do PIB em 2005-09), acumula reservas cambiais gigantescas e é grande exportadora de capitais para o resto do mundo. A acumulação de reservas é feita sem maiores problemas em função do baixo diferencial entre taxas de juros doméstica e taxas de juros externas, o que combinado com elevadas taxas de crescimento econômico, permitiu manter a relação dívida pública bruta/PIB entre 16,5% a 20,2% nos últimos anos. Ao mesmo tempo, o déficit público do governo central (sim, caro leitor, a China tem déficits públicos!) tem se mantido baixo e declinante (menos de 1% do PIB em 2006-08), o que abriu espaço para o uso de políticas fiscais contracíclicas em 2009.

Em conclusão, a China é a China porque adota um gerenciamento de sua política macroeconômica que permite à economia crescer de forma sustentada, superando os constrangimentos de financiamento ao investimento, e sem esbarrar na restrição externa ao crescimento que assola vários países emergentes.

Luiz Fernando de Paula é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Email: luizfpaula@terra.com.br

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Câmbio, crescimento e estrutura produtiva – José Luis Oreiro e Fabrício Missio

Publicado por associacaokb em 30/08/2010

As perdas que a classe trabalhadora terá, no curto prazo, com a desvalorização cambial serão compensadas, no longo prazo, por um crescimento econômico mais acelerado.

O item da agenda macroeconômica brasileira que tem despertado maior debate recente é o papel da taxa de câmbio. A questão é se o governo deve ou não incorporar a taxa de câmbio na sua “função objetivo”, de forma a mantê-la competitiva e estável. Argumenta-se que a resposta é “sim”, uma vez que a administração da taxa de câmbio é de fundamental importância para o crescimento de longo prazo, pois influencia a heterogeneidade produtiva da economia e permite superar o problema da heterogeneidade estrutural, essencial ao crescimento sustentável no longo prazo.
O problema da heterogeneidade estrutural, como apontado pelo pensamento estruturalista latino-americano, está ligado à existência de um núcleo dinâmico restrito a um setor primário exportador relativamente moderno associado a alguns segmentos industriais e de serviços em meio a uma estrutura ocupacional degradada e com elevado desemprego, definindo assim uma estrutura produtiva que é, ao mesmo tempo, especializada e heterogênea. Em outras palavras, a heterogeneidade estrutural refere-se aos desníveis tecnológicos e de produtividade dentro da estrutura produtiva da economia, os quais resultam do baixo ritmo de acumulação de capital, da adoção de tecnologias inadequadas e das disparidades da capacitação da força de trabalho. A questão relevante a ser ressaltada é que boa parte desses elementos é influenciada pela taxa de câmbio, sobretudo, no que tange à tecnologia e a inovação.
A tecnologia é o elemento primordial no crescimento de longo prazo à medida que as melhorias das técnicas de produção proporcionam aumentos de produtividade, os quais permitem reduzir a heterogeneidade estrutural. Ademais, a mudança estrutural pode ser promovida pela própria acumulação de capital, a qual conduz a uma redução no hiato tecnológico, uma vez que as novas tecnologias se encontram, via de regra, incorporadas (“embodied“) em novas máquinas e equipamentos. A acumulação de capital, por sua vez, depende criticamente da política macroeconômica, em especial, da adoção de uma taxa de cambial que priorize a manutenção da competitividade da produção industrial nacional.
Para os economistas ortodoxos um câmbio real valorizado poderia acelerar o ritmo de progresso técnico na economia uma vez que permitiria o acesso aos bens de capital e à tecnologia a um menor custo no exterior, o que levaria à modernização do parque produtivo. Esse efeito positivo do câmbio sobre o ritmo de progresso técnico, contudo, está limitado aos setores “tradables” que operam com elevados níveis de “mark up“. No caso dos países em desenvolvimento, esses setores estão, invariavelmente, associados à produção de commodities.
Dado que a valorização do câmbio real está associada a uma redistribuição (temporária) de renda dos lucros em prol dos salários, segue-se que a apreciação cambial implica numa redução da capacidade de autofinanciamento das empresas, reduzindo assim a disponibilidade de fundos próprios para aquisição de novas tecnologias, o que reduz também o acesso das firmas ao financiamento de terceiros devido às assimetrias de informação existentes nos mercados financeiros, que geram racionamento de crédito.
Dessa forma, mesmo diante da possibilidade de aquisição de tecnologia mais baratas no exterior, é provável que os diversos setores produtivos mantenham-se incapacitados de investir na modernização da sua capacidade produtiva haja vista a escassez de autofinanciamento e o racionamento de crédito nos mercados financeiros.
A manutenção de um câmbio real competitivo, por sua vez, representa a possibilidade de se estabelecer incentivos ao avanço do progresso tecnológico. Mais especificamente, a desvalorização cambial altera a disponibilidade de fundos que as empresas dispõem para realizar seus projetos de investimentos relacionados à pesquisa e inovação. Assim, é de se esperar que as empresas empreendam atividades inovativas que resultem em uma maior heterogeneidade produtiva (maior número de tipos diferentes de bens produzidos) e, também, em uma homogeneização estrutural, visto que agora o progresso técnico é incorporado também por setores que não estão vinculados ao mercado externo.
Deve-se considerar também que variações na política cambial afetam negativamente os salários. Quando ocorre um aumento dos salários reais, os setores que já competem com desvantagens no mercado internacional, dado o baixo conteúdo tecnológico incorporado em seus produtos, perdem mercados ou deixam de existir, forçando a economia a se especializar em setores onde existem vantagens comparativas naturais. Para países em desenvolvimento, isso significa a especialização na produção de bens intensivos em recursos naturais. Acontece que a elasticidade-renda da demanda por exportações desses produtos é baixa, o que significa que a especialização nesses setores diminui a taxa de crescimento que é compatível com a restrição de balanço de pagamentos. Por seu turno, uma redução nos salários reais, por intermédio da desvalorização cambial, leva a uma maior diversificação produtiva, o que no longo prazo representa uma maior capacidade de exportar e uma menor dependência das importações.
Em síntese, a manutenção de uma taxa de câmbio competitiva é essencial para a retomada do crescimento sustentável da economia brasileira, sobretudo, pelos seus efeitos diretos e indiretos sobre a estrutura produtiva. As perdas que a classe trabalhadora terá, no curto prazo, com a desvalorização cambial serão compensadas no longo prazo por um crescimento econômico mais acelerado, o qual viabiliza um crescimento mais rápido da produtividade e, portanto, dos salários reais. Aqui nos deparamos com o grande problema da economia política da desvalorização cambial: convencer os trabalhadores e a sociedade como um todo de que os ganhos de longo prazo de uma taxa de câmbio mais desvalorizada superam, em muito, as perdas de curto prazo da desvalorização cambial.
José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UnB e diretor da Associação Keynesiana Brasileira. E-mail: joreiro@unb.br.
Fabrício Missio é doutorando pelo Cedeplar/UFMG e membro da Associação Keynesiana Brasileira. E-mail: fabriciomissio@gmail.com.

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Keynes: trader, especulador e investidor – Paulo Gala

Publicado por associacaokb em 06/06/2010

One dog barks at something, and a hundred bark at the bark, Chinese proverb

When a hundred men stand together, each of them loses his mind and gets another one, F. Nietzsche

They called me mad, and I called them mad and damn them, they outvoted me, Nathaniel Lee

If everyone is thinking alike then, somebody isn’t thinking, General George Patton

Além de ter sido o economista mais importante do século XX, John Maynard Keynes fez uma pequena fortuna no mercado acionário, numa de suas facetas pouco conhecidas por analistas e estudiosos do tema. Em 1946, 5 meses depois de sua morte, os números de seu patrimônio vieram a público: 480,000 pounds da época ou o equivalente a 30 milhões de dólares em valores de hoje. Ainda que grande parte de sua vida tenha sido dedicada as artes, ao conhecimento e ao serviço publico, sobrou tempo para fazer fortuna no mercado financeiro. Keynes não recebeu herança pois morreu antes de seus pais.

Maynard, como era conhecido pelos amigos, começa sua carreira de especulador fazendo trading de moedas nos anos 20. Seguindo as idéias do seu primeiro best-seller, “The Economic Consequences of Peace”, começa a apostar nos movimentos das moedas européias logo apos o termino da primeira guerra mundial. Ganha muito dinheiro inicialmente mantendo posições compradas em dólares e vendidas nas moedas dos países continentais europeus. Apos o sucesso inicial sofre um revés no mercado de moedas perdendo praticamente tudo no final de 1920. Mas não desiste. Toma empréstimos, se alavanca, liquida sua posição de ações para voltar a investir em moedas e finalmente é recompensando. Em 1922 tinha já recuperado tudo que foi perdido e seu patrimônio estava na casa de 21.000 pounds (1.5 milhões de dólares em valor atual).

Com a volta do padrão ouro e o câmbio fixo na Inglaterra em 1925, o trade de moedas deixa de ser relevante e Keynes muda seu foco para commodities e ações em Wall Street e na City. Ganha muito dinheiro até 1928 quando o mercado começa a virar. Suas posições em borracha, milho, algodão sofrem perdas enormes, obrigando-o a liquidar grande parte do seu porto folio de ações em Wall Street. Quando finalmente vem o choque de 1929, as poucas ações que ainda lhe restavam viram pó. Seu patrimônio a época sofre um revés de 80%, caindo de 44.000 pounds em 1928 para 8.000 pounds 2 anos depois. Pela segunda vez na vida Keynes estava à beira do precipício financeiro.

A partir dos anos 1930, entretanto, Keynes abandona seu método de “momentum investing” ou “anticipatory trading” onde se tenta bater o mercado antecipando tendências. Passa a se desiludir com esse approach top-down ou de “credit-cycle investing”, como chamava. Para ganhar dinheiro com tal estratégia o investidor deve ser capaz de entrar e sair na hora certa do movimento de manada. Mas o que ocorre na maioria dos casos é uma entrada tarde demais ou ainda uma saída atrasada. Além dos custos incorridos na operação, o timing correto de entrada e saída no curto prazo é praticamente impossível de se prever segundo Keynes. Ou como diz Justyn Walsh na sua breve biografia de Keynes: “momentum investors operate in an Alice in the wonderland world of second-guesses- a crazy, reflexive hall of mirrors where individuals attempt to fathom what average opinion expects the average opinion to be”.

Keynes transforma-se então num investidor fundamentalista, com foco em ações particulares (ao invés de índices), baseando-se em suas próprias análises sobre o futuro de companhias especificas e não em retornos passados ou julgamentos de mercado. Com essa mudança de estratégia consegue rapidamente recuperar seu patrimônio a partir de barganhas encontrados no pós-crash. Saindo dos 8.000 pounds que haviam lhe restado em 1929 (sem contar a triste memória da venda de seu Matisse preferido na época da crise), multiplica seu patrimônio para a impressionante quantia de 500.000 pounds quando a Teoria Geral é publicada em 1936. A mudança de postura segundo o próprio Keynes significava agora não mais especular “the activity of forecasting the psycology of the market” para se dedicar a investir de verdade, que significa “forecasting the prospective yield of assets over their whole life”. Em seus termos, o verdadeiro investidor está preocupado com “ultimate values” e “não exchange values” das companhias.

Em sua nova postura de investidor “contrarian” e de “stock-picking”, algumas regras se destacam. Sua postura básica torna-se “buy and hold”. Concentra-se em buscar poucas ações cujo valor de mercado oferece grande distorção em relação ao valor intrínseco estimado. Quanto maior esse gap ou “buffer”, maior a margem de segurança para se investir na companhia. O truque aqui é esperar (muito tempo as vezes) o mercado voltar a ser capaz de precificar adequadamente um ativo que por algum motivo está mal precificado. Para Keynes, o mercado oscila entre momentos de lucidez e fases de pânico, depressão ou euforia e cabe ao investidor sábio tirar proveito disso mantendo uma perspectiva de longo prazo. Um portfólio concentrado oferece também grande vantagem segundo Keynes. A diluição é a medida de nossa ignorância. Então quanto menos sabemos sobre os ativos, mais diversificamos. A melhor estratégia de investimento é conhecer bem poucos ativos e carregar grandes quantidades em carteira. Ficar “quieto” e evitar tradings excessivos, com altos custos de transação. O que não significa, obviamente, esquecer do mercado e não mudar conforme as condições que afetam os ativos mudam.

Keynes ficou rico investindo na bolsa de valores, sem dúvida. Apesar de ter enriquecido, o dinheiro nunca foi sua prioridade, mas tão somente um meio para uma vida bem vivida. Como bem destaca Walsh, “Moneymaking, Keynes thought, should be accorded its proper place- as an amusement, an intellectual game, a means to secure the good things in life”.

Para ler mais sobre o assunto:

1)Keynes and the Market, Justyn Walsh, 2008, ed. John Wiley and Sons, New Jersey

2)Keynes, the return of the master, 2009, Robert Skidelsky, ed. Public affairs, New York

Paulo Gala. EESP-FGV.

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Obituário de Wynne Alexander Hugh Godley – Alexandre Sarquis

Publicado por associacaokb em 02/06/2010

O Professor Emérito de Economia Aplicada de Universidade de Cambridge, Wynne Alexander Hugh Godley, nasceu em 1926 em Londres. Graduou-se em Oxford em 1947, tendo estudado música e economia. Imediatamente dedicou-se à música, mais particularmente o oboé, que estudou por três anos no Conservatoire de Musique, em Paris. Em seu regresso à Inglaterra, em 1951, compôs a BBC Welsh Orchestra como primeiro oboista.
Suas dificuldades em atuar para grandes públicos, entretanto, o levaram a buscar a Metal Box Company para uma posição de economista em 1954, carreira que o consagraria. Em 1956 o professor Godley foi admitido na Seção Econômica do Tesouro Inglês, onde se tornou vice-diretor em 1967, trabalhando principalmente com dados macroeconômicos e previsão. Na mesma época Nicholas Kaldor, que atuava no departamento de trabalho, o convenceu o a integrar o staff da Universidade de Cambridge como diretor do Departamento de Economia Aplicada. Os novos colegas se surpreenderam com sua apurada técnica, a despeito de sua falta de estudo formal, e com o som do Oboé, que resoava nos corredores quando o professor ensaiava para suas apresentações.
Logo, Godley mostrou a que veio, contribuindo decisivamente para a hipótese dos déficits gêmeos da economia norte-americana, constituindo o o CEPG – Cambridge Economic Policy Group que publicava a Cambridge Economic Policy Review, e se dedicando ao avanço das técnicas de previsão de médio prazo.
Na área de teoria econômica, no entanto, se deram suas principais contribuições para a Academia, tendo o livro “Monetary Economics” de 2007, coautorado com Marc Lavoie, como principal legado. O livro é firmemente calcado na consistência interna de um sistema nacional de partidas dobradas: toda origem de recursos deve ter um destino, em um verdadeiro circuito monetário, que evidencia não apenas os fluxos de recursos, mas onde estes se acumulam, ou seja, seus estoques. A técnica adiciona à equação básica do produto Y=C+I+G+NX, a orientação financeira para conservação da riqueza entre períodos, base de diversas crises contemporâneas.
Mas a teoria econômica não foi a única contribuição de Wynne para a Universidade de Cambridge. Inveterado jogador, o professor introduziu a roleta, o poker e o gamão, nas festas e reuniões, sendo por isto lembrado por muitos.
O Professor Godley faleceu no dia 13 de maio de 2010, aos 83 anos de idade, deixando esposa e três filhas.

Com informações da Times Online UK Edition (http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/obituaries/article7128100.ece)

Alexandre Sarquis é aluno de pós-graduação da Universidade de Brasília – UnB

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Alemanha é a fonte de desequilíbrio na Europa – Entrevista da Folha, 24/5/2010

Publicado por associacaokb em 24/05/2010

DE CLAUDIA ANTUNES, DO RIO DE JANEIRO

A Alemanha -e não Grécia, Espanha ou Portugal- é a principal fonte de
desequilíbrio estrutural na região do euro, diz o economista alemão Heiner
Flassbeck.
Flassbeck foi vice-ministro das Finanças de seu país em 1998 e 1999, quando
foi implantado o euro. Hoje, dirige a Divisão de Globalização e Estratégias
de Desenvolvimento da Unctad (conferência da ONU para comércio e
desenvolvimento), na Suíça.
Ele explica: ao praticar arrocho salarial nos últimos dez anos, com aumento
real de apenas 4% no período, muito abaixo do crescimento da produtividade,
a Alemanha passou a comprar menos e aumentou ainda mais a competitividade de
seus produtos em relação aos dos demais países da zona do euro.
Como a moeda única impede que os vizinhos mexam no câmbio para estimular
suas exportações, eles passaram a ter deficit comerciais e em conta-corrente
(saldo de todo o dinheiro que entra e sai do país), enquanto a Alemanha
acumula superavit.
Para Flassbeck, sem um movimento coordenado para sair desse impasse, “não
haverá solução a longo prazo” para a união monetária.
Ele estará em São Paulo nesta semana. Falará na Unicamp e participará de
debate sobre “novo desenvolvimentismo”, organizado pelo economista Luiz
Carlos Bresser-Pereira, colunista da Folha. Leia, abaixo, trechos da
entrevista, concedida por telefone, de Genebra.

FOLHA – Por que o pacote de resgate e os cortes de gastos anunciados na
Europa não acalmaram os mercados? Heiner Flassbeck – O que fizeram foi
atacar o problema de curto prazo, mas o de médio e longo prazo na zona do
euro é a diferença de competitividade entre a Alemanha e os países do sul da
Europa. Há tensões entre Alemanha e França porque falta vontade ao governo
alemão para resolver a questão. Sem isso, não haverá solução de longo prazo
para a área do euro.

O sr. diz que parte dessa diferença de competitividade vem da compressão dos
salários na Alemanha, em comparação com os ganhos no sul. A Espanha cortou
salários e congelou aposentadorias. É uma forma de resolver isso?
Não é a maneira correta. Se o problema não for atacado de modo coordenado,
todo mundo cortará salários e isso levará à deflação, maior risco para a
zona do euro, resultado mais provável neste momento e a principal razão de a
inquietação continuar.
Enquanto o governo alemão não reconhecer que há um problema, e enquanto não
estiver disposto a conversar com seus empresários e sindicatos sobre como
resolvê-lo, não haverá uma saída clara da crise.

O sr. defende que a Alemanha reduza a própria competitividade por meio de
aumentos de salários?
Sim. A Alemanha cortou os salários dramaticamente e violou a meta comum de
inflação [de 2% ao ano], praticando inflação perto de zero.
Os dois estão relacionados e o custo unitário do trabalho [salário nominal
menos produtividade, por unidade gerada do PIB] está abaixo da meta de
inflação.
Isso leva a uma situação insustentável. O superavit [comercial] alemão está
tão grande quanto o chinês.

A OCDE (31 países industrializados) divulgou relatório sobre a economia
francesa recomendando mais flexibilidade no trabalho e reforma da
Previdência. É o oposto do que o senhor prescreve, não?
Isso é nonsense. A França é o único país europeu que entendeu as causas da
crise. Se todos os países começarem a cortar salários, o resultado certo
será deflação.
Essa recomendação reflete o pensamento econômico convencional, de que ter
salários flexíveis, principalmente para baixo, resolve tudo. Foi o dogma que
a Alemanha seguiu e que nos trouxe à situação atual.

O aumento da competição da China e dos EUA, que querem aumentar suas
exportações, não é um desafio para o Estado de bem-estar europeu?
Não. Enquanto tivermos aumento de produtividade, os salários podem aumentar.
Sempre que fizermos o oposto, cedo ou tarde nossa taxa de câmbio aumentará,
o que diminui a competitividade.
Você não pode estar sempre ganhando competitividade em relação ao resto do
mundo. Mais cedo ou mais tarde, a taxa de câmbio vai reagir.
Quando um país tem um grande deficit em conta-corrente, normalmente deprecia
sua moeda, e desse modo toda a competitividade que você ganhou vai embora.
Não há outro modo para o mundo elevar o bem-estar do que subindo salários de
acordo com a produtividade. Essa será a mensagem de nosso próximo relatório
sobre comércio e desenvolvimento. Se você quiser ser bem-sucedido, externa e
internamente, é o mais importante.

Como responde ao argumento de que Europa tem alto nível de desemprego porque
os salários são altos e o mercado de trabalho é pouco flexível?
É totalmente errado. No caso da Alemanha, houve só um efeito positivo do
“dumping” salarial, que foi encher os vizinhos com suas exportações.
Internamente, a política foi um desastre. Não houve aumento dos
investimentos nem do consumo.

Antes dos pacotes de estímulo para contornar a crise financeira de 2008, não
havia um problema fiscal na maioria dos países europeus. Agora esse é
apontado como o maior problema. Por quê?
Isso é parte da batalha ideológica. As pessoas agora dizem que o governo é o
problema, e não que resolveria todos os problemas, como se dizia há dois
anos. Mas os que devem ser culpados pela confusão em que estamos são os
mercados financeiros.
Os neoclássicos querem usar esse argumento [problema fiscal] para voltar à
batalha e talvez serem os vitoriosos no fim. Então declaram os governos
falidos, o que é falso: nenhum governo agora está falido, e os problemas
podem ser resolvidos.
Os mercados dizerem que não querem dar dinheiro aos governos é ridículo,
porque tiveram dinheiro deles e agora se recusam a pagar.

Como o sr. vê o argumento de que países como Grécia, Espanha e Portugal têm
vivido acima de seus meios?
E um país grande tem vivido abaixo dos seus meios, que é a Alemanha. Se isso
for reconhecido, temos base para uma discussão razoável.

Folha.com
Leia a íntegra da entrevista
folha.com.br/101435

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